31.10.04
Inconveniente
O DESPERTADOR TOCA SEMPRE NA ALTURA EM QUE ESTAMOS A DORMIR MELHOR, NÃO É!?


(Andei a semana toda com este post na cabeça que, ironia do destino, coloco hoje, Domingo, em que acordei às horas em que muito bem me apeteceu e tive mais uma hora, com a mudança de hora, para dormir.)

A videoteca do DocLisboa
O DocLisboa — Festival Internacional Documental de Lisboa - na Culturgest tem sido elogiado, falado, comentado, enunciado, citado e outras coisas acabadas em -ado por toda a gente. É bom, barato e tem a qualidade de não prometer milhões.

Mas a grande qualidade do DocLisboa para quem chega por exemplo atrasado (que foi como eu descobri tal proeza!), ou para quem quer assistir a todos os documentários do Festival (tornando-se obviamente o "barato" em "caro") é existir um espaço no piso 1 chamado videoteca. Esse magnífico espaço é fácil de utilizar: chegamos, entramos, somos atendidos por uma meninas bonitas e simpáticas que nos cedem uma lista de onde escolhemos um filme de entre todos os filmes do festival, e mais alguns que não vão ser apresentados, dirigimo-nos com a cassete vhs fornecida a um dos televisores, inserimos a dita cassete no vídeo, play, pomos os phones e pumba podemos assitir quando quisermos (dentro do horário em que está aberto, fecha às 9 da noite) ao(s) filme(s) que escolhemos gratuitamente e bem instalados!

29.10.04
parabéns
Há blogs cujos aniversários merecem mesmo ser comemorados. A Rua da Judiaria é claramente um deles. Podia elogiar o design elegante, os muito bons posts com muita informação e muitas ligações para quem quiser ler e aprender. Podia elogiar a seriedade e exigência dos posts que ali são colocados. Mas mais importante que os elogios é um obrigado por nos mostrar com clareza e sensibilidade o que a identidade judaica tem de mais valioso. Um abraço de parabéns!


(Marc Chagall, The Birthday, 1915, óleo sobre tela, Museum of Modern Art, NY)

28.10.04
RAP (rhythm and poetry)
A ess�ncia do rap nasce e cresce associado a uma reinvidica��o por uma vida melhor entre as gentes mais pobres e jovens (com o cunho a surgir dos afro europeus e americanos), com a for�a na palavra, no escrever, no dizer; dentro de uma cultura de rua apelidada de Hip Hop (associado ao BreakDance e ao Grafitti). Nasce como potencialidade com alguma parecen�a como fen�meno com o da capoeira dan�a dos escravos que mascara um treino de luta para os colonos; um paralelo na modernidade. Qualquer uma destas componentes s�o pe�as que encaixam na perfei��o no puzzle de alguns dos meus gostos: o escrever, o ler, o brincar com as palavras e ideias, a preocupa��o social com a responsabilidade de reinvidicar, n�o acomodar, ser exigente, a vida dif�cil da rua e algum fasc�nio ut�pico de liberdade que encontro nela, nalgum do seu conte�do mais pesado e nas suas formas de estar e expressar (ver anexo 1).
O Rap teve o seu crescendo j� durante a minha vida, com os MC's (masters of cerimony) a terem passado de uma estrutura marginal ao grande palco comercial com o melhor exemplo disso mesmo a evolu��o de Eminem; � assim o capitalismo e seus paradoxos: aproveita um recurso de combate integrando-o na sua grande m�quina.

N�o sei exactamente onde come�ou para mim a rela��o, foi efeito bola de neve: na escola, no 7�/8� ano ligado a algumas pessoas conhecidas que me passaram cd's at� crescer uma paix�o que me levava a desafiar amigos para concertos, indo at� algumas vezes sozinho quando queria muito e ningu�m mais queria "ouvir rapateco".
Do descobrir este jeito de estar ganhei contornos de f�: Gabriel "O Pensador" e Da Weasel � cabe�a; Mind the Gap, Cypress Hill, Le secteur A e outros espor�dicos como cereja em cima do bolo.

Hoje em dia, vou estando atento de longe, menos envolvido, embora n�o perca concertos do 'Biel sempre que ele c� vem, e grato em ver o crescimento (de uma forma algo comercial de que desconfio - saudades dos j� n�o existentes concertos pequeninos de garagem e muito fumo - ver anexo 2) de import�ncia dos Da Weasel. Vou comprando os cd's, gosto de algumas coisas outras nem tanto; tenho algumas saudades e ainda me brilha os olhos quando reconhe�o ter sido um bocado de vida com tanta qualidade.

Anexo 1:

"Pensa! O pensamento tem poder.
Mas n�o adianta s� pensar.
Voc� tamb�m tem que dizer! Diz!
Porque as palavras t�m poder.
Mas n�o adianta s� dizer.
Voc� tamb�m tem que fazer! Faz!
Porque voc� s� vai saber se o final vai ser feliz depois que tudo acontecer.
E depois a gente pensa.
E depois a gente diz.
E depois a gente faz... o que tiver que fazer!
O que tiver que fazer!"

(m�sica Se liga a� do �lbum "Seja voc� mesmo mas n�o seja sempre o mesmo" do
Gabriel "O Pensador")

Anexo2:

"Yo, Jay - tenho saudade dos tempos de garagem,
Com material de ... e muita coragem
Era tudo t�o puro, t�o seguro e verdadeiro
Curte pela curte, nem havia dinheiro
S� concertos de hardcore com o people l� da rua
Bezanas lixadas, cada um com a sua
Uma bola bem unida que juntava uma avenida
T�nhamos respeito por direito pela atitude assumida
S�bado � tarde no Rock Rendez Vous para curtir um trash
Muito suor, n�doa negra, muito cheiro de haxe
Putos atrevidos com muito feeling e vontade
Mas sem uma no��o muito certa da realidade (...)"

(m�sica Jay do �lbum "Podes fugir mas n�o te podes esconder" dos Da Weasel)


Vou pondo de vez em quando alguns peda�os de letras se n�o se importarem.

mãe babada
Vai pelo início da noite antes do jantar com a sua filha até à praia. Saem do carro as duas, filha logo em pulgas e em corrida a espreitar, mãe mais demorada a arrumar o telemóvel no carro para não chatear, a pegar nas tralhas da filha, a trancar o carro. Descem para a areia pela ponta da praia, onde em certos dias a filha consegue fazer voar um bando de gaivotas com uma corrida rápida até elas, depois fica a olhá-las do chão, sonhando com o saber voar. É bonito.

A mãe observa silenciosa.
A filha arrisca-se junto às ondas onde "o mar bate na areia e desmaia", como na música, molhando os pés em corrida e rindo muito; depois volta a correr a receber um mimo da mãe para voltar a correr para a brincadeira curiosa de reconhecer a praia. A areia está muito limpa, o mar apagou o quadro das pegadas, a praia é soprada pelo vento.

A mãe observa tudo silenciosa e desocupa-se a andar, a olhar, a estar.
A filha pede a bola à mãe que a atira com força para o fundo, para uma corrida enorme que acaba no agarrar da bola levantando areia, e mostrando-a no alto em glória trazendo-a de volta.

Caminham sempre até à outra ponta da praia, felizes de ali estarem naquele momento delas duas. Ouvem o mar, o vento. Deslumbram-se com o cimo da falésia enorme e o seu contraste com o céu. A lua é grande. No fim da praia há uma praia muito pequenina, um esconderijo delas onde já se molharam nuas. De cada um dos lados dessa praia há, torneando as rochas dois corredores escuros por onde o mar avança e onde não há mundo senão aquele. Por vezes sobem as duas a uma rocha e vêem o mar e a praia grande lá do alto. Depois retornam: brincando a tentar seguir as pegadas que tinham feito na ida; filha brincandeira corrida curiosa, mãe observa tudo silenciosa.

Ontem correram as duas por de baixo dos chuviscos que eu bem vi. Não acreditaram que a lua enorme e branca se ia eclipsar, e eu também não.

25.10.04
à segunda...
É segunda-feira e a edição extra da Terra da Alegria está aí:

"Não dou crédito a Deus. Não acredito em Deus. Creio em Deus Amor, apesar de tudo quanto parece negá-lO. O seu próprio Ser é Amor, é a sua substância. Por isso estou convencido de que a separação fundamental da humanidade não se faz entre aqueles que se dizem crentes e aqueles que são designados, ou se chamam a si próprios, não-crentes. Será feita entre os "idólatras" de si mesmos, e os "comungantes"; entre os que, perante o sofrimento dos outros, se afastam e aqueles que lutam para os libertar. Será feita entre os que amam e os que se recusam a amar."
(Abbé Pierre, Memórias de um crente)

É sobre isto o meu texto de hoje, chamado "O lugar do Outro". Também lá encontrarão um pequeno mas excelente texto do Marco Oliveira sobre "Os pobres", tema a que espero voltar brevemente.

23.10.04
quem vê caras vê corações
Dois recortes ilustrados do artigo desta semana de João Bérnard da Costa intitulado "Retratos Premonitórios":

«à roda de um copo, a propósito já não sei bem de quê (é mentira, lembro-me muito bem), citou ela alguém que se espantava com o humano pudor que leva a ocultar o sexo mas a exibir a cara, "a coisa mais nua que todos temos".

É verdade que tudo num corpo é revelação e que dos pés à cabeça (com especial importância para as mãos) pode-se desvelar muita coisa. Já conheci especialistas de tudo, até de umbigos e de tornozelos, e não me custa a admitir que haja sexos intoleráveis, mas Hanna Schygulla tem razão. Nua nua só a cara e nudíssimos nudíssimos só os olhos e a boca. Isso a que se chama expressão e que é sempre o que faz a maior impressão.

Deixo-vos a olhar, uma vez mais, "Lucrezia Panciatichi", de Bronzino, minha tão incerta secretária de premonição. Já viram mulher mais vestida? Já viram mulher mais nua?



Há uns tempos, referi-me, numa destas crónicas, a um retrato de Tiziano, actualmente em Filadélfia, que me foi revelado por Jean Louis Schefer. Representa o arcebispo Filippo Archinto, e mostra-o com o rosto semicoberto por um véu. Na altura, pensei que o prelado tivesse um defeito qualquer que essa forma de representação ocultaria. Muito mais sabido em coisas de iconografia do que eu, Schefer desenganou-me. Tiziano queria apenas significar que o arcebispo já tinha morrido quando ele o pintou, já que os mortos, se mantém por algum tempo isso a que se chama expressão (e que nunca ninguém conseguiu explicar convincentemente o que seja), perdem-na rapidamente (por isso mesmo, tão pouco tempo são expostos). Cobrindo parcialmente a eminência, Tiziano deu-nos a ver "la mort au travail", o que acontece aliás com qualquer retrato, suspensor do tempo e não seu veículo.
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21.10.04
o Ensino Superior
Antes do in�cio das aulas, todos os novos "teaching assistants" tiveram mais tr�s dias de ac��es de forma��o. Discutiu-se o c�digo de conduta da universidade, alguns "case studies", vision�mos v�deos reais de boas e de m�s aulas.
Para o �ltimo dia, estava reservado o melhor. De manh�, enquanto �ramos filmados, cada um de n�s teve de simular 15 minutos de aula. No fim, receb�amos, por escrito, as cr�ticas dos nossos colegas. � tarde, em conjunto, vision�mos os v�deos de cada um, e discutimos as cr�ticas que t�nhamos recebido.
� (Luis Conraria no P�blico de ontem)

No mesmo dia em que este artigo foi publicado, um grupo de estudantes tentava invadir a reuni�o do Senado da Universidade de Coimbra. A democracia nos �rg�os de gest�o s� vale quando concordamos com as suas decis�es. A PSP foi chamada e formou barreira. Os estudantes tentaram romper, de forma violenta. Foi chamado o corpo de interven��o que aguentou a barreira com alguma falta de proporcionalidade. No autocarro ou�o uma manifestante queixar-se do grupo de arruaceiros: "s�o sempre os mesmo a querer fazer de m�rtires!". N�o foi um estudante indefeso que foi preso pelas for�as policiais. Foi um golpe de vitimiza��o programado para apelar a mais contesta��o. Duvido que resulte em alguma coisa. O grau de mobiliza��o entre os estudantes � baixo. A participa��o nas Magnas mostra-o. � pena, havia muito a discutir e a mudar na nossa universidade. Basta comparar o excerto de Luis Conraria para perceber como estamos longe desse modelo de Ensino Superior.
Tamb�m ao mesmo tempo, durante uma aula, gerou-se uma discuss�o entre o professor e a dezena de alunos presentes, a prop�sito da qualidade de ensino. A dedica��o dos professores e a motiva��o dos alunos, as prescri��es e as fraudes pedag�gicas, a vida acad�mica e a vida nocturna, o estado da universidade e o estado do Estado, o movimento estudantil e as suas reivindica��es -- tudo isso passou por aquela conversa breve, enquanto l� em baixo se lutava contra as propinas ao empurr�o. O Governo agradece: desinvestir na educa��o passar� a ser ainda mais f�cil daqui para diante.

20.10.04
Antes
Antes.
Antes do ritmo inebriante daquela sala, antes daquelas vozes e daqueles instrumentos.
Antes dos p�s descal�os que rasavam o ar cortando-o, ora muit�ssimo lentos ora inacreditavelmente r�pidos.
Antes daquela aud�cia.
Antes do riso, da vontade de voltar aquela sala e fazer parte daquela roda-capoeira, onde todos t�m lugar no centro.
Antes. Antes disso.
Esperava sozinha no carro que s� me conseguia trazer uma m�sica boa mas roufenha, roufenha como s� um r�dio sem antena consegue.
Esperava sozinha. Olhei pela janela do passageiro de tr�s, a do lado esquerdo. E ali. No jardim da igreja onde brinquei tantas vezes (e onde nunca mais voltei), agora aberto � cidade j� sem as veda��es, eles passeavam.
O jardim, com o campo de basket e com os baloi�os, tamb�m eles muito melhorados, estava iluminado. N�o muito. Como nos filmes americanos. Ali n�o jogava ningu�m. Eles passeavam (des)cansados.
Uma mulher loira, alta, atenta.
Um homem ainda mais alto, um pouco curvado, muito novo e de olhar longe. Brincava com um cavalinho fazendo-o repetir o mesmo movimento, sempre o mesmo.
Uma crian�a. A mais loira dos tr�s. Brincava como as crian�as fazem, quase caindo para tr�s no baloi�o, subindo o escorrega ao contr�rio� sempre sob o olhar da m�e que com ela ia falando.
De dentro do carro, pela janela, eu senti-me no cinema a ver um filme mudo sem conseguir distrac��o.
Jardim iluminado, n�o muito, aquele casal imigrante passeava no s�tio que a cidade lhes d�. Num pequeno jardim de igreja terminam o seu dia.
Entraram no carro atr�s de mim e quando os segui pelo retrovisor o homem, parecendo querer impedir-me de continuar, ligou os far�is e nada mais vi. Nada mais vi. Guardei naquele sil�ncio aquela cena de filme.

� bem feito
�� bem feito. Os sinais estavam l�. As novelas. As intermin�veis e desconchavadas novelas em que todas crian�as frequentam col�gios da Linha e s�o louras e precocemente parolas. As Lux e as Flash. O telejornal da TVI. O futebol�s e a sua mir�ade de constela��es e estrelas, as maiores, as menores e as an�s, os dirigentes, os agentes, os jogadores, as transfer�ncias e os treinadores de bancada e de caf�.

O 24 Horas e as suas manchetes sangu�neas e colunas rosa-choque. Os tr�s di�rios desportivos. Os Big Brother's e as chusmas de indigentes que revelaram, geraram e adularam. Os caciques locais.

Felgueiras. Marco de Canaveses. A justi�a, apoucada e achincalhada. A Alexandra Solnado e as conversas de Jesus com a cabritinha. As absten��es, galopantes. A pol�tica, trauliteira e lapuz. Os improp�rios lan�ados a esmo, pelos carroceiros e pelas az�molas que habitam o Parlamento e as autarquias deste pa�s de norte a sul. Os deputados que o s�o porque dominam as concelhias. O triunfo da demagogia, a vit�ria f�cil do populismo.

A farsa da Madeira, esse espect�culo pornogr�fico instalado h� anos na Casa Vigia, onde perora um senhor anti-democrata e fascista, adulado por um dos dois maiores partidos portugueses.

A lenta agonia da Cultura. A asfixia da Ci�ncia. A sangria, continuada, mortal, dos nossos melhores homens e mulheres, em demanda de melhores pa�ses, de outras institui��es que os animem, que os reconhe�am. A invas�o obscena do bet�o em tudo o que � Parque Natural, zona protegida, Rede Natura, arriba f�ssil, rio selvagem, orla costeira.

As oportunidades perdidas. O Alqueva. Os fundos de Coes�o. O Fundo Social Europeu. Os subs�dios � agricultura dados de m�o beijada a pessoas que n�o sabem distinguir um c�o de uma ovelha. Os jipes. Os condom�nios privados. Os montes no Alentejo. As f�rias no Brasil e as festas no Algarve. Os milhares que provam, provado, o ad�gio que diz que quem cabritos vende e cabras n�o tem, de algum lado lhe vem.

Os Ferraris do Vale do Ave. Os processos que prescreveram. Os jornais, as r�dios, as revistas, as televis�es que est�o na m�o de apenas tr�s grandes grupos econ�micos. As campanhas eleitorais, pagas a peso de ouro, a troco n�o se sabe bem do qu�. As negociatas. As promessas. As mentiras. Os impostos que iriam descer e afinal sobem. O emprego que iria subir e afinal desce. O IVA que j� foi a 17% e agora � a 19%.

O Santana Lopes que passou do Sporting para a Figueira, da Figueira para Lisboa e de todas as vezes foi eleito. Democraticamente. E que foi al�ado a n�mero dois do PSD estando, por esse facto, na linha de sucess�o para o cargo de primeiro-ministro.

E, quando tudo isso aconteceu, onde est�vamos n�s ?

Na praia ? No caf� ? Na Ler Devagar, a folhear Heidegger ? Em Londres, a admirar Buckingham Palace ?

N�o sei onde est�vamos. Sei, apenas, que est�vamos calados. E � por isso que � bem feito.

Demitimo-nos do dever de falar, de esclarecer, de protestar, de votar. E, se alguns, poucos, falavam, muitos assobiavam para o ar, como se n�o fosse nada connosco. Era sempre com eles, com os pol�ticos. E est�vamos errados: a pol�tica � nossa. A pol�tica somos n�s que a devemos fazer, participando, votando, reclamando, exigindo.

Abstivemo-nos e as coisas aconteceram. Os factos surgiram e ficaram impunes. Os acontecimentos seguiram o seu curso, o barco singrou desgovernado, com os incapazes ao leme e os arrivistas a bater palmas. Agora que o impens�vel se acastela no horizonte, assim ficamos, aflitos, o cora��o nas m�os, a perguntarmo-nos: como foi poss�vel ? Como ser� poss�vel ?

E mais aflitos ainda ficamos porque sabemos: � poss�vel. Pode acontecer.

Pode acontecer que Paulo Portas e Santana Lopes, dois parasitas do poder, dois demagogos, dois populistas, se enquistem em S�o Bento. Mesmo as elei��es antecipadas, a ocorrer, poder�o n�o o impedir. Mais : as elei��es poder�o at� ser o impulso que necessita essa associa��o simbi�tica contra-natura para se declarar vitoriosa. Bastam uma fotografias nas revistas do cora��o, uns beijinhos nalgumas feiras, uns �sculos nalgumas recep��es, tr�s ou quatro discursos ocos, cheios de sonoridade e de impacto televisivo, a aura de salvadores da p�tria e dos bons costumes, e l� vai o povinho do futebol, dos morangos com a��car e do 24 horas a correr �s urnas, ungir o Sr. Feliz e o Sr. Contente com os louros do poder.

E, mesmo que n�o aconte�am elei��es, a cartilha est� igualmente tra�ada. Os impostos a cair. As festas para o povo pagas com o er�rio p�blico, esse er�rio minguante que � custa de tanto e de tantos foi custosamente aforrado nos dois �ltimos anos. As promo��es em catadupa, os Institutos Estatais criados por decreto, para promover os novos boys e criar novos empregos ef�meros. Os gastos � tripa forra para contentar taxistas, sindicatos, peixeiras, comerciantes, fun��o p�blica.

Os saneamentos. A ostraciza��o dos cr�ticos, dos descontentes, dos que se manifestam.

Tudo isto pode acontecer. N�o s� por dois anos, mas tamb�m por quatro. Ou mais. At� que o dinheiro se acabe ou at� que vague o cargo de Presidente de qualquer coisa. Que at� pode ser o do Pa�s, que a malta nem se importa muito. "

Afinal, os povos cobardes s� t�m aquilo que merecem !.... �


(texto de autor desconhecido recebido por e-mail com o nome �Pacheco Pereira no seu melhor�)

Tempos de mudança


Naqueles tempos, crianças e jovens eram apaixonadas por écrans de computadores e televisões e formadas num "processo educativo que quer pela sua natureza, quer pela sua prática e extensão, tem visado apenas o desenvolvimento cognitivo, ignorando as outras dimensões e capacidades humanas".

A palavra "família" ganhou novos caminhos pela "revolução económica dos séculos XIX e XX, que permitiu às mulheres o acesso a actividades laborais remuneradas exercidas no exterior da casa, deixando (algumas) de continuar na dependência dos maridos," pelo aparecimento das monoparentalidades, dos casais homossexuais exigindo igualdade de direitos, casamento e direito à adopção. "O alargamento e democratização da escolaridade veio, por sua vez, mostrar outros modelos aos filhos, tornando-os menos dependentes do quadro familiar e, portanto, mais autónomos."

Naquele tempo as "ciências" da psicologia e pedagogia eram mundos aliciantes por descobrir, embora muitas vezes por conceitos algo vagos como a "abertura" e a "construção" no desenvolvimento da criança. A Educação continuava a ser a grande questão para aquelas sociedades milhares de anos depois. Sentiam-se estúpidos ao tentar encontrar melhores formas para educar para uma cidadania e uma democracia em que cada qual fosse sujeito na história e não cada qual um no conjunto das individualidades ensimesmadas. Estúpidos por ser longe e distante do real, que real é esse? E que sentido davam as pessoas a essa democracia?

Compreendia-se pela experiência que a introdução do ensino pela arte (ao mais belo estilo dos ideais da Antiguidade Clássica) era potenciadora nos indivíduos e até libertadora pelo teatro, pela dança, pelas expressões plásticas, pela mísica, pelo circo. O estimular a criatividade e a relação com os outros pela estética, pelo sentir do corpo e do existir eram objectivos que podiam chegar a outros estados que não se sabia definir, mas que se sabia serem bons. Mas, traziam obviamente, poucas mais valias para o sistema econ�mico, para a criação de seres competitivos... e daí, talvez estimulassem novas potencialidade nas áreas do marketing, da publicidade e da imagem. Havia também quem os achasse perda de tempo, entretenimento; havia ainda quem não tivesse acesso à palavra "Arte".

Naqueles tempos o mundo ia rodando e mudando.

(citações a itálico retiradas do Dicionário de Sociologia (2002) da Porto Editora)

19.10.04
Conversas cruzadas
J� tinha saudades deste tempo: chuva l� fora, vento forte, aquecedores ligados, po�as de �gua. Estou desejoso de uma noite de trovoada em que fiquemos sem luz c� em casa. A Ginja n�o conhecia o Outono.

Descobri hoje que nunca peguei num beb� ao colo, pelo menos que me lembre. A minha sobrinha rec�m-nascida Caterina vem c� no Natal (s�o os rumores que correm pela Corte), ser� que ela vai come�ar logo a chorar quando a pegar?

A in�s do My Moleskine deixa de querer conversar connosco, vamos desejar todos com muita for�a um arrependimento s�bito. Volta In�s, n�s perdoamos-te!

J� comecei o est�gio, hoje fiz o meu primeiro �ndice, �ndice zero. Espero fazer um trabalho bom, que d� gozo ler.

H� uma teia subterr�nea a mexer-se por detr�s deste blog, uma teia fina e delicada que asseguramos estar a preparar chegadas e surpresas. P� ante p� surgir�o novas leituras.


E por falar em Amor


"Lembro com muito gosto o modo como ela se referia a ele. Pelo menos ela o fez uma vez e isso ficou marcado muito fundo, dizendo: "Caetano, venha ver o preto que voc� gosta." Isso de dizer o preto, sorrindo ternamente como ela o fazia ou fez, tinha, teve, tem um sabor esquisito que intensificava o encanto da arte e da personalidade do mo�o no v�deo. Era como se somasse aquilo que eu via e ouvia uma outra gra�a. Ou como se a confirma��o da realidade daquela pessoa, dando-se assim na forma de uma ben��o, adensasse a sua beleza. Eu sentia alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele. E por minha m�e saudar tudo isso de forma t�o directa e t�o transcendente. Era evidentemente um grande acontecimento a apari��o dessa pessoa, e a minha m�e festejava comigo a descoberta."

(texto "verdade tropical" sobre Gilberto Gil lido por Caetano Veloso no seu disco Prenda Minha)

18.10.04
Voyeur do Blogger
Em escuta:



cd de BADLY DRAWN BOY in "About a Boy"

Em exposição
Há coisa de dois anos numa visita a Serralves uma fotagrafa ficou-me marcada na memória, Nan Goldin. Ela leva-nos a sítios feios de vidas marginais, de ambientes escuros e sujos que chegam a ter cheiro fétido, ambientes que atraem pela forma desse locus horrendus. Os seus temas recorrentes são a pobreza, o isolamento, a solidão, a morte, a (in)diferença, a sexualidade, a prostituição, a sida, ... Durante o fim de semana lembrei-me dela e resolvi ir à procura dela pela internet, ponho em exposiçãoo algumas fotos:


(Piotr Taking his AIDS Medication)..........(Valerie and Mel, maternal embrace)


(Valerie and Gotscho Embracing)............(Isabella as a ghost)........................... (Carmen's second birthday party)


(Greer and Robert on the Bed, New York City, 1983)........................................... (Gotscho kissing Gilles)



(Cookie in her casket, New York City, 1989)...................................................(Rebecca at the Russian Baths)


(Marina breastfeeding with milk squirting)......... (Fatima Candles, Portugal, 1998)

mais uma li��o de moral
Escrevi mais uma li��o de moral na Terra da Alegria. Desta vez � sobre a complexidade:

�Os cientistas devem fazer as leis f�sicas t�o simples quanto poss�vel, mas nunca mais simples do que o poss�vel.�
(A. Einstein)


Como tenho descurado os recortes, aqui ficam uns flashes do muito e bom que se tem escrito nos �ltimos tempos:

Do Miguel sobre as f�rias de Deus:
Deus n�o quer saber se partimos hoje um bra�o ou nos zang�mos com a nossa namorada ou se defendemos o penalti para ir a p� a F�tima. Deus tem mais do que pensar. Tem de ir f�rias. Ali�s, j� foi de f�rias. Mas n�o se esqueceu de n�s, de cada um de n�s. �Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes: "O Reino de Deus n�o vem de maneira ostensiva. Ningu�m poder� afirmar: �Ei-lo aqui� ou �Ei-lo ali�, pois o Reino de Deus est� entre v�s."�

Do Lutz sobre a revela��o:
Onde � que se me revela ent�o Deus? N�o se me mostra directamente, e �s provas indirectas da sua exist�ncia e interven��o, os milagres, n�o dou, para dizer a verdade, muito cr�dito. (...) Milagres sim, que me convencem, para l� de qualquer d�vida, de que h� mais do que a nossa vida banal, encontro no comportamento humano. (...) Pessoas que provam que h� algo superior, mais nobre, do que as leis da natureza, e da assim chamada natureza humana, do ego�smo, da indiferen�a e do medo. Chamo o Amor. Amor com mai�scula. � divino, mas est�, � partida, ao alcance de todos n�s.

Do Bernardo Sanchez da Motta sobre o Santo Graal e "O C�digo Da Vinci":
O perigo da invers�o dos s�mbolos est� sempre presente, o que obriga � necessidade de um certo cuidado (dir�amos mesmo, de uma certa compet�ncia) no tratamento dos s�mbolos, para evitar a deturpa��o (ou no pior caso, a invers�o) do significado do s�mbolo.

Alegorias do Afonso Cruz
Alegoria 1: �o que seremos ainda n�o apareceu�. A resposta para o que nos parece in�til hoje est� no futuro. A utilidade dos olhos, dos pulm�es e das m�os, revela-se ap�s o nascimento.
Alegoria 2: J� todos, em alguma altura ou outra da vida, nos depar�mos com aquelas pinturas onde determinada figura l� representada parece olhar-nos fixamente. N�o importa se nos colocamos � esquerda ou � direita, se nos afastamos ou aproximamos, o olhar da dita figura parece seguir-nos implacavelmente.
Alegoria 3: N�o se volta ao ponto de partida propriamente, sobretudo porque nos tornamos diferentes: a pessoa que regressa n�o � a mesma que parte.
Alegoria 4: O Quadrado, her�i desta aventura, certo dia coloca a Esfera sob a possibilidade da exist�ncia de uma quarta dimens�o espacial, ideia que a Esfera rejeita de imediato, acusando o Quadrado de dem�ncia.

Do Carlos Cunha sobre o fim do Inferno:
O "fim do Inferno" em vez de ser libertador para o Homem, e portador de uma boa-nova de esperan�a, sem culpa e sem castigo, tem levado a que aceitemos o Mal (...) com mais naturalidade do que dev�amos. (...) O sentido de Justi�a, impregnado no cora��o de cada homem, seria, ent�o ultrapassado, revogado, eliminado, pela Amnistia Final que nos absolveria a todos por igual, numa esp�cie de tirania da Miseric�rdia divina, em que o Amor se impunha pela for�a e atrav�s do qual caducaria a responsabilidade de cada um. N�o haveria Mal, nem pecado, nem necessidade de arrependimento e convers�o, nem espa�o para a Liberdade.
Est� na moda esta vis�o pueril e cor-de-rosa de um Deus bonzinho e algo idiota, que brinca com os seus filhos, pelos quais n�o teria qualquer respeito. � a que nos agrada mais. � um Deus � nossa semelhan�a e do nosso tempo: um Deus infantil, irracional e que n�o quer ser incomodado com a realidade. Um Deus que escreveria torto por linhas direitas.


Do Marco Oliveira sobre ci�ncia e religi�o:
Se a religi�o fosse contr�ria � raz�o l�gica, ent�o deixaria de ser religi�o para ser simplesmente tradi��o. Religi�o e ci�ncia s�o duas asas sobre as quais a intelig�ncia do homem pode pairar nas alturas, com as quais a alma humana pode progredir. N�o � poss�vel voar com uma asa apenas!

Do Jos� sobre pol�tica:
"Hoje o capitalismo j� n�o explora os pobres: ignora-os. " Eis uma verdade que grita. � pois com tristeza que assisto (...) a um crescente alheamento da no��o da responsabilidade social, a um cada vez maior sentido darwinista da vida em sociedade, no fundo a uma perda do sentido crist�o da vida que devemos ter. � precisamente por isto que eu n�o gosto de falar de pol�tica: sendo direitista, sou um direitista triste, eu que em quase tudo o resto sou alegre.

Do Timshel sobre a interven��o divina:
O Amor � talvez a chave que desequilibra a favor do Bem os pratos da balan�a do acaso.

Do Fernando Macedo sobre a leitura do Novo Testamento:
A tradi��o crist� sempre viveu no registo da diverg�ncia. Este � um facto a que n�o se d� a import�ncia devida. Mas � verdade que as diverg�ncias no cristianismo come�aram cedo. E tanto que se pode dizer que n�o h� cristianismo sem diverg�ncia.

17.10.04
ainda as po�micas em F�tima
Frei Bento Domingues falou hoje da pol�mica sobre F�tima e o di�logo inter-religioso, j� aqui discutida. Pede esclarecimentos importantes:

(...) os cat�licos portugueses t�m direito a uma explica��o integral sobre os rumores acerca das rela��es entre a C�ria Romana e as autoridades do Santu�rio de F�tima. A Igreja n�o pode dar cobertura a 'sociedades secretas', a grupos de press�o fora e dentro do Vaticano. J� mostraram que sob a capa de movimentos de espiritualidade servem des�gnios de poder.
Quanto a segredos, a Igreja n�o deve copiar o que se esconde em Portugal entre Governo, empresas e meios de comunica��o social. O bispo de Leiria e o presidente da Confer�ncia Episcopal Portuguesa devem esclarecer o que se est� a passar na Igreja.


Mais adiante mostra compreens�o para com os integristas:

Compreendo a resist�ncia daqueles que continuam com a ideia de que fora da Igreja Cat�lica n�o h� salva��o. N�o podem, por isso, ouvir falar de um encontro real entre religi�es. Mas a F�tima vai quem quer. E ao tornar-se um centro ecum�nico e inter-religioso, o di�logo deixa de ser uma reserva de alguns especialistas e de altos dirigentes religiosos. � tarefa de pessoas e grupos que, de diversas fam�lias religiosas, se juntam para rezar. E, como diz o fil�sofo L. Wittgenstein, a ora��o � o pensamento do sentido da vida. Os que se re�nem com vontade de rezar abrem caminhos de paz entre as religi�es. Fazem delas focos de paz entre as na��es.

Eu n�o compreendo como h� quem pense que fora da Igreja n�o h� Salva��o. N�o sei se � ou n�o heresia, mas parece-me claramente pecado de tentar a Deus.

15.10.04
�Estive na pris�o e foste ter comigo�
A Comiss�o Nacional Justi�a e Paz promove no pr�ximo dia 19 de Outubro, �s 10h00, no Audit�rio 2 da Funda��o Calouste Gulbenkian, em Lisboa, uma audi��o p�blica sobre a Reforma do Sistema Prisional: Um contributo da Comiss�o Nacional Justi�a e Paz -- �Estive na pris�o e foste ter comigo�.

A audi��o � aberta a todos os que nela queiram participar e decorre entre as 10h00 e as 13h00, com o seguinte programa:

- Apresenta��o do contributo da CNJP (Pedro Vaz Patto, membro da Comiss�o)
- Coment�rio ao documento (Professor Germano Marques da Silva)
- Debate com o p�blico

A audi��o ser� moderada por Diogo Freitas do Amaral, que presidiu � Comiss�o para o Estudo e Debate da Reforma do Sistema Prisional.
O documento elaborado pela CNJP ser� distribu�do aos participantes.

Solicitamos a divulga��o deste evento pela sua rede de contactos.

14.10.04
a esperan�
Um post do Manuel sobre esta coisa de se dizer que temos esperan�a porque sim. Porque a esperan�a � a �ltima a morrer.

A esperan�a, como a entendo, tem que nos questionar permanentemente: em que � que temos mesmo esperan�a? Em que � que temos mesmo esperan�a aqui e hoje? Ao contr�rio do ditado, a esperan�a n�o � a �ltima a morrer. Quando se desistiu de percorrer o caminho da mudan�a, a esperan�a j� morreu h� muito. Ainda que se repita que continuamos cheios de esperan�a, se nos sent�mos � espera, deix�mos de estar a caminho. E quem n�o faz caminho n�o chega a nenhum lado. Por isso a pergunta imp�e-se mesmo: em que � que temos esperan�a a s�rio?

12.10.04
Terra da alegria
"A hist�ria nunca pode ser travada". Dispensa apresenta��es. Boas leituras.

11.10.04
Casamento II


N�o sou casado. Mas quero casar-me. Sonho em juntar os meus amigos dos diferentes quadrantes e tempos da minha vida � minha volta, um vestido (que n�o precisa ser branco) de bom gosto, simples e alegre, comida boa, muita, variada num prazer de comer e beber bem. Sem fatos, com gangas, sem sapatos, com t�nis, sem mega presentes, com coisas feitas pelas pessoas (textos, muitos textos).
Gosto da ideia de duas pessoas quererem e acreditarem que ficar�o juntas e comemorem com quem gostam, gente alegre que cante e dance (bebam uns copos se de in�cio se sentirem envergonhados), que se sintam ainda mais felizes do que n�s num fartar vilanagem. Banho conjunto no mar frio.
Gosto ainda mais da ideia de que ser� constru�do, com algumas (nem tantas) dificuldades pelo meio, um investimento em experi�ncias fortes a dois. Investimos o que somos, juntamos coragem, amor, loucura, gosto em viver. Radical, sim arriscado! E at� j� sei por quem quero esperar naquela praia bonita s� nossa.

Janelas



Estamos perto da casa dele, janelas abertas para n�s. Uma casa pequena g�nero s�t�o arrumada para ser pequena. Escuro, uma luz que pisca e alumia a cada piscadela, uma luz que caminha e mostra vislumbres desse homem que caminha, deixa-nos em suspense. Depois acende uma luz, candeeiro grande junto ao ch�o que ele puxa com uma corda em novo efeito de luz e come�a uma dan�a jogada que ilude sermos capazes de fazer. Este jogo de luz do principio � feito ao longo do espect�culo de formas variadas, sendo o ponto m�ximo uma brincadeira com sombras em que deitado no ch�o ele transporta-se para a parede numa dan�a-pris�o. A m�sica tamb�m � uma brincadeira do nosso Bachir (Mathurin Bolze) ficando na retina as voltas � casa descobrindo instrumentos que apitam, chiam, bateriam ou o banho tomado enquanto canta. Outro jogo dele � alargar e diminuir o espa�o que ele puxa em altura nos saltos enormes at� ao candeeiro, que ele gira andando a direito na parede, que ele inventa rodando cadeira, ch�o, mesa, ch�o, cama, ch�o, janela, ch�o e desaparece.

"Mathurin Bolze evolui no espa�o com subtileza, ligeireza e delicadeza. Desloca-se com velocidade e geometria vari�veis. Apreciador das mudan�as de ritmo, de desaparecimentos, os seus movimentos, num momento doces e lentos, podem revelar-se r�pidos e bruscos, mas sempre de uma precis�o irrepreens�vel."

JANELAS � um espect�culo muito bem pensado com imensos truques de mudan�a de mundos; o ch�o da casa de Bachir � um trampolim (e todos sa�mos de l� � procura de um trampolim) onde ele descobre uma outra maneira de viver nas coisas mais rotineiras "copo de �gua na m�o", "dan�a com folha de papel com formas fantasmag�ricas e movimentos sussurrantes".

Descrever com palavras � limitador, n�o vos explica todo aquele brilhantismo deste homem que inventou um mundo em que sabe voar; agu�a-vos o apetite que desde j� traio pois o espect�culo barato (3 euros) e sublime esteve na Culturgest ontem e anteontem e penso que n�o se repetir� em Portugal por agora. � uma maldade que vos fa�o.

Casamento


"N�o acredito no casamento. Juro, a s�rio que n�o. Que fique desde j� bem claro. No seu pior, considero-o um acto pol�tico hostil, uma forma de homens de esp�rito tacanho manterem as mulheres em casa e sem que os macem, embrulhadas no len�ol das tradicionais balelas religiosas. No seu melhor � uma feliz ilus�o, de duas pessoas que realmente se amam e n�o fazem a menor ideia do mal que se far�o uma � outra. Mas quando duas pessoas sabem mesmo o que as espera e decidem, de olhos bem abertos, casarem-se � mesma, nesses casos n�o o considero nem conservador nem ilus�rio; acho o casamento radical, corajoso e muito rom�ntico".
A personagem Tina no filme Frida

N�o sou casada. N�o sei se me casarei. N�o faz parte dos meus sonhos aquela festa com imensos convidados, um vestido branco enorme e comida at� fartar. Esse neg�cio n�o me diz nada.
Gosto da ideia de duas pessoas quererem e acreditarem que ficar�o juntas e que isso seja comemorado.
Gosto ainda mais da ideia de que ser� dif�cil. Investimos o que somos, juntamos coragem e amor. Radical, sim claro!

8.10.04
Cinema Franc�
5� Festa do Cinema Franc�s, de 18 a 21 de Outubro, organizada pela Alliance Fran�aise de Coimbra dar� lugar a 14 filmes em 4 dias nesta nossa cidade!
V�rios filmes seleccionados para o festival de Cannes 2oo4 e alguns deles premiados. Outros festivais com o de Berlim e de Montreal, Veneza 2003, Sarlat 2003, Festival de Sundande 2003 e Pr�mio Louis Delluc. Promete!

sess�o inaugural
Feux Rouges (2004-Drama/Thriller), de C�dric Kahn

Notre Musique (2004-Drama), de Jean-Luc Godard
Brodeuses (2004-Com�dia Dram�tica), de El�onore Faucher
Les Choristes (2004-Com�dia Dram�tica), de Christophe Barratier
5x2 (2004-Com�dia Dram�tica), de Fran�ois Ozon
Le Roi et L'oiseau (1979-Anima��o Restaurada em 2003), de Paul Grimault
10e Chambre Instants D'Audiences (2004-Document�rio), de Raymond Depardon
Les Sentiments (2003-Com�dia Dram�tica), de No�mie Lvovsky
2046 (2004-Drama), de Wong Kar-Wai
Wild Side (2004-Drama), de S�bastien Lifshitz
Les Amateurs (2004-Com�dia), de Martin Valente
Ils Se Mari�rent et Eurent Beaucoup D'enfants (2004-Com�dia Dram�tica), de Yvan Attal
Immortel [ad vitam] (2004-Fic��o Cient�fica), de Enki Bilal
Haute Tension (2003-Terror), de Alexandre Aja


"Les Choristes", o maior �xito de bilheteiras da Fran�a desde O Fabuloso Destino de Am�lie

Iniciativa a divulgar
"A Cooperativa Bonifrates vai repor, a partir de 7 de Outubro, a pe�a Eu n�o sou o Rappaport numa iniciativa que visa apoiar as crian�as de Timor Leste e que conta com a apoio de algumas empresas Coimbra.
Quem quiser assistir � pe�a Eu n�o sou o Rappaport, de Herb Gardner, com encena��o de Jo�o Maria Andr�, cenografia do Atelier do Corvo e produ��o e interpreta��o dos seus actores, s� ter� de apresentar na bilheteira um livro, escolar ou de literatura infanto-juvenil, destinado �s crian�as de Timor, adquirindo assim o seu t�tulo de entrada. O subs�dio para estas representa��es ser� pago por empresas da cidade. A pe�a Eu n�o sou o Rappaport (...) � um percurso, num registo intenso e comovente, sobre os problemas da terceira idade na sociedade em que vivemos. �Esta com�dia �s costas da trag�dia ou esta trag�dia vestida de com�dia�, nas palavras do encenador Jo�o Maria Andr�, �mais do que uma pe�a sobre o entardecer vida, � um hino � capacidade de a inventar no palco dos nossos sonhos e nos bastidores das nossas fraquezas�.
Eu n�o sou o Rappaport estar� em cena �s quintas e s�bados, dias 7, 9, 14, 16, 21 e 23 de Outubro, �s 21.45 horas, no Teatro-Est�dio Bonifrates, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra.
Obrigado.



E, j� agora, venha ao espect�culo e�
...traga outro livro tamb�m"

Jo�o Paulo Janicas

6.10.04
cheg�mos � Madeira
Do editorial do "P�blico" de hoje, ainda antes de se saber que Marcelo Rebelo de Sousa abandonaria a sua orat�ria semanal na TVI:

A intelig�ncia fulgurante do ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, brindou-nos anteontem com um grandioso contributo para o anedot�rio pol�tico da "rentr�e". Furibundo, espumando de raiva e vermelho de indigna��o, atirou-se � suposta parcialidade dos coment�rios de Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, que, por raz�es de "�dio" ao actual primeiro-ministro passa os seus 45 minutos dominicais de opini�o pol�tica a atacar o Governo.(...)
As palavras apatetadas deste ministro dariam para rir noutras circunst�ncias, e muito. Mas, nos dias que correm, devem ser levadas muito a s�rio.(...)
H� j� algum tempo que o Governo desencadeou uma opera��o de controlo de uma parte do espa�o medi�tico, territ�rio decisivo para as batalhas eleitorais que se avizinham, procurando concretizar uma velha estrat�gia de alguns dos "jovens turcos" que mandam no partido e que vem dos tempos da ascens�o de Dur�o Barroso. Essa estrat�gia passa por controlar editorialmente um di�rio nacional de grande expans�o, a televis�o p�blica e os restantes �rg�os de comunica��o estatizados ou que se encontram debaixo do chap�u de chuva da PT Multim�dia, para gerir em vantagem o ciclo pol�tico que vai at� 2006 e em que o PSD quer ter condi��es para chegar sozinho � maioria absoluta. Como as medidas de Governo podem n�o chegar, venha a propaganda.(...)
Resta saber at� que ponto v�o resistir ao vendaval as estruturas de chefia de alguns t�tulos manifestamente n�o alinhados politicamente (e de outros j� alinhados mas n�o o suficiente...) ou se alguns operadores privados, em particular televis�es, n�o ser�o empurrados para um comportamento d�cil, se quiserem fazer neg�cios, na televis�o por cabo ou na rede de televis�o digital terrestre. Fica ainda por saber se esta "berlusconiza��o estatal" vai concretizar-se sem escrut�nio p�blico, em particular, da Assembleia da Rep�blica, e se n�o entra no card�pio das preocupa��es do Presidente da Rep�blica. � que, se nada se passar, ent�o � porque cheg�mos mesmo � Madeira!

5.10.04
sem título


(pintura de Maria Remédio, Quarteirão das Artes, Montemor-o-Velho)

4.10.04
Texto reencontrado
"Uma crian�a nasce. Pouco depois, entre sonos e mamadas, logo se p�e a olhar para o mundo, a ouvi-lo, a senti-lo, com uma inesgot�vel curiosidade e uma insaci�vel apet�ncia. Distingue o que tem mais "informa��o" daquilo que tem menos "informa��o"; explora o que � rico e diversificado e afasta-se daquilo que � pobre e mon�tono. Procura olhos � espera que olhos a procurem. Depois sorri esperando que lhe sorriam. Agarra e espera ser agarrada. distingue o que est� longe e o que est� perto. Pergunta a si mesma se a palavra "pata" tem patas como tem a pata. Quer saber como nascem os meninos e o que � isso de ser menino e menina. Confronta-se com enigmas, constr�i outros, resolve alguns, outros n�o... Esta crian�a gen�rica, t�o apaixonadamente curiosa, vai para a escola e um dia desinteressa-se e come�a a reprovar. Porqu�?" (Pereira; 1991: 237)

Texto reencontrado. Perguntas relan�adas.


tristeza e orgulho
O meu post sobre as bulhas � volta do di�logo inter-religioso em F�tima deram azo a um coment�rio do Marco e a um post do Timshel com o t�tulo "Orgulho", cuja leitura aconselho (o link permanente n�o funciona).

Eu tamb�m tenho orgulho na minha Igreja. A Igreja de Leonardo Boff, Hans Kung, Schilbeck, Gutierres, Rahner, Haring, Oscar Romero, Casald�liga, Jo�o XXIII e muitos outros. E os bons exemplos n�o v�m s� de fora.

Por�m, a pol�mica em torno de F�tima e do di�logo inter-religioso s� me pode causar tristeza. Os mesmos grupos que est�o dispostos a atirar-nos � cara que, se n�o aceitamos todos os ensinamentos da Igreja (mesmo os anteriores ao Vaticano II), devemos abandonar a Igreja, recusam sistematicamente a doutrina conciliar. E movem campanhas como a que se viu.
Muitas vozes se ouviram a desmentir a not�cia do "Correio da Manh�" (de resto com erros grosseiros, como o de a Confer�ncia Episcopal Portuguesa ter poder de demiss�o dos bispos) e a afirmar a irreversibilidade do di�logo inter-religioso. Ainda bem que assim foi. A Ag�ncia Ecclesia d� conta de todo o processo.

Por mim reafirmo apenas o que respondi ao Marco na caixa de coment�rios: quando aparecem situa��es destas em pleno s�culo XXI, d� vontade de barafustar um bocado.

TdA
�Em qualquer esp�rito, que n�o seja disforme, existe a cren�a em Deus. Em qualquer esp�rito, que n�o seja disforme, n�o existe cren�a num Deus definido. � qualquer ente, existente e imposs�vel, que rege tudo; cuja pessoa, se a tem, ningu�m pode definir; cujos fins, se deles usa, ningu�m pode compreender. Chamando-lhe Deus dizemos tudo, porque n�o tendo a palavra Deus sentido algum preciso, assim afirmamos, sem dizer nada. Os atributos de infinito, de eterno, de omnipotente, de sumamente justo ou bondoso, que por vezes lhe colamos, deslocam-se por si como todos os adjectivos desnecess�rios quando o substantivo basta. E Ele, a que por indefinido n�o podemos dar atributos, �, por isso mesmo, o substantivo absoluto.�

Fernando Pessoa, do "O Livro do Desassossego", para anunciar o meu texto na Terra da Alegria.

1.10.04
"Carta aberta aos bispos portugueses"
Apesar da leitura tardia, n�o posso passar sem saudar a corajosa "Carta aberta aos bispos portugueses" escrita pelo Miguel Marujo, a prop�sito da situa��o na Madeira.

A este prop�sito ler tamb�m o artigo de Fernando Rosas, no "P�blico" de quarta: �(...) � raz�o para se perguntar se est�o reunidas nessa regi�o condi��es ao n�vel da liberdade de consci�ncia e da liberdade de escolha para se poder falar em elei��es genuinamente livres.�

triste Igreja a minha....
... em que h� quem queira medir o ecumenismo. E pratic�-lo s� em doses moderadas, sempre convictos que a verdade est� s� do nosso lado.

... onde o Monsenhor Luciano Guerra, reitor do Santu�rio de F�tima, � acusado de heterodoxia, pior, de heresia.

... onde h� quem n�o aceite o Vaticano II e continue a marcar territ�rio antevendo os tempos de mudan�a que a� v�m.

... onde h� fraternidades sacerdotais que adoptam o nome do papa que condenou o modernismo e apoiam filmes do Mel Gibson.

... onde h� 200 imbecis capazes de escrever ao reitor do Santu�rio a pedir o fim dessa heresia que � o di�logo inter-religioso.

[D. Janu�rio Torgal Ferreira] criticou �algumas faixas do Catolicismo em Portugal que n�o se abrem � modernidade�, recordando em particular a campanha lan�ada contra as iniciativas ecum�nicas e de abertura inter-religiosa do Santu�rio de F�tima.
�F�tima deve ser um espa�o de fraternidade e di�logo�, disse aos jornalistas.
No seu discurso, o Bispo assegurou que �enquanto n�s n�o nos abrirmos a determinadas express�es da modernidade vamos ter a viol�ncia, o choque, as persegui��es f�ceis e as den�ncias que nos fazem recuar a determinados tempos�.
(Ag�ncia Ecclesia)



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