30.4.04
Os Recordes do José Manuel Fernades
O Recorde
"O Brasil tem 11 por cento dos homicídios registados em todo o mundo, afirmou o representante do programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Carlos Lopes, apesar do país representar 2,8% da população mundial. Carlos Lopes falava quarta-feira no Rio de Janeiro durante a abertura de um Seminário Internacional de Armas. O representante da ONU lembrou que no Brasil 40 mil pessoas são mortas anualmente com o uso de armas de fogo. "Este número é superior ao das vítimas da guerra do Iraque. Portanto, num país que está em paz é difícil conceber que haja tantas mortes resultantes da utilização indevida das armas", afirmou."
Publico, 30 de Abril 2004


Há dias em que acordo triste...
Abri o jornal, e pimba apanho com esta. O José Manuel "Bush" Fernandes já nos podia ir poupando destas, pois ele sabe que nos sabemos aquilo que ele pensa daquilo que nos pensamos do que ele pensa sobre a Guerra no Iraque. Assim, ele não podia deixar de lançar mais uma propaganda direitista camuflada em "Recorde".
O representante da ONU na sua vontade ingénua de fazer crer a sua retórica à plateia do seminário tem aqui uns equívocos:
Ponto 1 - o Brasil representa 1.9% da população mundial e não 2.8%. Os 0.9% são sensivelmente, a população do nosso querido Portugal. Com os 40 mil dos homicídios, matou ele em segundos 10 milhões de compatriotas.
Ponto 2 - a comparação com a guerra do Iraque! Porque não usou ele outros números estatísticos do mesmo país? Sabemos que a base de comparação está nas armas, mas não podia o representante da ONU usado números da Organização Mundial de Saúde relativamente aos acidentes de transito no mesmo período de tempo no Brasil? (só foram 33.000)
Responderia ele: Claro que não! Esses não são homicídios!
E no Iraque?!
Ponto 3 - "É difícil conceber que haja tantas mortes resultantes da utilização indevida das armas" dizia Carlos Lopes.
Utilização indevida!!!? Estou parvo! Se é errada deve haver uma forma certa de as utilizar? Não conheço. Provavelmente só no Iraque!?

A esta hora estar� José "Bush" Fernandes a pensar:
Que ideia a aquela das mortes no trânsito!
Dah! No Iraque por esta altura já não devem haver carros para se fazer este tipo de comparação!

Já agora Lula da Silva descalça depressa esta pedra do sapato!

tensão e um café se faz favor!
Ontem, ao passar pela baixa de Coimbra deparei-me com 4 rapazes altos e bem penteados numa esplanada. Nada de estranhar senão o facto de estarem os 4 vestidos de bata. Olhei melhor e incrível: tinham num papel A4 mal amanhado as letras "tensão arterial" e eles explicavam que eram estudantes de medicina e que estavam ali para pedir "uma ajudinha". Dinheiro pela tensão. Eu é que fiquei tensa! Começam bem...

a liberdade acaba?
Já várias vezes parei na frase: a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Escrita, avisada, gritada ou escarrapachada em alguma cara zangada. Das várias vezes me soou mal. Lembra os autocarros cheios em dias de muito calor. As pessoas colam-se peganhentas, fazem-se encolhidas para não serem tocadas, suspendem a respiração ao cheiro do sovaco vizinho. Como se cada um de nós fosse uma ilha atrofiada pelos demais. Sei que muitos dizem esta expressão no sentido do respeito aos outros, mas não somos nós a continuação uns dos outros? Não é a nossa liberdade conseguida também com liberdade dos outros?
Há o risco das demasiadas regras, da perda da descontracção, da paranóia da saúde, ou da limpeza, ou da organização. Dizem tanto mal de Portugal (alguns com muita razão) mas eu por mim gosto de algum desembaraço que temos, gosto dos quintais e consigo achar graça a marquises feíssimas construídas por uma gente que pulsa, que dobra mas não racha, mãos e caras marcadas de sonhos arrancados ao chão.
Há uma BD muito gira do Quino em que um grupo de homens espeta numa praça "Aposta-se que não sabem o que é proibido!" e então, toda a gente à volta fica à rasca, sem saber mesmo, como se tudo pudesse de facto o ser!
Alguma libertinagem agrada-me!

Libertino: dissoluto; devasso; ímpio; s. m. livre pensador.

da Ciência em Portugal (corrigido)
O Zé Pedro está em Nottingham a fazer doutoramento em Ressonância Magnética. Passo-lhe a palavra, para comentar as medidas contra a "fuga de cérebros" anunciadas pela nossa Ministra da Ciência e do Ensino Superior:

"Foi com grande entusiasmo que tomei conhecimento das novas iniciativas do nosso governo para a caça aos cérebros... basta ter mais de 100 publicações, 200 citações e mais de 10 estudantes de doutoramento. Os interessados serão certamente muitos (especialmente de Física de Partículas [onde cada artigo é subscrito por toda a gente que esteja remotamente envolvida, sendo possível ter uma centena de artigos sem nunca ter escrito coisa nenhuma]), e como eu tenho por objectivo regressar a Portugal, ainda que me faltem 10 estudantes de doutoramento, 200 citações e 99 artigos (98 em vias de 97 se contarmos com os submetidos), decidi que o objectivo passará necessariamente por levar alguém que pudesse servir de mecenas para o meu trabalho.
O meu pensamento foi logo para o meu orientador por quem nutro uma enorme admiração... tem 41 anos, foi o mais novo catedrático da universidade de Nottingham e está na lista dos mais novos no Reino Unido, e é um investigador notável (pelo menos a mim impressiona)... acontece porém que ainda que não tenha problemas quanto a citações e estudantes de doutoramento tem apenas 79 publicações no ISI... depois de toda a expectativa tive que informar o meu orientador que afinal nada feito, não poderíamos montar o laboratório em Portugal... talvez daqui a dois anos Richard... vais ter que continuar a publicar... disse-lhe eu. Ele... ele aceitou a verdade dos factos com enorme humildade. Do meu laboratório o único elegível é mesmo o nosso nobel Peter Mansfield que aos 76 anos vai em 109 publicações e anda a pensar fazer uma viagem de cruzeiro no Mediterrâneo e talvez não se importe de fazer umas férias de dois ou três anos em Portugal... "

29.4.04
Dia Mundial da Dança II
"Pedro Almodôvar volta a surpreender com Hable con Ella, uma história sobre a incomunicação, a comunicação entre casais e sobretudo sobre a solidão, o amor e a vida. Os reposteiros cor-de-salmão que cobrem o cenário abrem-se para um espectãculo de Pina Bausch, "Café Müller". Entre os espectadores, dois homens que não se conhecem - Benigno, um enfermeiro, e Marco, um jornalista de 40 e poucos anos - estão sentados lado a lado. No palco, repleto de cadeiras e mesas de madeira, duas mulheres de olhos fechados e bra�os estendidos movem-se ao compasso de "The Fairy Queen", de Henry Purcell. Marco emociona-se e começa a chorar. Benigno vê o brilho das suas lágrimas na escuridão da plateia. Gostava de lhe poder dizer que também ele está emocionado com o espectáculo, mas não se atreve. Meses depois, os dois homens voltam a encontrar-se na clínica "El Bosque", uma instituição privada onde Benigno trabalha. Benigno cuida de uma mulher, Alicia, uma jovem bailarina que está em coma. Este é o início de uma amizade entre os dois homens. Dentro do filme, há ainda espaço para um outro filme, "O Amante Minguante", um filme mudo, a preto e branco, também realizado por Almodôvar.�
Público Quinta 29 de Abril 2004
(Hable con Ella) Pedro Almodôvar, com Daréo Grandinetti, Javier Câmara, Leonor Watling, Rosario Flores. Espanha, 2002, 112 min.
RTP1. Quinta-feira 29 às 23h30.

Este é o Diego


Depois de toda a publicidade que fiz durante a semana à volta de Diego Parra Duque e seus workshops, chegou o momento porque todos esperavam!!! A Márcia (rapariga de que vos falei no post de dia 26) estuda na Faculdade de Belas Artes no Chiado e tão entusiasmada como eu com o Diego, resolveu convidá-lo para uma apresentação amanhã pelas 14 horas no auditório da dita cuja faculdade. Tenho a certeza de que vai valer a pena. Apareçam!

Os vencidos do catolicismo e novidades na blogoesfera
Foi num artigo sobre a Igreja e o 25 de Abril que Frei Bento Domingues tocou no assunto. Pegou nas palavras do Cardeal Patriarca de felicitação pelo 30º aniversário da Revolução dos Cravos e acrescentou:

«Mas para a "cultura da memória" acerca do papel da Igreja durante as décadas de 60 e 70 do séc. XX não basta destacar a coerência das posições da Conferência Episcopal Portuguesa desde o 25 de Abril. Para usar a expressão do poeta Ruy Belo e que serviu de título a um sugestivo opúsculo de João Bénard da Costa, os bispos têm o dever de procurar entrar em diálogo com "os vencidos do catolicismo".»

A nossa Igreja tem ainda muitos diálogos a estabelecer e este é seguramente um deles. Basta ler a "Casa Encantada" (provavelmente as melhores crónicas publicadas na nossa imprensa) para perceber isto.

Inspirado nos "vencidos do catolicismo", surgiu entretanto um blog colectivo semanal: Terra da Alegria. Para abertura nada melhor que o próprio poema de Ruy Belo. Segue-se a genealogia, por Rui Almeida: "nós, herdeiro dos vencidos". Mais adiante, José (não eu, outro José, por sinal parecido comigo...):

«Não é pois a coerência interna da minha religião que me faz dizer que se hoje eu tenho Fé é porque sou cristão e católico. Não, de todo. Nem é por pensar que a minha Fé é o melhor caminho para a salvação e a vida eterna. Nem é por achar que a minha Fé é a que me dá um melhor conhecimento da natureza de Deus. Nem é por uma maior identificação estética com a nossa liturgia. Nada disso.
Nem sei dizer isto sem recorrer a um estafadíssimo lugar comum: o que me faz cristão é mesmo Cristo, a Sua pessoa, a Sua palavra, a Sua vida.»

Não vou descrever o resto desta primeira edição, mais do que um resumo ela merece uma leitura na íntegra. Por isso aqui agradecemos o que já apareceu escrito e inauguramos a nossa galeria de links com a terra da alegria (logo ao lado do posto de comandos).

Dia Mundial da Dan�


(Pina Bausch)

descobrir humanidade


(Paul Cézanne, "Le Jardinier Vallier")

"Perhaps all the dragons in
our lives are princesses
who are only waiting to see
us once, beautiful and brave.
Perhaps everything terrible
is, its deepest being,
something that needs our love."


Rainer Maria Rilke

Avaliação ambiental ?? - isso já não se usa!!


"Santana Lopes pediu isen��o de avalia��o ambiental para t�nel do Marqu�s"

Presidente da câmara enviou carta ao secretário de Estado do Ambiente

Continuo a fase de trocadilhos Futebolopolíticos: "nunca fui à bola com este gajo!!!"

Anexo: Curiosamente hoje estive cerca de 15 minutos à espera do autocarro vinte e três numa paragem que fica mesmo em frente às obras do afamado túnel. Curiosamente as obras não estavam paradas. Hipóteses: a) eu sonhei e as obras não tinham que parar b) o Santana Lopes sonhou e não era preciso nenhuma avaliação técnica prévia (e não a meio da obra) porque isso só é necessário aquando da construção de autostradas c) o sr. secretário de estado para o Ambiente teve um pesadelo e autorizou logo o pedido do sr. presidente da câmara.

28.4.04
Boys Band !?
"Exclusivo: Cristiano Ronaldo, Jorge Andrade e Miguel vão aprender a dançar para a coreografia do Euro 2004"

em nota de rodapé durante o jogo Portugal-Suécia na RTP 1

Euro(peias) 2004: Figo a Presidente!


Já todos sabíamos que o poder de imaginação e criatividade da nossa classe política é fraco e potencialmente contagioso. A campanha para as Europeias pelos nossos dois (o PP conta!?) partidos de mais adeptos só nos confirma o facto.

No ano do primeiro Europeu de futebol que temos cá por casa as ideias (!?) dos cartazes para o Parlamento Europeu primam pela gíria futebolística: e a verdade é que a discussão é do nível de um jogo entre equipas para não descer da terceira divisão portuguesa.

Temos um "Merecemos um Portugal melhor" de um PS em manuten��o que quer mostrar cart�o amarelo ao governo, e a quem falta um "Mister" m�o-de-ferro.

E um "Força Portugal" de um PSD a jogar em contra-ataque (diga-se sem ataque próprio, e à base de corridas para a frente e desmarcações) a afirmar que quem pede o amarelo é quem deixou Portugal no vermelho.

Salve-se o Bloco de Esquerda com um cartaz demolidor "Eles mentem, eles perdem: na Europa como em Portugal" em que um Aznar a preto e branco lembra que já temos um Zapatero em Espanha e que Blair, Bush e Durão devem ficar em fora de jogo. É aquela equipa que subiu este ano de divisão, toda a gente pensava que ia jogar para a permanência e torna-se revelação... um pormenor: anda a tentar ganhar pontos aos Grandes.

Que escolham imagens ligadas ao futebol ainda vá que não vá. Agora que escolham o pior do futebol: os cartões que punem a infracção às regras. Dá vontade de dar ideias:

Deus Pinheiro, o nosso melhor goleador para a Europa!
Com Sousa Franco não há frangos, balizas imbatíveis
PSD - uma organização táctica ao serviço do povo
Sousa Franco, o homem que inventou o pontapé de bicicleta!

É caso para dizer: - para as Europeias é só golos na própria baliza!

Senhoras e senhores... um músico, um técnico de som e um pescador
Bruce Lundvall é o "chefe" da Blue Note. Para quem não liga muito ao Jazz, a Blue Note é... a Blue Note. O nome diz tudo. É absolutamente incontornável quando se fala de Jazz.
O último número da Egoísta apresenta-nos Bruce Lundvall em discurso directo. Pode ser lido na íntegra no JazzPortugal.
Entre muitas coisas mais, um recorte do que disse este "saxofonista sem grande génio":

"I have three sons. My younger son is a recording engineer. He's very good, he's a mastering engineer. My middle son is an artist, a wonderful artist. And he's a composer and he has records out in England. He plays keyboards, he's very talented. My older son is a fisherman, he has a commercial fishing business. He loves it! That's all he's ever done. He dropped out of college and he was a charter boat captain."

Um pai orgulhoso dos seus três filhos: um músico, um técnico de som e... um pescador.
"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?" - pergunta Pessoa. Mas eu não deixo! Serei pescador!

E ora aí está um bom mote para reflexão no próximo domingo, Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

Entabular de conversa


Aceitado o convite do outro Zé (o Filipe) deste Blog para um copo de Porto à volta de uma conversa (ou amena cavaqueira � volta do copo de Porto) ponho-me a caminho. Já estava atrasado para a hora combinada do encontro e vou com o "Venham mais cinco" do Zeca a ecoar na cabeça e no ouvido (da colecção do Público para o festejo dos 30 anos passados da nossa Revolução de Abril: "canções de luta e liberdade") a pensar no que é isso de conversar e "encher tudo de futuros". Queria que "a conversa" começasse de alguma maneira que eu sentisse que valia a pena... sinto que ainda há muitas revoluções a fazer, mesmo que sejam só internas: minhas.

À partida conversar é simples, banal, toda a gente pode fazê-lo e, apesar disso, pode ser extraordinariamente apaixonante e rico (fácil, barato e dá milhães). Não será "a mais amarga das queixas, a da solidão, a da falta de alguém com quem ter dois dedos de conversa?" (Fernando BELO, A Conversa, Linguagem do quotidiano).

Ia eu com estas ideias na cabeça para o meu primeiro escrito quando deparo com o Diego Parra e percebo o que é isto que a Rita (a Wemans) chamava de "encher tudo de futuros". Lembro-me que quando foi a apresentação do livro dela, Maria de Lourdes Pintasilgo (uma mulher com M maiúsculo enorme) convidada de honra para a apresentação, me deixou com o "frenesim" de querer construir coisas bonitas, de ser bom no que faço, este mesmo "frenesim" que tenho agora... há pessoas que têm esta capacidade de nos arrancar ao "deixarmo-nos levar pela vida" para nos levarem até ao "agarramos a nossa vida".

Um agradecimento ao Zé Filipe por nos ter posto à conversa, esperemos que quem nos leia goste.

26.4.04
La verdad se inventa, la mentira es falta de imaginaci�
Voz, palavra e gesto: são os três elementos fundamentais para contar que podemos utilizar e melhorar. Foi por aqui que Diego Parra começou o primeiro workshop, a arte de contar contos, dos três (criatividade ; formação de grupos) que vai coordenar na próxima semana e a que cerca de 30 privilegiados tiveram o prazer de assistir no último fim de semana no Centro Comunitário de Carcavelos. Tem vindo a Carcavelos todos os anos desde há sete anos para cá e já tem um conjunto de seguidores de empenhada lealdade.

Tez morena e riso de menino em corpo de homem alto, muito cativante nos seus olhos brilhantes Diego Parra Duque é um colombiano muito especial. Cursado em Economia área em que trabalha com várias empresas ao nível publicitário e como consultor, mestre em Criatividade Aplicada, Professor de Psicologia da Criatividade onde leccionou durante algum tempo na Universidade de Compostela, contador de contos profissional e curioso da vida e das pessoas. Diego é alguém que sabe viver e desperta nos outros Vida: enche todos de futuros. Ele é criatividade e tem arte no viver, é empolgante num "bichinho nervoso" cheio de vontade de fazer coisas.

"O desconhecido é sempre muito maior que o conhecido" e Diego parece-me convicto quando acredita que todos somos potencial, um exemplo:

- Márcia, rapariga de 22 anos está muito nervosa quando avança para palco para contar o seu primeiro conto de sempre. Um cientista, uma velhota e a morte eram protagonistas. Contou o conto disfarcando o nervoso com algum riso e movimentos quase imperceptíveis no cabelo. Diego quando ela acaba desafia-a para recontar mas com a obrigatoriedade de ter sempre uma das mãos no cabelo. O cientista transforma-se em cabelos no ar, a velhota cabelos colados à cara, a morte cabelos esticados na horizontal da face. "Muy Bien!" O conto ganha nova vida e Diego é certeiro quando diz "passamos muito tempo a disfarçar pontos fracos e pouco tempo a apostar nos nossos trunfos. O teu cabelo Márcia é uma qualidade enorme: usa-o!".

Aldina Duarte, a fadista, dizia no Por Outro Lado com Ana Sousa Dias que acreditava que "qualquer pessoa com saúde, comida, educação, e muito amor pode ser muito inteligente". Diego parece querer provar isso mesmo no seu trabalho, alguém que conheça a Ana que lhe diga que tem aqui um convidado de excelência.

Se puderem conversar com este homem aproveitem-no bem.

25.4.04
Cantiga de Abril



Às Forças Armadas e ao povo de Portugal

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raíz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerra de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Jorge de Sena, 1974

24.4.04
24 de Abril de 1974
E embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo
não hei-de morrer sem saber
qual é a cor da liberdade...

Jorge de Sena

Amanhã saberemos qual a cor da liberdade. Já amanhã. Dá para acreditar?

Paixões de Cristo IV


(Coreia do Norte, Tom Haskells)

21.4.04
Science in fiction ou 'hara-kiri' científico
O pai da pílula, Carl Djerassi, tornou-se escritor. Não de fição científica, mas do que chama science in fiction. Notas de uma curiosa entrevista:

"os cientistas modernos, desde Galileu, não sabem dialogar. Isso não acontecia com os gregos e o diálogo é talvez a forma mais persuasiva de comunicação."

Mais adiante:
"Na vida marital a monogamia é uma coisa boa, mas intelectualmente é o contrário. Nas universidades tornamo-nos especialistas, muito limitados a uma àrea, mas a sociedade precisa cada vez mais de generalistas, de pessoas que se interessem por coisas diferentes."

Paixões de Cristo III


(Tibete, bandeiras de ora��o nas montanhas, Linda Griffiths)

18.4.04
Somos filhos da não-fatalidade
Alguns apontamentos da conferê�ncia da Comissão Justiça e Paz de Aveiro, no passado sábado, para apresentação da Carta da Comissão Nacional Justiça e Paz aos Cristãos. A falta de atenção às situações de exclusão é um dos maiores pecados dos nossos dias. Em escalas diversas, a pobreza vai-se-nos mostrando nos relatórios da ONU, nos telejornais, nos jornais regionais, nas conversas de café, na nossa rua. O discurso sem esperança, a aceitação da realidade como uma fatalidade, a omissão, são os grandes pecados dos nossos dias. A ressurreição foi a coisa menos previsível que aconteceu a Jesus Cristo. Ao contrário de todas as espectativas, nem a morte foi inultrapassavel. Quem encara a exclusão, o sofrimento, a falta de liberdade, como fatalidades esquece-se do essencial: os cristãos são filhos da não-fatalidade.

Paixões de Cristo II


(Atocha Madrid, oil, 114x146, Martin Ballesteros)

14.4.04
Paixões de Cristo I


(Favela Rocinha, em Pintura Naíf Brasileira)

Paixões de Cristo
Fui mesmo dar os 4 euros ao Mel Gibson. O meu lado cinéfilo sobrepôs-se à minha sensibilidade... Não vale a pena tecer muitos comentários. À saída um colega, disse-me que achava que, "à maneira de cada um", o filme despertava uma pontinha de fé. Eu disse-lhe que não concordava. Ele ressalvou o "à maneira de cada um". E eu acrescento que aquela não é a minha maneira de encarar a fé e a Paixão. "Eu quero o amor e não os sacrifícios, / E o conhecimento de Deus mais que os holocaustos." (Os, 6,6)

Depois duns dias fora pela Páscoa, volto a ler os jornais e ouvir noticiários. E encontro aí muitas paixões de Cristo. O Miguel tem raz�o: há mais para reflectir a Paixão de Cristo nas notícias que nos chegam do Iraque, do que no filme. Ou, nas palavras do Tolentino: O sofrimento de Cristo é solidário com a grande e anónima corrente do sofrimento humano.

Por isso mesmo, segue-se uma série de paixões de Cristo.

8.4.04
Pictures of intolerance


Global Gallery.

A inspiração
Para quem não conhece o livro da Rita:



Não, não lhe roubámos o título. Foi ela que no-lo ofereceu.

3.4.04
Futuros, número zero
A fase de arranque está a demorar. Recusamo-nos a dar desculpas de muito trabalho ou pouco tempo ou coisas semelhantes. Temos todo o tempo do mundo e fazemos poucas coisas. Mas ainda não foi em Março que isto começou mesmo a funcionar. Vejamos se a Páscoa nos inspira...



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