30.1.05
Filha de Louçã sai de casa em ruptura com o pai
A filha de Francisco Louçã saiu ontem de casa em "ruptura ideológica" com o pai, e apagou-o "das nossas fotografias", isto depois do debate com Paulo Portas.
"Foi a gota de água", explicou. "Tornou-se um reaccionário: ouve Pink Floyd, não fuma charros, urina sentado... Não me revejo nesta esquerda." A filha de Louçã revela que o mal-estar já é antigo, desde os tempos em que "o Xico cismou que o tratasse - imagine-se! - por papá", e piorou "quando ele me ofereceu uma Barbie em troca de um sorriso". Agora, a filha de Louçã espera ser adoptada por um casal que encarne o "verdadeiro espírito BE": "um par de homossexuais".

(no Inimigo Público de hoje)

28.1.05
De que serve andarmos todos trabalhar?

desconcerto

A imagem transmite exactamente este meu desconcerto.

Ponto 1: para ganharmos muito dinheiro, sempre mais dinheiro. Depois trabalhamos tanto que só nos resta gastar o dinheiro numa única viagem no ano, 8 dias, para voltar a trabalhar e suspirar pela próxima viagem.

Ponto 2: para ganharmos dinheiro, nunca juntar, nunca fazer nada de especial mas não perder uma oportunidade em o gastar em roupa, acessórios, copos, comer fora, gastar tudo nas prestações daquele carro...

Ponto 3: para não estarmos sozinhos, para dizer que nunca temos dinheiro para aquilo que queríamos tanto... mas que nunca fomos ver de facto quanto custa. (Quantas pessoas conhecemos que queriam, queriam ir ao brasil — só um exemplo — e queixam-se e invejam-se dos que vão, porque de certeza que têm muito mais dinheiro e no fim nunca pegaram nos panfletos da agência de viagens?)

Ponto...

A verdade é que quando escolhemos uma profissão, um trabalho, um emprego não sabemos nada do que nos espera. Mas há exemplos de, como um amigo meu diz, de verdadeiro "elogio ao luxo" que é pagarem-nos para fazermos aquilo que desejaríamos fazer se tivéssemos dinheiro e não o tivéssemos de ganhar.
É um desses que gostarei de ter. Ainda que a dúvida persista... será que dou para o que estou a estudar?

a memória como missão
"Comemoraram-se" ontem os 60 anos da libertação do campo de extermínio de Auschwitz. As cerimónias foram dignas de registo e ainda bem. Como alguém disse, o século XX fica para a história como um dos mais desumanos da nossa Humanidade. Esquecer não é só um erro que nos pode levar a repetir monstruosidades semelhantes. Esquecer é um crime, porventura igualmente grave, para com as vítimas do holocausto e para com a natureza humana.
Foi precisamente para não esquecermos que Primo Levi e outros sobreviventes nos deixaram os seus escritos. Depois de ler os testemunhos impressionantes publicados na nossa imprensa decidi revisitar um trecho de que me lembrava vagamente, do próprio Primo:

«Nós que sobrevivemos aos Campos, não somos verdadeiras testemunhas. Esta é uma ideia incómoda, que passei a aceitar gradualmente, ao ler o que outros sobreviventes escreveram — inclusivé eu mesmo, quando releio os meus textos após alguns anos. Nós sobreviventes somos uma minoria não só minúscula, mas também anómala. Somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, jamais tocaram o fundo. Os que tocaram, e viram a face das Górgonas, não voltaram, ou voltaram sem palavra.»

Partindo desta problemática também expressa por Adorno no seu "Depois de Auschwitz não é mais possível escrever poesia", no "Público" de ontem, Agusto M. Seabra cita Celan falando de como a linguagem sobreviveu ao terror absoluto:

«Algo sobreviveu no meio das ruínas. Algo acessível e próximo: a linguagem. Contudo, a própria linguagem teve que se erguer por entre as suas próprias ruínas, salvar os espaços em que se quedou mudo o horror, por entre as mil trevas que mortificam o discurso. Nesta língua, o alemão, procurei escrever poesia. Apenas para falar, orientar-me, indagar, imaginar a realidade. Deste modo a poesia encontra-se sempre no caminho para a língua originária.»

Diz-nos Agusto Seabra que "perante a poesia de Celan, Adorno rectificou o seu entendimento". Já Primo Levi parece ter feito o percurso inverso: começou por escrever e anos mais tarde identifica-se com a minoria "anómala" que sobreviveu e consegue contar — o normal entre os sobreviventes é não conseguir contar. Mas ainda bem que ambos decidiram mesmo usar as palavras, fazê-las "erguer-se por entre as ruínas", para que guardemos memória das vítimas da máxima desumanidade. É o mínimo que podemos fazer por elas e pelas gerações que virão depois de nós.

É também dessa missão de preservar a memória que nos fala o post "Alemanha depois de Auschwitz", do Lutz, que nos conta como a Alemanha foi vivendo com a sua história. Termina dizendo que considera Auschwitz um elemento indelével da sua identidade nacional. E acrescenta: "acho bem que assim seja. Não por ser uma vergonha, mas como missão".

27.1.05
os apóstolos pós-modernos
Esta semana a Terra da Alegria oferece textos importantes e interessantes: a razão e a sua utilidade; aprender com os anticlericais; a libertação de nós próprios, justificação e redenção; elogio do voto; Vanity Fair e a insatisfação perante a concretização do sonho. Traz ainda um texto do CC que é sem dúvida o mais místico desta edição. Merece leitura na íntegra por isso digo-vos só que acaba assim:

«Nós somos os pescadores dos mares poluídos, das águas possuídas que arrastam casas e filhos, os escravos do trabalho pela sobrevivência, os descrentes nos sistemas políticos e os mártires dos sistemas económicos. Somos os apóstolos pós-modernos que não herdaram sandálias nem óleos unguentes. Os reinterpretadores da Sua vinda adiada que se recriminam por se sentirem abandonados, os que olham as estrelas e rezam fervorosamente para que o Pai não tenha feito o log out.»

a generosidade perturba
A propósito da birra de Francisco Louçã no debate com Paulo Portas, o José deciciu contar um episódio nocturno, passado num prédio devoluto em Lisboa junto de um grupo de okupas. Diz-nos ele que tinham estado a comer umas pizzas quando três jovens de origem africana vieram pedir asilo à casa okupada. O líder do grupo de betinhos mal vestidos fez então um grande discurso a defender a necessidade de convicção ideológica para poder participar no movimento e com isso despachou aqueles pobres coitados, que aquilo não era sítio para aquelas almas pacatas e desideologizadas. A reacção não tardou:

«Estava já eu completamente passado com aquilo e disse ao tal grande líder algo mais ou menos assim: "Ó meu cabrão hipócrita, essa conversa da treta da solidariedade e da tolerância não te serve sequer para ajudar quem precisa mesmo de alojamento, muito mais do que estes meninos e meninas que estão aqui só para chatear os ricos paizinhos! Agora o que vou fazer é oferecer 10 contos a estes gajos e dar-lhes uma boleia a uma pensão ou residencial que eles escolham! Bem podes dizer que isso é caridade mas esta caridade vale muito mais que a tua solidariedade de filho da puta!"
Gerou-se um sururu do caraças, tudo aos gritos, fascista, nazi e coisas assim, e o meu irmão empurrou-me dali para fora junto com os três desgraçados.
»

Tenho eu em mãos "O Personalismo", de Emmanuel Mounier, quando dou com esta história. Mesmo a propósito:

«A força viva do ímpeto pessoal não está, nem na reivindicação (individualismo pequeno-burguês), nem na luta de morte (existencialismo), mas na generosidade e no acto gratuito, ou seja, numa palavra, na dádiva sem medida e sem esperança de recompensa. (...) A generosidade dissolve a opacidade e anula a solidão da pessoa, mesmo quando esta não recebe nada em troca: contra a fileira cerrada dos instintos, dos interesses, dos raciocínios, ela é, em todo o sentido da palavra, perturbante. Desarma as recusas, oferecendo aos outros um valor a seus próprios olhos elevado, exactamente no momento em que eles esperariam ser expulsos como coisa indesejável (...).»

... exactamente no momento em que eles foram expulsos como coisa indesejável.

25.1.05
Democracia de cada um
Pode ser por descontentamento com os políticos, por se ver poucas coisas melhorarem, por não se gostar de regras, a verdade é que muitos jovens e até alguns menos jovens não dão hoje à democracia o devido valor. Talvez porque não sofreram nenhuma repressão e não tiveram de lutar por ela ou não lhes foram suficientemente bem transmitidos os perigos de desistirmos de uma cidadania activa e nos deixarmos levar pela maré.
Seja o que for que sentimos em relação ao poder político e à democracia temos o dever de ser críticos, sempre de forma responsável e apontando soluções equilibradas e racionais. Está nas nossas mãos mostrar o que nos desagrada e defender os nossos direitos e de todos à nossa volta, especialmente daqueles que têm menos capacidades para o fazer. Porque a democracia é a voz do povo, não nos podemos refugiar nas más decisões daqueles que nos representam, a responsabilidade de fazer do nosso país um lugar justo onde se vivem efectivamente os valores da democracia é de todos nós.
Talvez não estejamos habituados a pensar assim, mas na minha opinião este tipo de envolvimento com o que nos rodeia é verdadeiramente motivante, e é também motivante fazer os jovens pensar de forma responsável na sua participação neste mundo de que tantas vezes se queixam.

24.1.05
Revolução Personalista
«Quando já não tivermos possibilidades de sucesso, resta-nos testemunhar. Não se perde a vida daqueles que souberam dar largo testemunho. Conhecemos as fragilidades de nossas forças e do sucesso, mas conhecemos também a grandeza do nosso testemunho. Eis porque conduzimos sem hesitação a nossa tarefa na certeza da nossa juventude.»

Emmanuel Mounier, por mim próprio, hoje na Terra da Alegria.
O Marco continua a dar-nos a conhecer a reflexão da Comunidade Internacional Bahá’í sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX.

23.1.05
Maldição dos humanos


«(...) O chefe do bloco chamou-me: "Tu, vem cá." Aproximei-me e ele estendeu-me o prato e disse: "Vai lavar isto!". Estava meio cheio de batatas fritas. Era uma forma de me dar comida, já que não podia dizer: "convido-te para o almoço". Eu comecei a comer as batatas e a chorar um mar de lágrimas, era a nostalgia do sabor, mas era também outra coisa: tinha um garfo, estava a comer com um garfo.»
(Charles Palant)

Comecei por ler o artigo na Pública d'hoje o artigo sobre Auschwitz e o perdão dos judeus que se salvaram. Fiquei impressionado com as imagens: gigantes na calamidade. Escolhi a passagem anterior para introdução. Resolvi passar pelo Google e fazer uma pesquisa de imagens, encontrei entre outras coisas imagens do Hitler e dos rituais à volta dos seus discursos, como estas. Achei que eram impressionantes. Já há algum tempo que ando com curiosidade de ouvir um desses discursos, como é que galvanizavam tanto ao ponto de fazerem tão mal, de convencerem tanta gente a entrar nesse pesadelo que a História não esquece. Com o Salazar tenho uma curiosidade parecida. Encontrei ainda outras imagens como a que publico acima e que nos (mesmo a quem não compreende bem o que foi o Holocausto) envergonham, corroem e ultrapassam numa maldição dos humanos.

No tal artigo da Pública d'hoje fala-se, a certa altura, de um documentário chamado "Os sobreviventes" feito por Patrick Rotman, historiador francês, que o canal France 3 mostrará em Abril próximo:

«O que move Rotman e o impele para este trabalho de História é tentar perceber aquilo de que o homem é capaz: "O que me interessa é estabelecer como se sobrevive naquele universo, no triunfo do mal absoluto em coabitação com o bem absoluto -- um e outro criações do homem" (...) "existia um combate permanente pela sobrevivência entre deportados. Uma luta brutal, também entre as vítimas. Tenho depoimentos alucinantes sobre isto. Mas também sobre os gestos de ajuda de muitos.»

Liguei as passagens anteriores de Rotman ao post que tinha posto anteriormente com a música "Sabia" e à curiosidade no que é sermos humanos: no melhor e no pior.

Lembrei-me depois o que me disse um amigo meu acerca da leitura do "Mein Kampf" (A minha luta) escrito por Hitler: que precisamos defender-nos de certas imagens e ideias, para o nosso bem. "Não o posso ler porque sem darmos conta muita coisa recebemos, somos influenciados, por ideias que nos pioram: é disso que me defendo." Como nos vamos fazendo de tudo o que lemos, ouvimos, fazemos, gostamos, ...
Tudo bem ligado com as explicações de como tinham surgido as diferentes partes: saiu este post de retalhos.

Saibam vocês também...
SAIBA

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você



Esta música que tenho ouvido cantada pela Adriana Calcanhoto mas que é do Arnaldo Antunes é brilhante na simplicidade como fala na complexidade em sermos humanos. Saibam que toda a gente foi neném e teve infância; toda a gente teve medo mesmo que seja segredo, saibam que toda a gente vai morrer, e que toda a gente teve pai e teve mãe. Deixa-nos desarmados, continuo fascinado com o que é isto de ser-se pessoa.
Ser vida é simples, para uns sim para outros não...

mesmo isto
Silêncio, casa vazia, uma luz e uma mesa.
Olhos atentos, os raciocínios estão perto de ser o único movimento, calmo.
O espanto e o brilho daquele momento em que, finalmente, se descobre! Suspiro com gosto a delícia.
Paro.
O dia já se despediu e hoje apetece-me ouvir mesmo isto:

1-Time for Love
2-Sonho Dos Outros
3-Reflexos
4-Nocturno
5-Olhar
6-Musica Callada Mov.1
7-Cançon No. 7 Adante
8-Monkais
9-Quando Volta O Encanto
10-Musica Callada Mov. 1

b. sassetti

Example
"debaixo dos caracois" há sempre uma história

22.1.05
links e entrevista
Reparei agora que o link que deixei no meu último texto na Terra da Alegria não está a funcionar. Aqui fica o ponteiro correcto para o documento dos bispos sobre as eleições. Aproveito para deixar ainda outra ligação para um texto da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre o mesmo tema, intitulado "Propor a esperança, abrir portas a um futuro melhor". E para terminar ficam algumas notas dum comentário ao documento dos bispos pelo José Manuel Pureza, em entrevista à Ecclesia:

«"Globalmente, o texto dos Bispos é uma convocatória, que enaltece o princípio da responsabilidade partilhada", refere à Agência ECCLESIA José Manuel Pureza, professor universitário e membro da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP). (...) Apesar da pertinência do desafio, o membro da CNJP alerta para uma "sombra", relativa ao facto de entender que "as comunidades cristãs estão pouco treinadas no pluralismo, têm ainda alguma alergia à diversidade política".
"Receio que, nesse trabalho, algumas comunidades marginalizem propostas e visões contrastantes, o que seria uma tragédia – independentemente das 'vítimas'. A perspectiva de que 'devíamos era ser todos do mesmo lado' não se deve sobrepor à pluralidade de caminhos e experiências como expressões diferentes de uma mesma fé", aponta.
O Conselho Permanente da CEP pediu que ninguém se esconda por detrás de desculpas habituais: "estamos cansados dos políticos", "isto não tem solução", "para quê votar se é sempre a mesma coisa", etc. José Manuel Pureza explica que "há uma transposição para as comunidades cristãs da visão 'pecaminosa' da política que existe na sociedade, como o sítio em que se sujam as mãos e não onde se limpa a alma: isto tem vindo a contribuir muito para a própria degradação da vida política".
"Os Bispos fazem bem em propor uma experiência e um olhar da vida política que a potencie como lugar de salvação e não como lugar de pecado, porque ela tem capacidades de transformação muito grandes", acrescenta.
O tom do documento da CEP chegou, em certos momentos, a raiar a desilusão em relação aos políticos, acusados de promoverem "um processo contínuo de sublinhar as divergências e as dificuldades", chegando-se mesmo a afirmar: "não deixemos o futuro do nosso País só nas mãos dos políticos profissionais". Esta mudança do registo de análise surpreendeu José Manuel Pureza.
"A observação sobre os políticos profissionais tem a sua razão de ser, evidentemente, no sentido em que a observação dos factos leva a concluir que há um conjunto de pessoas que não faz outra coisa. O problema é que se vislumbra um estigma implícito que é posto sobre os políticos profissionais, que são muitos e muito diferentes uns dos outros", afirma.
Vincando que a questão nesta área, como em qualquer outra, está em ser "bom ou mau profissional, pugnar ou não pelo bem comum", o nosso entrevistado insiste: "podemos correr o risco de cair numa visão redutora de 'povo limpo' e 'políticos profissionais sujos' e isso tem muito a ver com a dificuldade das comunidades cristãs em Portugal de valorizar a experiência política".
»

19.1.05
Portugal no divã
Em entrevista à "Pública", José Gil faz um diagnóstico ao que chama a nossa "falta da ideia de futuro"; à nossa falta de capacidade de nos projectarmos mais alto e mais longe; ao nosso medo de nós próprios. A entrevistadora começa por nos prevenir que o discurso não vai ser animador. E o filósofo não desmente. O encontro com as nossas limitações é importante para as superarmos. Por isso, a quem estiver disposto a visitar os podres da cultura portuguesa, aconselho que se sente no divã. Deixo apenas três apontamentos.

Primeiro: da necessidade de nos deixarmos tocar pelos acontecimentos.
«(...) os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma.»

Segundo: que se lixe o bom senso e as cautelas.
«[Vivemos agarrados ao] texto da sociedade normalizada, do bom senso, do política, social e afectivamente correcto. (...) temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: "Que bom o que tu fizeste. Estou muito contente." Não. Vão-nos decerto criticar. Isso cria logo um medo que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. (...) A verdadeira prudência seria uma estratégia para medir e modular a acção, à medida que ela se desenrola. Mas nós não queremos é agir. Porque a sociedade portuguesa, ao contrário de outras, é fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias, o que é um horror. Conscientes da imagem que possam produzir, da sua presença como imagem nos outros. Isso é paralisante. É uma obsessão.»

Terceiro: estarmos virados para fora.
«Estamos sempre a falar da auto-estima, esse termo horroroso. (...) Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Uma vez assisti a uma entrevista com o jovem físico português, João Magueijo, que vive em Inglaterra. A repórter perguntava-lhe: "Você trabalha com matemática, não em laboratórios. Não podia ter descoberto essas teorias em Portugal?" E ele respondeu imediatamente: "De maneira nenhuma. Sabe porquê? Por causa da intensidade das trocas de pensamento em que eu vivo quotidianamente. É isso que me faz pensar." É essa intensidade que nos falta.»

na edição de hoje
A política e os monstros. Deus e o Tsunami por Leonardo Boff. Gil Vicente e o Maremoto. A Igreja e a política. Uma Terra dos nossos dias.

18.1.05
crianças
Quando se fala se crianças no espaço público só se pode estar a falar de uma de três coisas: do processo "Casa Pia", de alguma cena de violência doméstica ou dos maus resultados e fraco aproveitamento escolar das nossas pobres crianças. Para desdizer este estado de lamentação, o último número da "Egoísta" é dedicado às crianças. Inteiramente dedicado às crianças. Com entrada expressamente proibida a adultos. O resultado é magnífico. Reparem bem no mundo inventado por António Oliveira Marques, futuro historiador, aos 11 anos, numas férias de Verão. Não só criou mapas de países e cidades, como selos, moedas, bandeiras, linhas de autocarro e história (!) para todo aquele mundo novo que descreve no seu "Novo Atlas de Armilária".



Vem isto a propósito da conversa de Ana Sousa Dias com Patrícia Reis, editora da "Egoísta", ontem à noite, no "Por outro lado". Ela que detesta expôr-se, aceitou falar na televisão — se não fosse Ana Sousa Dias a consegui-lo, ninguém conseguiria. Falou do seu livro "Cruz das almas" uma novela (o termo é dela) sobre o que numa vida ficou por fazer. Falou da "Egoísta", que já vai em cinco brilhantes anos de edição. Ficam dois pormenores da conversa.
Quando perguntada sobre como lida com os clientes quando deles discorda no seu trabalho de produção artística, a resposta não tarda – discute-se até à exaustão enquanto fôr possível, sabendo que é o cliente que tem a última palavra. Abdicação da liberdade artística? Não, "maturidade", responde ela prontamente. Já o Camilo dizia "é esta escrita que vos põe pão na mesa todos os dias".
Mais adiante, falando da sua adesão à Igreja já na idade adulta, Ana Sousa Dias pergunta se ela vai mesmo à missa e cumpre os rituais. A resposta é desarmantemente simples: "Sinto-me acolhida no ritual". Aí encontra sentido para "construír um pedacinho, mesmo que pequeno, da paz" à sua volta, como diz, citando o P.e José Manuel Pereira de Almeida. Há tempos, numa outra entrevista, o encenador d'"O Bando", João Brites, dizia que até há alguns anos sentira aversão aos rituais. Chateava-o a sua sazonalidade, a sua aparente repetição, a sua persistência. Hoje descobria esse sentido da repetição, do novo encontro, das estações que se sucedem, dos rituais que, sendo os mesmos, são sempre novos.

17.1.05
BRADO LIBERDADE
Naquele ecrã gigante duas personagens se foram criando. Uma de total bestialidade. Outra de sincera ternura.
Uma personagem bem desengonçada, na beleza do desequilíbrio entre a coragem e o correr a sete pés.
Essa personagem surgiu no fim quase pedindo desculpa mas, depressa o seu embaraço se tornou vendaval, se tornou revolução apaixonada. Na audiência tudo se calou e os corações aceleraram.
Charles Chaplin é um argumentista e actor genial. Foi o meu primeiro encontro no grande ecrã e não fazia ideia do que andava a perder!


o grande ditador

«Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio... negros... brancos.(...)

Porque havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. (...) Criámos a época da velocidade, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. MAIS DO QUE DE MÁQUINAS, PRECISAMOS DE HUMANIDADE. MAIS DO QUE DE INTELIGÊNCIA, PRECISAMOS DE AFEIÇÃO E DOÇURA. (...)

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
»

Charles Chaplin

descobertas
Sete anos depois de abandonar a Terra, à boleia da Cassini, a Huygens conseguiu cumprir os passos complicados até pousar na superfície de Titã. Aqui fica a primeira imagem a cores do lugar mais distante alguma vez alcançado por um artefacto humano. Também é possível escutar o som desse mundo com uma atmosfera de azoto, metano e compostos orgânicos, dez vezes mais densa que a da Terra onde a temperatura à superfície é de -180ºC.


rumos da humanidade
Na curta edição de hoje da Terra da Alegria reflecte-se sobre os rumos da humanidade.
O Marco dá-nos a conhecer mais um pedaço da reflexão da Comunidade Internacional Bahá'í, desta vez sobre o doloroso século XX: «quanto mais sofrimento e desgraça que têm de ser experienciados pela nossa raça, antes que nós, de todo o coração, aceitemos a natureza espiritual que faz de nós indivíduos únicos, e arranjemos a coragem necessária para planear o nosso futuro à luz do que foi tão dolorosamente aprendido?»
Eu dou a palavra aos bispos portugueses sobre o momento político que o país está a atravessar.

16.1.05
o fascismo explicado às crianças
O Lutz entrou em polémica com este post sobre os tempos de recreio do Rodrigo. À conta disso deixou algumas explicações pertinentes sobre a moral fascista. É que há escrever e há olhar para as consequências do que dizemos...
Mais adiante, em resposta ao Lutz, Rodrigo Moita de Deus afirma essa coisa espantosa: "ser fraco é uma opção quase racional". Ora aí está o grito do darwinismo social!

14.1.05
Espalhar sorrisos
Muitas vezes falamos que nos cruzamos na rua com gente mal humorada, que se queixa de estarmos a tentar roubar-lhes o lugar na fila do autocarro; é a falta de educação, de civismo, de entreajuda a que se assite nas grandes cidades... Todos se queixam muito deste ambiente, mas participam e desempenham nele perfeitamente o seu papel, como monte de gente indeferente aos que os rodeiam.
Um dia em que me sentia de bem com a vida, façam vocês também esta experiência, decidi numa atitude altruísta e um pouco inspirada pelas chain letters que nos bombardeiam, espalhar sorrisos por todos com quem me cruzasse. Toma-se uma atenção especial aos rostos dos outros e às sensações que podem transmitir, é engraçado.
Mas algo se repetiu e quase me fez desistir de partilhar a minha alegria com as pessoas desconhecidas: o meu sorriso não era, por vezes, entendido como partilha mas como uma intromissão nas suas vidas, uma atitude de gozo, que recebia em troca uma cara muito mais preocupada e carrancuda que antes. Ficava então com a sensação que só tinha provocado o efeito contrário daquilo que queria...
Será que o anonimato que assumimos nas cidades grandes, a desconfiança e o medo que temos em relação a tudo e todos nos vai tornar avesos à felicidade? Será que já não estamos disponíveis para aproveitar o que de bom encontramos?
Não me parece que assim seja, são apenas mudanças que têm de ser vividas. A cidade é feita de pessoas e sabemos que com motivação podemos construir o tipo de cidade que queremos.
Por isso digo que quase desisti, pois é preciso continuar a espalhar sorrisos e principalmente descobrir formas criativas de o fazer.

Titã
«É um dos momentos altos de uma missão espacial que descolou da Terra a 15 de Outubro de 1997. A sonda europeia Huygens desligou-se da norte-americana Cassini, no dia de Natal, para hoje fazer a sua última viagem: atravessar a atmosfera alaranjada e carregada de moléculas orgânicas de Titã, a maior lua do planeta Saturno, e enviar para a Terra imagens de um mundo que os olhos humanos nunca conseguiram vislumbrar, e que promete ser um laboratório em tamanho natural para estudar a forma como a vida surgiu na Terra. Se esta missão for um êxito, é a primeira vez que um engenho humano toca na lua de outro planeta, e será o local mais distante tocado por um artefacto saído do nosso planeta.» ("Público" de hoje)

Mais explicações aqui (com bonecos) e aqui (com muitas fotografias). As últimas notícias são animadoras. Votos de boa aterragem.


(as duas sondas)


(o sítio de aterragem da Huygens)

Evolução
Algum de nós sabe o que será de si?


aparece como esher

12.1.05
a Terra aterrou
Taizé na primeira pessoa ou a oração entre a multidão;
do divórcio ou Herbert Haag vs. o ex-Bispo de Viseu;
a confissão e o catolicismo a confessar os seus pecados.
É a Terra de hoje.

Extra, para o Timóteo, que não deve ter chegado tão perto:



O sofrimento era já, nesse momento, há cerca de duas horas arrastando-me penosa e lentamente de joelhos, insuportável. Decido a levantar-me e ver o que se passava pois já estava relativamente perto da cruz. Vejo algumas pessoas de joelhos debruçadas com a testa sobre a cruz durante alguns segundos ou minutos (que me pareceram horas) e pensei: "Porra, como é que esta merda não há-de durar este tempo todo. Estes filhos da puta chegam, espetam ali os cornos, e põem-se a descansar." Compreendi aquilo que já deveria ter compreendido pelo menos há uma hora antes. Persignei-me, benzi-me e vim-me embora.»)

11.1.05
mais Taizé
Mais um post certeiro no Palombella, sobre o encontro de Taizé em Lisboa. Não é sobre os participantes, mas sobre os que os acolheram:

«Foram mais as famílias disponíveis para acolher do que as necessárias, na vinda de milhares de jovens a Lisboa para a oração pela paz da Comunidade de Taizé. Em tempo de suspeição perante os desconhecidos, em tempo de fechamento das fronteiras aos que procuram, deste lado do mundo, uma renovação da esperança, este sinal é muito importante. Há lugar para a fraternidade e para a partilha, mesmo na vida agreste da grande cidade.»

10.1.05
as crianças judias
Na Terra da Alegria de hoje, além do meu texto, encontram um outro mais sábio, sobre o caso da disputa das crianças judias à guarda de instituições católicas, em 1946. Digo que é um texto sábio porque consegue perceber que ambas as partes tinham intenções genuinamente boas à luz da sua mundividência. Nem sempre é fácil conseguirmos perceber isso — é mais simples julgar e chamar nomes aos responsáveis pelos erros do passado. A conclusão que podemos tirar para os dias de hoje, crentes e não crentes, é que o nosso conhecimento é sempre limitado e incompleto. Mesmo, e sobretudo, no que toca a assuntos religiosos. Confio pouco em quem confia demasiado em si mesmo (e também confio pouco em quem não tem convicção nenhuma, mas isso é outra história). Ou como diz o Lutz, uma solução pressupunha "que todos as partes (...) conseguissem o feito algo paradoxal de relativizar as suas concepções religiosas, que têm, por definição, um núcleo absoluto". O mais absoluto numa concepção religiosa é que nós não somos Deus. Por isso até as nossas concepções religiosas devem ser relativizadas.

a física explica a meta-física?
Uns post mais abaixo gerou-se uma discussão interessante a propósito de um post em que se fala de propriedades "supra-físicas". Dizia o autor citado (Mário Bunge) que "há coisas que escapam à teoria quântica não porque tenham grandes dimensões, mas porque têm propriedades suprafísicas, tais como a de estar vivo e obedecer a normas que não derivam de leis físicas". Para tirar a prova dos nove, li este texto à física cá de casa, que franziu o sobreolho quando o ouviu. Depois discutimos. Para explicar a conclusão, passo a citar outro fulano (Keith Ward, de "Deus o acaso e a necessidade"):

«As leis da mecânica não são muito úteis em áreas em que existem muitas outras propriedades não mensuráveis em interacção complexa — como, por exemplo, as relações sociais e políticas. Deste modo, uma medida exacta da massa, posição e velocidades das bolas de bilhar em cima de uma mesa, no início de um jogo, não proporcionam uma previsão segura do local em que as mesmas se encontrarão após dois minutos de jogo. Isto não se deve apenas ao que consideramos ser a imprevisibilidade inerente até mesmo a sistemas newtonianos e causada pela impossibilidade prática de descrever exactamente as condições iniciais. Deve-se também ao facto de estarem envolvidas intenções e capacidades humanas. Mesmo assim, as leis da mecânica continuarão a ser úteis, pois elas possibilitarão aos jogadores prever o que irá acontecer se baterem numa bola num ângulo específico com uma força específica. O que elas não farão é prever que um jogador seja capaz de introduzir todas as bolas nos buracos pela ordem correcta. Nessa altura entram em jogo factores psicológicos e sociais, introduzindo factores que influenciam a situação e que o modelo ideal da mecânica não toma em consideração. Deste modo, podemos ter leis e equações deterministas num mundo que não é totalmente determinado apenas por essas leis. Esse é o mundo em que parecemos viver.
Mesmo que as leis da física não sejam os únicos factores que influenciam o futuro, é ainda um facto notável que as construções matemáticas da mente pareçam revelar uma estrutura matemática objectiva ao próprio domínio físico.
»

Os meus companheiros de conversa dir-me-ão, com toda a razão, que ele se esquece de olhar para as interacções biológico-quânticas que se passam nos cérebros dos jogadores. Porém, essas interacções são fruto de toda a experiência acumulada pelos jogadores (se fosse eu a jogar, era cientificamente certo que não iria fazer grande figura). Ortega y Gasset dizia isto mesmo no seu célebre "Eu sou eu e a minha circunstância". Poderiam as leis físicas calcular a história completa de uma pessoa? Tenho sérias dúvidas e, sinceramente, acho que isso é pouco relevante. São-nos bem mais úteis as leis de outras ciências para falar dos comportamentos humanos, sociais, económicos, culturais, políticos ou artísticos. Quer isto dizer que há porções de matéria que não estão sujeitas às leis da física? De modo nenhum. Quer dizer, isso sim, que há realidades que não nos são plenamente acessíveis usando exclusivamente a física. E ainda bem que temos tantas outras formas de conhecimento que nos permitem abordar e maravilhar-nos com os comportamentos mais misteriosos da natureza humana.

e também bebem copos?
O Renas e Veados descobriu que os cristãos (porque não estiveram só católicos em Taizé) também bebem copos. E também dormem na rua e também fumam (até mesmo substâncias suspeitas). Então a malta não pode beber uns copos na passagem de ano? Então o primeiro milagre de Nosso Senhor Jesus Cristo não foi transformar água em vinho? E logo tendo vindo de tão longe para Portugal, onde o vinho abunda! Estava mesmo a pedir uma tosga e venha a oração com ressaca em cima.

Com a parte dos copos a gente ainda se ri um bocado. Mas quando dizem "aguardemos pela tão aclamada Paz trazida pelas mãos destes jovens!" deviam procurar mais do que os seus próprios estereótipos sobre a Igreja. É certo que nos grandes encontros há sempre muita gente que vai com motivações questionáveis (por isso tenho aversão a multidões). Também é certo que ali se juntaram gentes que, sendo cristãs, vivem a fé de forma muito diversa. Às vezes tão diversa que aparecem as tais manifestações de práticas "pagãs / pré-históricas / Stonehengicas / qualquer-coisa-desse-género-estranhíssima". Mas valia a pena ler mais umas coisas para saber do se passou por lá, não?

Deus e o tsunami
Deve estar a aparecer a edição de hoje da Terra da Alegria. "Deus e o tsunami" é o título da minha colaboração. Também o Frei Bento Domingues escreve hoje sobre isso, noutro blog de pequena tiragem ("Público"):

«Alexandra Prado Coelho falou com crentes de cinco religiões acerca da tragédia da Ásia. Nenhum dos interrogados atribuiu o maremoto a um castigo divino (cf. PÚBLICO, 5/1/2005).
Ainda bem. O silêncio e a solidariedade, perante uma catástrofe de tal dimensão, são as únicas atitudes que respeitam a transcendência de Deus e a dignidade dos seres humanos.
Até há poucos anos, os mestres do egoísmo, solidamente instalados numa confortável apologia da finitude, defendiam que gozar a vida no máximo dos seus prazeres era o único sentido que a existência humana podia ter. Para este culto da finitude bem sucedida bastava a imersão na corrente da vida de uma natureza generosa. Qualquer alusão a um mundo de infelicidade ou a sinais do sagrado, a interrogações de pendor metafísico ou religioso eram restos de superstições condenadas a desaparecer.
Acontecimentos inesperados obrigam-nos a parar e a escutar a voz do silêncio. É preciso ir mais longe e mais fundo do que as solidariedades pontuais, por mais urgentes e indispensáveis que elas sejam. A catástrofe não foi um castigo de Deus, mas pode ter sido o castigo da falta de preparação e equipamentos para escutar os sinais da natureza (cf. Costas Synolakis, PÚBLICO, 2/1/2005).
»

9.1.05
61
Na escola, a Professora Forbes disse que quando a Mãe morreu foi para o Céu. Isto porque a Professora Forbes é muito velha e acredita no céu. Ela usa calças de fato-de-treino, porque diz que são mais confortáveis do que as calças normais, e uma da pernas dela é ligeiramente mais curta do que a outra por causa de um acidente de motocicleta.
Mas, quando a Mãe morreu, ela não foi para o Céu, porque o Céu não existe.
O marido da Professora Peters é um vigário, chamado Reverendo Peters, e às vezes ele vem à nossa escola falar connosco, e eu perguntei-lhe onde era o Céu e ele respondeu: - Não fica no nosso universo. É um outro tipo de lugar completamente diferente.
Às vezes, quando está a pensar, o Reverendo Peters faz uns estalidos engraçados com a língua. Ele fuma cigarros, que se podem cheirar no hálito dele, e eu não gosto disso.
Eu disse que não havia nada fora do universo e que não existia um outro tipo de lugar completamente diferente. Só que pode existir, se atravessarmos um buraco negro, mas um buraco negro é aquilo a que se chama uma Singularidade, o que significa que é impossível descobrir o que está do outro lado, porque a gravidade de um buraco negro é tão forte que até as ondas electromagnéticas, como a luz, não conseguem sair dele, e é através das ondas electromagnéticas que nós obtemos informações acerca das coisas que estão muito longe. E se o Céu estivesse do outro lado de um buraco negro, os mortos teriam de ser disparados para o espaço dentro de foguetões, para lá chegarem, e isso não acontece, senão as pessoas dariam por isso.
Acho que as pessoas acreditam no Céu porque não gostam da ideia de morrer, porque querem continuar a viver e não gostam de pensar que outras pessoas irão morar na sua casa e que lhe irão deitar fora as suas coisas.
O Reverendo Peters disse: - Bem, quando eu digo que o Céu é fora do universo, na verdade isso é só uma maneira de falar. Acho que aquilo que realmente significa é que elas estão com Deus.
E eu ripostei: - Mas onde está Deus?
E o Reverendo Peters disse que devíamos falar acerca disso noutro dia, quando ele tivesse mais tempo.
Aquilo que realmente acontece, quando morremos, é que o nosso cérebro pára de funcionar e o nosso corpo apodrece, como aconteceu com o Rabbit, quando ele morreu, e nós o enterrámos no fundo do jardim. Todas as moléculas dele dividiram-se em outras moléculas, foram para debaixo da terra, foram comidas pelos vermes, foram absorvidas pelas plantas e, se daqui a 10 anos escavarmos no mesmo sítio, não restará nada dele a não ser o esqueleto. E daqui a 1000 anos até o esqueleto terá desaparecido. Mas não faz mal porque agora ele faz parte das flores, da macieira e do espinheiro-alvar.
Quando as pessoas morrem, elas são muitas vezes colocadas dentro de caixões, o que significa que, durante muito tempo, não se misturam com a terra, até a madeira do caixão apodrecer.
Mas a Mãe foi cremada. Isto significa que foi colocada dentro de um caixão, queimada, pulverizada e transformada em cinzas e em fumo. Eu não sei o que acontece às cinzas e não pude perguntar no crematório, porque não fui ao funeral. Mas o fumo sai pela chaminé para o ar e às vezes eu olho para o céu e penso que existem moléculas da Mãe lá em cima, ou nas nuvens por cima da África ou do Antártico, ou a caírem sob a forma de chuva, nas florestas tropicais do Brasil, ou algures, sob a forma de neve.

Este é o capítulo Nº 61 do livro que ando a ler: O estranho caso do cão morto de MArk Haddon. Mark Haddon trabalhou com crianças autistas e ensinou Escrita Criativa na Arvon Foundantion e na Universidade de Oxford; este livro é escrito por ele como sendo Christopher Boone, rapaz autista de 15 anos. Lembrei-me deste capítulo ao ler, tentando apanhar qualquer coisita, a discussão que vai crescendo em questões e argumentos na nossa caixa de comentários acerca de um post do Zé Filipe que vai ficando cada vez mais lá para baixo.

8.1.05
O mundo numa só cidade
Chegou o dia 28 de Dezembro e a ansiedade da chegada dos jovens de Taizé que iríamos acolher chegou a minha casa. Depois do almoço telefonaram da paróquia a pedir que fossemos buscar duas meninas polacas que tinham chegado à Igreja. Lá as encontrei, sorrisos abertos, caras cansadas, tinham saído de casa dia 25 e ansiavam por um duche e uma bebida quentinha.
Passámos o resto do dia à espera que chegassem os outros dois jovens que tínhamos aceitado acolher, mas nunca apareceram... parece que os portugueses se entusiasmaram e todos disponibilizaram as suas casas para acolher estes jovens de terras distantes de tal maneira que chegaram a sobrar vagas para os 40.000 jovens que passaram o ano em Lisboa.

Pouco tempo passaram as polacas cá em casa, tinham o encontro para participar e sobretudo a cidade por conhecer. Chegavam à noitinha para dormir cansaditas mas de rostos contentes contando as mil voltas que tinham dado neste país de sol e mar. De manhã antes das 8h30 já estavam a caminho da Igreja para a oração da manhã.

Foi uma boa forma de acabar 2004, apesar de todas as tragédias, pobreza e sofrimento pelo mundo fora, foi um ano em que o português fez e deu ao estranho aquilo do que sabe melhor: ACOLHER. E este acolher não é só abrir a fronteria da nossa terra e a porta da nossa casa, o acolher à portuguesa é mostrar o que é nosso com orgulho e principalmente querer saber do mundo do estrangeiro e partilhar com ele a alegria da vida.

O acolhimento em casa foi uma boa experiência mas esta partilha talvez tenha sido mais efectiva nas orações na FIL onde os portugueses se misturaram com os jovens do encontro. A verdade é que estes jovens chegavam à cidade com as suas enormes malas, os seus sorrisos abertos, um inglês meio arranhado e nem os mais distraídos puderam ficar indeferentes. Por necessidade ou por simples curiosidade muitos foram os que se deslocaram aos pavilhões I e II da FIL às 13h15 e às 19h30 todos esses dias até dia 31 para participar na oração comunitária. E de quem ía só se ouvia dizer "gostei muito!", "surpreendente!", "muito bonito!", foram espaços de paz, harmonia que não sendo perfeitos fizeram cada um sentir-se integrado e acolhido num mundo tão grande.

Clássico
Hoje há clássico: Benfica-Sporting! Já convidei a malta amiga a aparecer por cá para um piquenique partilhado. Temos frango assado, caldo verde, uns salgados, cerveja e vinho tinto. Que vençam os melhores: Força Benfica!

6.1.05
A Livraria Buchholz
A Livraria Buchholz , lugar de referência do nosso (pequeno) universo cultural encontra-se em situação de pré-falência.
Sugere-se a todos quantos a frequentaram que a voltem a visitar, de vez em quando.
Comprar um livro que não se encontra em mais lado nenhum pode, eventualmente, ajudar a reerguê-la.

Agradece-se que passem esta informação a quem possa interessar.

A Buchholz é uma livraria com história. Foi fundada em 1943 pelo livreiro alemão Karl Buchholz, que deixou Berlim depois da sua galeria de arte e livraria terem sido destruídas pelos bombardeamentos. A actividade de Buchholz era incompatível com o regime de Berlim, nomeadamente a venda de autores considerados proscritos, como Thomas Mann. No entanto, a relação de Buchholz com o regime era algo dúbia pois tanto compactuava em manobras de propaganda alemã como salvava da fogueira obras de Picasso e Braque, condenadas pela fúria nazi.

No início, a livraria estava situada em Lisboa na Avenida da Liberdade e só em 1965 se instalou na rua Duque de Palmela. O interior foi projectado pelo próprio livreiro ao estilo das livrarias da sua terra natal. O espaço estende-se por três andares unidos por uma escada de caracol, com recantos e sofás que proporcionam uma intimidade dos leitores com os livros. A madeira das escadas, chão e estantes torna o espaço acolhedor e agradável. Durante os anos 60, a tertúlia artística lisboeta - entre eles, Escada, Noronha da Costa, Eduardo Nery e Malangatana -, passou pela cave da Buchholz que funcionou como galeria até 1974. Hoje, a galeria continua a ser uma referência cultural com um público fiel que preza o espaço de convívio que a livraria sugere. A selecção dos títulos é vasta e inclui várias áreas: artes, ciência, humanidades, literatura portuguesa e estrangeira, livros técnicos e infantis, na cave funciona uma secção de música clássica e etnográfica. Apesar de não ser especializada em nenhuma área, a secção dedicada à ciência política é frequentada por muitos políticos da nossa praça. A Buchholz acolhe ainda eventos especiais como lançamentos de livros, sessões de leitura, e o "Domingo Especial" que são os saldos anuais da livraria, uma vez por ano, no último domingo de Novembro. Na Buchholz on-line pode percorrer as estantes da livraria sem sair de casa e ainda encomendar livros nacionais e alguns estrangeiros.

TELEFONE
213170580

LOCAL
Lisboa, R. Duque de Palmela, 4

HORARIOS
Segunda a sábado das 09h00 às 18h00 (encerra sáb. às 13h).

OBSERVAÇÕES
Especialidades: livraria generalista.

SÍTIO OFICIAL
http://www.buchholz.pt

(recebido por e-mail)

Poesia para levar


Se na altura de se decidir se toma ou não alguma coisa a acompanhar o café ao jantar num restauramte, e havendo grandes hesitações, vires o pai de uma família constituída por pai, mãe e dois filhos ou filhas maiores de 17 anos dar um murro na mesa e dizer "quatro bagaços, porra", poderás dizer que se trata de uma família feliz.

Eastwood da Silva


Na Barraca está-se bem. Não é teatro, é o bar d'A Barraca. Foi de lá que recolhi a poesia para levar/trazer. Entre conversas sobre piano e muito humor descobri que muito provavelmente Eastwood da Silva é um óptimo pseudónimo para um dono de bar que subtilmente vai desvendando sensibilidades. Descobri ainda que na próxima 5ª feira vale a pena lá voltar, motivo: um pianista argentino, comunicador nato, de estilo algo tosco mas excelentes mãos* para o piano. Não recordo o nome deste pianista mas o conselho pareceu-me de aceitar, se não for pelo gosto de ouvir piano* pelo bar d'A Barraca onde a conversa flui.

*confesso que ao reler o post troquei "excelentes mãos" por "excelentes mãos para o piano" e "se não for pelo pianista" por "se não for pelo gosto de ouvir piano" por ser demasiado púdico e anti-pornografia nos blogs.


Lista para curiosos do piano:
- Erik Satie - "Gymno Pedies"
- Wim Mertens - "Stratégie de la rupture"
- Keith Jarret - "Koln concert", "Scala" e "Paris"
- Mompu - "Piano Works"
- Bernardo Sassetti - "Indigo"
- Thelonious Monk - "Solo Monk"
- Bill Evans - "Solo" e "You must believe in Spring"
- Bebo Valdez - "Suite?"
- Claude Debussy - "Prelúdios"
- Chano Dominguez

(oferecida pelo dono do dito Bar)

pela rua...
Dois estudantes de escultura iam em viagem de carro, a caminho de Évora, no Alentejo, calados. Ele desabafa, não gosto de rotundas. Ela replica, não gostas!? Eu adoro, são boas fontes de trabalho e na escultura não é fácil ganhar dinheiro! Ele adora a resposta e diz frenético: Genial! Quando me fizerem uma proposta para fazer uma rotunda faço um cemitério, um cemitério de semáforos! E explica, é que os semáforos estão em vias de extinção à custa das malditas rotundas!

5.1.05
"Não haverá mais qualquer coisa?" II
«Há uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: é a sua consciência de que são tão fundamentais à vida como o pão.»

(Miguel Torga)

pobreza e solidão
Num comentário ao texto "Sentir a dor dos pobres" da Comunidade João XXIII (meia dúzia de posts mais abaixo), o Gabriel diz a certa altura:

"As crianças são encaradas como o futuro de quem se espera muito mas dos idosos já não se espera nada e na lógica comercial que preside aos relacionamentos, quem nada tem para dar de palpável, de material, nada obtém."

É um diagnóstico triste, mas verdadeiro. Em Coimbra, algumas das situações de pobreza mais gritantes estão bem no centro da cidade, na Baixa, alguns pisos acima das lojas onde todos fazem compras, naqueles prédios que ninguém vê, nas ruelas mais escondidas. Aí moram idosos, muitas vezes sozinhos, vivendo da solidariedade dos vizinhos, de algum familiar que aparece nos intervalos do trabalho ou de alguma instituição. Quem já lá foi descreve sempre a mesma coisa: gente a viver em condições vergonhosas. Essa gente não se queixa das condições — habituaram-se a elas. Queixam-se sim da falta de companhia. Apesar de estarem bem no centro da cidade, não deixam de ser uma periferia, de estar à margem.


"Não haverá mais qualquer coisa?"
A recente troca de correspondência entre o Carlos Cunha e o Ludwig Kripal não deixa de ser interessante. Depois de outras conversas, chegaram à questão da suficiência ou insuficiência da razão. Fez-me lembrar um artigo lido há pouco tempo na Gazeta de Física chamado "Vinte e Cinco Séculos de Física Quântica: De Pitágoras até Hoje e do Subjectivismo ao Realismo". Diz o autor, Mario Bunge (professor do Departamento de Filosofia da Universidade de McGill), a certa altura, sobre os limites da ciência física:

«(...) há coisas materiais concretas, como organismos, robôs e sistemas sociais que estão fora do alcance da teoria quântica – contra os reducionistas radicais, que acreditam que esta é uma teoria universal. Aquelas coisas escapam à teoria quântica não porque tenham grandes dimensões, mas porque têm propriedades suprafísicas, tais como a de estar vivo e obedecer a normas que não derivam de leis físicas. Devíamos estar gratos por ter uma teoria tão geral e precisa como a teoria quântica, mas seria ridículo tentar aplicá-la para além do seu domínio.»

Vem isto a propósito deste trecho do CC, de que muito gostei:

«A entrega aos outros, aquilo que a comummente se chama amor, é algo extra-razão. Não falo de cooperação, de simbioses, de investimentos. Falo de dádiva. Da ilógica do amor. Do rasgo no quotidiano que o amor provoca. Contra a razão? Não, mas apesar da razão. Qualquer amor. Dos pais aos filhos, dos filhos aos avós, dos amigos entre si, dos amantes. De Deus para com os homens e das suas criaturas para Deus? Como Laplace, também prescindo desta hipótese. Explica-se o amor? Sim, também se explica: o desejo de possuir, de se entregar, de perder o sentido da responsabilidade, o gosto egoísta de ser gostado, uma vontade de comunicar, de desabafar, a procura de um regaço, um impulso biológico.
Mas não haverá mais qualquer coisa?
»

4.1.05
Ondjaki


Reencontrei-o na Tv. Acontece sempre assim com o programa "por outro lado", nunca me lembro em que dias ou horas dá, apanho-o sempre inadvertidamente, o que dá ao momento um gosto especial. Reconheci-o pelo nome. A cara não a sabia assim.
Relembrei o livro que tinha lido: "momentos de aqui". Aquela história incrível de "Múrio enquanto mau tomador de comprimidos". Gostei muito de o ouvir, da humildade, da vontade de conhecer mundo, do gosto pelas palavras.
Agora escreveu "Ynari. A Menina das Cinco Tranças" com ilustrações de Danuta Wojciechowska. Uma história para crianças que é assim apresentada:

Ynari é uma menina com cinco tranças e muita vontade de conhecer outras aldeias.
Perto do rio, Ynari encontra um homem pequenino e descobre que a guerra também faz parte do mundo. Com a ajuda das suas cinco tranças, a menina vai mostrar que as crianças, com magia e ternura, podem mudar todas as aldeias e acabar com todas as guerras.
Numa viagem de sensibilidade e sabedoria, com estrelas e cores, é possível inventar ou destruir palavras. Brincando com os sentidos da vida e da paz, Ynari redescobre uma palavra antiga cheia de uma magia nova: «amizade».


Fiquei com vontade de o encontrar numa livraria e ler devagar.

Um poema que não conhecia:

»essa palavra margem«

quem primeiro domesticou a palavra margem foi guimarães rosa. depois foi invadido por marés de margens...
depois pode-se apontar

margem de rio
margem da página
margem do momento [ou momento à margem]
margem-só
terceira margem [do rio, das pessoas, do amor]
poeta à margem
poesia das margens
margem de gente
à margem da vida
vidas sem margem
ficas sem margem
na margem da vida
margem de vinda
margem de ida
margens de chegada [com canoas, jangadas, embarcações]
margem adiada
margem odiada
margens dos cegos, dos gagos
a margem dos que estão
à margem dos que não estão
margem da liberdade [de pisar o chão]
à margem da verdade
margem da lágrima
minha margem
na margem
do meu poema.
[a terceira margem da pessoa – é o outro...?]

Ondjaki 2003

3.1.05
voltou a Terra
Passou o cometa, voltou a Terra. Com discussões sobre ateísmo e pães com manteiga. Eu tinha um textozito escrito sobre "Deus e o tsunami", mas atrasei-me no seu envio. Ainda tentei desculpar-me com o 2046, que me atrasou a escrita, mas não resultou. Fica para a semana. Entretanto podem ler este post do alerta amarelo sobre o mesmo assunto.


2.1.05
2005
2005 começa marcado pela tragédia. Os primeiros votos aqui expressos só podem ir para o Sudeste Asiático: que nos unemos todos para ajudar as vítimas desta terrível catástrofe; que os que sofrem consigam erguer-se e recomeçar.

Ficam várias formas de colaboração possíveis:

Assistência Médica Internacional
Banco Espírito Santo – nº 015/40000/0006
Multibanco - entidade 20909 e referência 909 909 909 em Pagamento de Serviços
Tranferência bancária para o BES - NIB 000700150040000000672

"SOS Crianças da Ásia" da UNICEF
Caixa Geral de Depósitos – NIB 003501270002824123054

Cáritas ajuda vítimas do Sudeste asiático
Caixa Geral de Depósitos – NIB 003506970063091793082

Apelo emergência da Cruz Vermelha
Banco Português de Investimento – NIB 001000001372227000970



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