28.2.05
da memória e da atenção
A leitura da Casa Encantada da semana passada não pôde deixar de me trazer à memória (já que dela falamos) o livro de José Cardoso Pires que aí é citado. De tal forma que voltei a lê-lo de uma acentada. "De Profundis Valsa Lenta" é o relato na primeira pessoa da doença vascular cerebral que Cardoso Pires sofreu e que o deixou completamente desmemoriado durante algum tempo, sem se saber sequer se teria hipóteses de recuperação. Minto, o relato não é na primeira pessoa. Ele não se reconhece naquele Outro de si, como o Outro não o reconhecia a ele ao ver-se ao espelho. E isto não são figuras de estilo.
Começou naquela manhã, quando ao pequeno almoço, numa "fria tranquilidade", perguntou à mulher "Como é que tu te chamas?". "Eu? Edite." — responde ela — "E tu?", pergunta-lhe ela depois de uma pausa. "Parece que é Cardoso Pires" — foi a resposta desesperantemente alheada desse Outro, que já nem pelo nome próprio se conhecia. Deste episódio em diante pouco ficou retido na memória que o escritor viria a recuperar. Ficou porém o suficiente para nos contar este seu percurso pelo esquecimento profundo, pelo esquecimento biológico, pelo esquecimento de quem se perdeu a si próprio:
«Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido. Assim, ao ver o meu Outro eu a pentear-se com uma escova de dentes num quarto de hospital (conforme me contaram depois) pergunto-me quantas vezes lhe aconteceu aquilo (...). Para ele, agora ou ontem tudo era outrora, mundo alheio ou como tal. E desinteresse. O constante e desinteressado desinteresse do homem desabitado de pessoas e lugares, de tempo e de sentimentos.»
Este é apenas um dos relatos que mostra bem do que estamos a falar. Se as virtudes da memória me eram já muito queridas, a experiência da sua negação vivida e (felizmente) contada por Cardoso Pires lembra-nos como ela é coisa preciosa. Recordo o texto de Mounier onde diz que "a pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade". É a memória bem usada, a memória construída pela atenção que permite que a vivência da interioridade não seja um egocentrismo barato: "o recolhimento (...) é uma conquista activa, o oposto de uma ingénua confiança na espontaneidade e fantasia interiores (...), é também um movimento simplificador e não complicação, (...) atinge o centro da pessoa e atinge-o directamente. Nada tem a ver com a ruminação ou introspecção mórbidas." Quem vive atento aos outros, quem treina a memória e a sensibilidade na atenção ao próximo, pode chegar àquele ponto de que falava Sophia quando dizia "O meu interior é uma atenção voltada para fora".
Deixo-vos com o resto desse poema, que poemas só recorto de memória. Quando releio não consigo recortar. Antes disso volto ao João, que se bem me lembro (aí está a memória outra vez) foi por onde comecei:
«Mesmo que ninguém me acredite eu acredito na minha memória. Todas as minhas outras crenças dela vieram. De resto, para mim e para todos, donde mais podiam elas ter vindo? Como não tenho tempo nem espaço para vos resumir a teoria da reminiscência, acabo a dizer que o Filho do Homem só desceu à Terra para nos lembrar.»


«A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho

Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
»

mais filosofia personalista
Hoje continuei a percorrer as páginas de "O Personalismo", de Emmanuel Mounier, na Terra da Alegria. Desculpem lá os que não apreciam a onda filosófica, mas não consegui resistir:

«Aquele que, descendo de si, se não deteve na calma dos primeiros abrigos, mas se decidiu a correr a aventura até ao fim, cedo se precipita para longe de qualquer refúgio. Artistas, místicos, filósofos, viveram por vezes até ao esgotamento esta experiência integral, muito curiosamente chamada 'interior', porque se lançaram para os quatro cantos do globo.»

Também lá está um texto do Lutz, que nos dá a conhecer um livro de Martin Buber onde se relatam experiências místicas de gente comum, muitas vezes distante dos cânones das Igrejas. Pela poema que nos mostra, é coisa boa. Ficamos à espera de mais.

26.2.05
O nosso reflexo nos outros
Para escrever uma frase tem de ser original,
para expressar uma opinião tem de ser sensata,
para dar um presente tem de ser o perfeito,
para usar uma roupa tem de ser estilosa,
para definir gostos musicais têm de ser bem fundamentados,
para realizar programas culturais têm de ser invulgares,
para ter uma posição em relação aos problemas do mundo tem de ser ponderada...

Em tudo queremos fazer diferença,
atingir a perfeição, ser admiráveis,
reconhecidos, fazer coisas fantásticas...

Talvez isso não seja assim tão mau,
mas ficar presos às convenções e fazer o que fica bem em vez daquilo que genuinamente queremos fazer, ser espontâneos, não ter medo de dizer e fazer errado, de conhecer quem realmente somos, de questionar as convenções, de sermos exigentes com as razões que nos levam a agir assim ou assado...

Pensamentos de quando o trabalho (e nós próprios) absorve muitos recursos para vivermos os projectos que idealizamos

life is tough
"Life is tough and then you die."

Este é um provérbio inglês dos mineiros de carvão do Yorkshire, de quando os havia. Não consigo deixar de o lembrar quando lembro o meu tio. É nestes momentos que nos arrependemos de não ter conhecido melhor as pessoas que nos são tão próximas e que ainda assim deixamos que estejam distantes. Pessoas simples que tiveram uma vida complementamente de acordo com o dito provérbio; mas que sabemos terem sido muito mais do que isso. Pais de filhos que lutaram e lutam pela vida, muitas vezes com tantas dificuldades. Gente que luta, mas luta com justiça e com dignidade. Gente que não tem paciência para ouvir os padres, mas que sabe mais de teologia do que eu. O tio soube, na sua simplicidade, ensinar-lhes as lições fundamentais. Life is tough — mas nunca lhe faltava um sorriso.

22.2.05
dia que tchuba bem, nôs ta dança


São 3 horas da manhã, fui espreitar a noite e maravilha das maravilhas: ESTÁ A CHOVER! Ainda hoje fui visitar umas amigas de longa data, todas elas plantas de vários tamanhos e diferentes histórias. Estarão melhor agora. Que se mantenha que a terra bem precisa. Apetece agradecer.


Raio de sol
beija a pele de uma criança que ri
há tanto tempo
que a água da vida não caía aqui


(o título e letra de uma música da sara tavares)

21.2.05
meio texto
Esta semana escrevi só meio texto para a Terra da Alegria: "Revolução Personalista (II e meio)". Mounier e um bocadinho de Dostoiévsky. Também podia ter um bocadinho de Gandhi, para compôr o ramalhete:

«O amor é a força mais subtil, e também a mais potente que há no mundo. O amor e a verdade estão tão unidos entre si que é praticamente impossível separá-los. São como duas faces da mesma moeda. O amor não é coisa fácil. É mais fácil dançar sobre uma corda que sobre o fio do amor.»

20.2.05
viva a democracia!
Temos governo. O povo votou — e votou muito! Não foi há quatro meses, como desejei, mas foi hoje. E foi muito bom.
O povo é sereno — a campanha foi calma, com excepção para a boataria baixa que fez a sua estreia entre nós e que teve a resposta merecida nas urnas. Mas as urnas disseram mais: o "animal político", o "vencedor de campanhas", o "menino guerreiro" não conseguiu esconder o Primeiro-Ministro desastrado, errático e umbiguista. Parece que ainda não vivemos numa sociedade puramente mediática, como às vezes se ouve. O povo é sábio — quando é preciso não fica em casa. Ainda bem que assim foi. Estamos todos de parabéns. E venha o próximo governo.
Por motivos diversos, a festa será fraca para os meus lados. Bebam uma cerveja por mim e já agora brindem à democracia!


APELO AO VOTO
Como ainda não dá para votar por computador e se ainda não votou, por favor levante-se daí e VÁ VOTAR!


18.2.05
vaidades, bom senso e recolhimento
Assim vai a nossa terra. Assim vai a Terra da Alegria. Vejamos.
Na segunda. O Marco contou-nos como o bom senso de um analfabeto pode ser infinitamente superior ao dogmatismo dos sábios. Uma vaidade resolvida com bom senso.
Na quarta. O Timóteo explica a importância da família e da justiça social — vaidades de dois quandrantes ideológicos; falta de bom senso de ambos. O José explica-nos como temos sido uma terra de vaidades e oferece o seu (ex-)voto à nossa santa padroeira se isto se resolver. O Rui Almeida decide-se pelo silêncio, para não acrescentar barulho ao cortejo de vaidades. E de idêntica opção — o silêncio do recolhimento —, fala também o Miguel, tirando a conclusão para estes nossos dias agitados:

«"Reconheço Deus na brisa suave, ao jeito de Elias, e na sarça ardente, como Moisés. Preciso da experiência da brisa suave para criar disponibilidade para a intensidade do fogo; preciso da paixão do fogo para que o desejo da brisa seja sempre maior e mais profundo."
Espartilhados entre a família, os amigos, a casa, o emprego, os transportes, os blogues, a espuma dos dias acaba por esconder a beleza da sarça ardente, da paixão que é a vida. Vamos lá fora olhar o céu, sentir a brisa suave. E amar.»

17.2.05
Tempo de reflexão


É incrível como o número de posts escritos pela Inês aumentam substancialmente durante a época de exames dela...

NOVOS CAMINHOS
Ontem já era muito tarde e ao vaguear aqui por alguns blogs tive a sorte de encontrar este post de Luís Aguiar-Conraria:

"Ingenuidade criativa

(…) Antes de vir para os EUA, sempre pensei que os estudantes americanos tinham uma má formação académica. Hoje considero isso um disparate. Não é fácil comparar um estudante americano com um português. Um licenciado português em Economia teve cerca de 30 cadeiras semestrais de Economia. Um americano não terá tido mais do que doze ou treze. Em compensação, o americano teve cadeiras de Filosofia, Física, Biologia, Educação Física, etc. Em qualquer teste específico de Economia, ficar-se-á com a ideia de que o estudante português sabe mais.

Quantas cadeiras de economia inúteis tive eu? Contar as úteis seria mais económico... (…)

No primeiro ano do doutoramento foram os americanos que tiveram mais dificuldades. Antes dos exames, lembro-me de dar autênticas aulas de esclarecimento. De explicar técnicas matemáticas que para mim eram básicas. (…)
No pólo oposto estavam os chineses e alguns dos indianos. Sabiam tudo. Todos os exercícios eram meras brincadeiras. Era óbvia a sobranceria com que os ocidentais eram tratados. Além de fazerem as cadeiras do core (obrigatórias), estes estudantes dedicavam-se a fazer cadeiras avançadas de matemática, estatística e probabilidade.(…)

Os americanos tinham grandes dificuldades no primeiro semestre. No segundo, estas dificuldades eram atenuadas. No fim do ano, não havia diferenças estatisticamente relevantes entre os americanos e os outros grupos.
No meu segundo ano, fui teaching assistant da cadeira de doutoramento de macroeconomia. A soberba dos estudantes orientais já tinha desaparecido. Alguns tornaram-se bons amigos. Esses mesmos estudantes especializavam-se em áreas essencialmente técnicas. (…)

Em abono da verdade devo dizer que alguns dos piores estudantes são americanos. Alguns não têm pedal para aguentar um doutoramento a sério. Mas também é verdade que os melhores são americanos.

No meu ano, o melhor é o Patrick. Há uma certa ingenuidade na forma como aborda os problemas económicos. Ingenuidade que lhe permite ter a abertura de espírito necessária para sugerir novos caminhos. Tendo tido alguma formação em Filosofia e Sociologia, possui uma mente mais abrangente do que a minha. Os seus conhecimentos de Filosofia e de Sociologia permitiram-lhe um olhar diferente sobre o problema do desemprego, da pobreza e da sua medição. As sólidas bases matemáticas deram-lhe os instrumentos e a perseverança necessários para uma abordagem axiomática dos índices de pobreza e desemprego. Dentro de quinze anos, estaremos a medir o desemprego e a pobreza, usando os métodos (ou variações destes) que o Patrick propõe."


Marcel Duchamp. Bicycle Wheel, 1915.
Podemos dizer o que bem nos apetecer, mas ele foi o primeiro a lembrar-se e trouxe nova arte à arte. (neste link podem também ver o urinol que ele virou ao contrário, Fountain, 1917)


Peço desculpa por este post tão grande, mas a verdade é que este assunto me preocupa e me diz respeito... sinto a falta da mistura das ciências humanas com outras ciências. Não percebo como é que em Portugal ainda se ignora esta necessidade, preparam-nos intensivamente para determinadas funções, para termos um emprego e não cometermos erros básicos mas ninguém nos ajuda a perceber melhor o mundo!
Quem fala em economia, fala em medicina, em engenharias ou em matemática. Por outro lado, os alunos das áreas das humanidades não sabem o que é o ADN.

Tenho professores meus que enchem a boca com a necessidade de termos cultura geral, que ao lidar com as pessoas nós teremos de saber muitas linguagens, muitas formas de estar, muita sensibilidade e muito saber. Mas pensam que alguma dessas coisas é minimamente valorizada no nosso percurso académico? Claro que não!
As cadeiras que temos de economia ou sociologia são opcionais e só têm muita gente porque são francamente fáceis e completamente limitadas aos assuntos da medicina.

Esta ideia da Ingenuidade que nos faz olhar para coisas de forma nova e original é incrível, mas na minha faculdade é designada por um outro "i", de "ignorância".

16.2.05
gosto três
TODO O POEMA

Todo o poema é circunstância de um tempo e de um lugar.
Todo o poema é memória dessa circunstância. Todo o poema
é memória de um tempo e de um lugar. Todo o poema é memória.

jorge reis-sá


(willy ronis. há muito tempo que tinha vontade de pôr esta imagem)

A poesia que não é feita da simples sucessão de palavras melodiosas ou rimadas. Não aquele verso que salta à cabeça, escreve-se de rajada, declama-se em voz entoada. A poesia memória, a poesia de um trabalho longo e paciente na delícia das palavras.
gosto três: como eu gostava de saber essa arte a poesia.

gosto dois
POEMA AO FILHO
A Rafael Passos do Carmo Reis-Sá

Cresceste tanto que deixaste os meus braços para trás.
Dantes, chamavas e eu ia levantar-te do berço, preocupado
com o teu choro. Deixava-a a dormir e dava-me todo a ti.
Tu, nos meus braços, deitado e tão pequeno, abraçavas-te
muito à minha preocupação. Dizias baixinho: vamos ouvir
música, quero dançar contigo até que os demónios da noite
sejam longe. E eu ia. Ia tanto como nunca, eu que nunca
dancei para ninguém. Ligava a música, colocava-a baixinho,
tão baixinho que só nós sentíamos o seu som: A rare
and blistering sun shines down on Grace Cathedral Park,
e dançávamos. Ao som da música eu era o Pai, ao som da
música tu eras o Filho. Dançávamos como dois anjos, sabes?,
mas isso não te digo porque é muito expressivo e fica mal
no Poema. Dançávamos heróis, é mais bonito. Eu era o teu
herói, aquele que te abraçava o corpo pequeno, muito nu e
encostado a mim. Tu eras o meu herói, as mãos jovens ainda
te seguravam com a força toda do mundo. Podem dizer que
dançarias com qualquer um que te levantasse do berço e te
sossegasse o sono. Mas não. Quem diz isso nunca foi teu pai
e nunca te sentiu filho. Nós éramos um só, um lugar comum,
eu sei, mas éramos. Eu apenas contigo nos braços, minha
única roupa, meu único conforto, minha única protecção.
Tu embrulhado em mim pela tua pequena pele, inseguro
e tímido. E a noite, a longuíssima noite, eterna noite que
eu desejava nunca terminada. O céu no seu lugar devido,
a terra no seu lugar devido, e nós, nós os dois no lugar
que devemos para sempre um ao outro: um no outro,
um para o outro como duas peças de um jogo universal.

Agora, filho, agora cresceste e saíste dos meus braços. Terás
um dia alguém que te embale o sono como eu embalei, mas
nunca este amor que nasceu comigo e desabrochou contigo,
nunca este amor eu só eu, teu pai, posso oferecer ao longo da noite.


Bargos, Fevereiro de 2002
jorge reis-sá


(steve mccurry)

Haverá ideia mais incrível do que escrever a um filho que ainda não se tem?
gosto dois: Não empurrar a vida lá para a frente, não sentir que só começará depois... depois de qualquer coisa é que será mesmo bom. Fazer acontecer esse futuro hoje.

gosto um
A DEFINIÇÃO DO AMOR (1)

Dantes escrevia poemas de amor. Para viver com o amor
nos poemas, sempre. Depois disseram-me que já toda a
gente o fez, que nada havia a escrever sobre o amor.
Que o amor já estava em demasiados poemas. Eu aceitei
o conselho e passei a escrever poemas de morte. Escrevi
muitos poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi
que a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo
do amor. E voltei a escrever o que nada mais havia a
dizer. Porque até o poema é sinómimo de amor.

jorge reis-sá


Encontrei jorge reis-sá há uns meses no Por outro lado. Procurei o livro "biologia do homem". Encontrei, comigo veio para casa.
gosto um: Gosto de livros pequenos com folhas texturizadas, aqueles que uma pessoa pega no meio do estudo só para saborear um pouco a beleza.

15.2.05
diálogo telefónico
- Amor, Ontem à noite eu senti que você me estava traindo...
- Ó querida se traí foi só fisicamente...
- Mas é exactamente isso que eu não quero! Seu cafageste, sem vergonha!!!

PEEP PEEP PEEP

ontem foi... dia dos namorados
Ontem foi dia dia dos namorados. À falta de melhor, sigo o conselho de Fernando Alves: um passeio à Gare do Oriente, de Santiago Calatrava.


milagre que fez
Um pormenor nas declarações do cardeal Saraiva Martins, prefeito da Congregação da Causa dos Santos do Vaticano, responsável pelos processos de canonização da Igreja católica, falando do milagre atribuído à defunta irmã Lúcia, de cura de um miúdo diabético:

«Se os médicos concluírem que, à luz da ciência médica actual - "e sublinho actual, porque daqui a 30 ou 40 anos pode já haver explicação", diz o cardeal -, não há justificação para a cura, o caso passa para análise dos teólogos da congregação.»

(António Marujo no "Público"; ler também "Como a vidente construíu o fenómeno de Fátima" e "As perspectivas críticas sobre o fenómeno")

MAMA, OOH, I DON'T WANT TO DIE (...) ANY WAY THE WIND BLOWS...


BOHEMIAN RHAPSODY

Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality
Open your eyes
Look up to the skies and see
I'm just a poor boy, I need no sympathy
Because I'm easy come, easy go
A little high, little low
Anyway the wind blows, doesn't really matter to me, to me

Mama, just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he's dead
Mama, life had just begun
But now I've gone and thrown it all away
Mama, ooo
Didn't mean to make you cry
If I'm not back again this time tomorrow
Carry on, carry on, as if nothing really matters

Too late, my time has come
Sends shivers down my spine
Body's aching all the time
Goodbye everybody - I've got to go
Gotta leave you all behind and face the truth
Mama, ooo - (anyway the wind blows)
I don't want to die
I sometimes wish I'd never been born at all

I see a little silhouetto of a man
Scaramouch, scaramouch will you do the fandango
Thunderbolt and lightning - very very frightening me
Gallileo, Gallileo,
Gallileo, Gallileo,
Gallileo Figaro - magnifico

But I'm just a poor boy and nobody loves me
He's just a poor boy from a poor family
Spare him his life from this monstrosity
Easy come easy go - will you let me go
Bismillah! No - we will not let you go - let him go
Bismillah! We will not let you go - let him go
Bismillah! We will not let you go - let me go
Will not let you go - let me go (never)
Never let you go - let me go
Never let me go - ooo
No, no, no, no, no, no, no -
Oh mama mia, mama mia, mama mia let me go
Beelzebub has a devil put aside for me
for me
for me

So you think you can stone me and spit in my eye
So you think you can love me and leave me to die
Oh baby - can't do this to me baby
Just gotta get out - just gotta get right outta here

Ooh yeah, ooh yeah
Nothing really matters
Anyone can see
Nothing really matters - nothing really matters to me

Anyway the wind blows...


(letra e música de Freddie Mercury)


Imortalidade e este arrepio. Olhos nos olhos da morte.
Força da natureza felina: cantar em fúria contra a Sida, cantar num folgo contra tudo o que nos torna menos vivos.

14.2.05
Aborto
Art. 140º Código Penal (ABORTO)

1. Quem, por qualquer meio e sem consentimento da mulher grávida,
a fizer abortar é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.

2. Quem por qualquer meio e consentimento da mulher grávida,
a fizer abortar é punido com pena de prisão até 3 anos.

3. A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro,
ou que, por acto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena
de prisão até 3 anos.



Eu não consigo gostar da linguagem do direito, mas aconteceu ter de estudar este assunto ontem: estas leis, o Aborto agravado, a interrupção da gravidez não punível.
Frequentemente me chateio com a forma como esta discussão é feita no nosso país. Uns, de um lado, proclamam-se defensores da vida. Os outros, do outro lado, muitas vezes não fazem desta luta as palavras de ordem certas!

NINGUÉM DEFENDE O ABORTO! O que se defende é a DISCRIMINALIZAÇÃO dele!

Como é que se defende que uma mulher que faz um aborto seja condenada à prisão, sem lhe serem dadas antes todas a condições (culturais, sociais, educativas, ...) para que possa ser mãe quando quiser e nas condições que acredita serem necessárias? Como é que num estado de direito se joga na praça pública a dignidade e a intimidade destas mulheres?
Cai-se no cúmulo de alguém que provoca um aborto numa mulher contra a vontade dela (1) seja condenado a menor pena que uma mulher que o faça por vontade própria (2). Continua gente a enriquecer à custa das mulheres grávidas que têm mais posses, e gente a morrer à míngua das condições de higiene e assistência mínimas.
Espero que as mulheres possam começar a ter mais intervenção nesta discussão, assim como o resto da sociedade, é fundamental que se lhes dê VOZ. Ouvimos constantemente os engravatados do parlamento a falar disto ignorando-se os outros homens que são os pais.

11.2.05
Os Cinco



A minha avó, aos 78 anos, descobriu os livros "Os Cinco" e haviam de ver, uma cara enrugada e de cabelos brancos, tão maravilhada como eu, nos meus 8-9 anos, quando num de sábado de impaciência minha, a minha mãe foi procurar à estante o número 1. Li-o naquela tarde. Passei os anos seguintes a ler e reler os livros, sempre poupando os últimos para que o dia de não ter nenhum novo não chegasse. Agora que falo disso, não tenho a certeza de ter lido número 21.

9.2.05
Terra de Campanha
Em tempos de campanha, os meus restantes companheiros me perdoem, mas destaco os textos do Miguel, do Carlos e do Timóteo, na última Terra da Alegria:

do Timóteo, que escreve a terceira parte do seu texto ideológico:
«Como mostra o exemplo dos países nórdicos, é possível ser-se extremamente competitivo com uma pesada carga fiscal. Parece que, por um lado, o efeito socialmente benéfico da solidariedade aumenta a eficácia e o rendimento das pessoas em sociedade e, por outro, a aposta noutras variáveis (educação, formação, capacidade de inovação, etc.) permite ultrapassar completamente a (na maioria das circunstâncias, falsa) oposição "justiça social/crescimento económico".
Mas, repito: mesmo que assim não fosse, a um cristão exige-se que coloque critérios sócio-económicos morais que sejam o prolongamento da sua Fé à frente de uma pretensamente neutra eficácia económica.
»

do CC sobre a moral dos que defendem essa eficácia pretensamente neutra:
«Tentar expurgar os "moralismos" de uma campanha eleitoral — e da política em geral — não é inocente. Corresponde a uma visão da política que se pretende neutra, pragmática e moderna, porque chegou já o fim da História. Mas, sob a capa da eficiência e da moderação, está também presente uma ideologia. E uma moral. Ambas perigosas.»

do Miguel, sobre a homilia do Pároco de São João de Brito:
«O apelo do senhor padre lisboeta é um apelo habitual, quase farisaico — o de quem olha para a maçã e prefere sempre o lado mais lustroso, porque tem medo de trincar a parte mais pisada. Pede-se que não se vote naqueles que atacam a vida. Por uma vez, gostava de ouvir alguém gritar o mesmo — mas contra o ataque à vida que é a pobreza e a miséria. Por uma vez, gostava que a moral sexual ou questões que remetem para a consciência individual e familiar dos cristãos (corrijo: de todos os portugueses), fossem conscientemente debatidas no interior da Igreja, sem a demagogia dos assassinos (por oposição ao absurdo radical da barriga que é minha). Lamento: mas a eutanásia ou o aborto, sendo questões importantes, não o são as mais fundamentais para os portugueses.»

Permito-me só acrescentar (ou destacar) a falta de noção que parece percorrer parte da nossa Igreja de que a moral social é tão ou mais importante que a moral pessoal. Faz-me lembrar aqueles padres que discutiam se deviam ou não permitir a comunhão a pessoas divorciadas. Um amigo meu perguntou se aceitavam dar a comunhão a quem fugia aos impostos. A resposta foi: "em política não nos metemos" — como se o pecado social tivesse um estatuto subalterno do pecado pessoal.

8.2.05
o teu dia de anos
Lembro com doçura a folha que deixaste marcada no teu livro:

"Deixa sem tardar,
ao subires aos céus
à terra o que é da terra.
Em breve te juntarás ao Pai,
E, deus, dançarás em Deus"



teclas de piano para ti

A minha amiga gostava de tocar piano, hoje relembrei isso. Hoje, no teu dia de anos, tocarás certamente.
Em mim a tua música continua.

Bem vindo à Holanda


"Frequentemente sou solicitada a descrever a experiência de dar à luz uma criança com deficiência - uma tentativa de ajudar as pessoas que não têm com quem partilhar essa experiência única, a entendê-la a imaginar como vivenciá-la.

Seria como...
Ter um bebé é como planear uma fabulosa viagem de férias - para a ITÁLIA! Compramos montes de guias e fazemos planos maravilhosos! O Coliseu. O David de Miguel Ângelo. As gôndolas em Veneza. Podemos até aprender algumas frases simples em italiano. É tudo muito excitante.
Após meses de antecipação, finalmente, chega o grande dia! Arrumamos as nossas malas e embarcamos. Algumas horas depois aterramos. O Comissário de bordo chega e diz: Bem-vindo à Holanda.
Holanda!?! Diz você, o que quer dizer com Holanda? Eu escolhi a Itália! Devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida sonhei conhecer a Itália. Mas houve uma mudança de plano de voo. Aterrámos na Holanda e é lá que você deve ficar. A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheia de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente. Logo, você deve sair e comprar novo guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um novo grupo de pessoas que nunca encontrou antes.

É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas, após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar em redor... e começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrants e Van Goghs.
Mas, todas as pessoas que conhecemos, estão a viajar para Itália... e estão sempres a comentar sobre o tempo maravilhoso que passam lá. E durante a sua vida, você dirá: Sim, lá era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu tinha planeado.
E a dor que isso causa, nunca, nunca, nunca se irá embora... porque a perda desse sonho é uma perda significativa.

Porém... se você passar a sua vida toda, remoendo o facto de não ter ido a Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais... sobre a Holanda."

Emily Perl Kmisley

(homepage da Cerebral Palsy Association of Western Austrália Ltd. Adaptado da tradução de Mónica Ávila de Carvalho, Mãe de Manuela em Cambuqeira, Minas Gerais, Brasil)


Dirão vocês que pode ser uma visão delicodoce de educar uma criança deficiente ou pelo menos uma atenuante adornada para educações que são muitas vezes duríssimas para os pais.
Acho que o texto pode ser alargado a outras questões/situações...
Já algumas vezes falei em optimismo aqui, e optimismo é isto: uma forma de ver o mundo. Uma amiga minha e aqui do blog costuma dizer "é preciso estarmos atentos para a alegria"

7.2.05
Hoje há...


... entrevista com Jorge Palma no "Por Outro Lado" da Ana Sousa Dias, na 2: à meia noite e dez minutos!

6.2.05
I know a place where we can carry on...


"Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our minds.
Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them can stop the time.
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look? Ooh!
Some say it's just a part of it:
We've got to fulfil de book.

Won't you help to sing
These songs of freedom? -
'Cause all I ever have:
Redemption songs;
Redemption songs;
Redemption songs."


(excerto da música Redemption Song)

Bob Marley faria hoje 60 anos: música senta no chão pernas cruzadas no estar com os outros, possivelmente na praia. Pelos homens e pela paz.

idades do Mundo
"De Aetatibus Mundi Imagines" é o título de um imperdível conjunto de posts do José. Trata-se de reproduções do livro homónimo de Francisco de Holanda, uma preciosidade da iluminura religiosa. O José encontrou uma edição fac-similada destas imagens das idades do Mundo e tem publicado as ilustrações de cada um dos Sete Dias da Criação. Tinha-nos já dado a conhecer a mui repeitosa dedicatória com que abre esse monumental códice. Agora mostra-nos os seis dias de trabalho de Deus e o merecido descanso ao sétimo: "Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom".


(Francisco d'Ollanda, De Aetatibus Mundi Imagines)

5.2.05
Em quem votarão vocês?


Numa sondagem que vou fazendo entre amigos e conhecidos é incrível a quantidade de gente que não sabe em que votar, e obviamente que não é por excesso de qualidade dos partidos a eleições! Indecisos, normalmente, entre os partidos de esquerda, poucos têm certezas...

A CDU parece ter conseguido ganhar novo entusiasmo com a entrada de Jerónimo de Sousa e seu optimismo. A verdade é que nunca é "preferida" e protagonista entre a comunicação social e funciona sempre como "comentador político" (aliás como os outros 3 partidos mais pequenos) contra PS e BE, ainda mais que contra a direita. Na entrevista de hoje à noite com a Judite de Sousa na RTP Jerónimo de Sousa pareceu-me sem sombra de dúvida um candidato a ter em conta pela sua frontalidade, franqueza e, principalmente, pelo conhecimento de causa do país e das matérias em debate.
O PCP é um partido demasiado pesado e fechado sobre si mesmo, mas com mais cor do que tinha com Carvalhas. Nas autarquias locais não há dúvida que fazem bom trabalho (sublinhe-se a palavra "trabalho"), é importante que tenham força no Parlamento.

O BE é já apontado como possível 3º partido à frente do PP e da CDU, é o partido da moda, a que Jerónimo de Sousa chamou de "mimado" pela comunicação social, e muito aclamado entre os jovens. A campanha que tem feito tem dado menos nas vistas que em eleições anteriores, e os cartazes perderam em criatividade e ideias. Abusam da imagem de Louçã, e de um bloco central com 3/4 pessoas que aparecem em todas (Luís Fazenda, Miguel Portas, Fernando Rosas, Ana Drago e, agora, Daniel Oliveira) e fora de Lisboa e Porto não valerá muito a pena votar neles. Não sei se será um partido plural ou com muitas vozes que nunca chegaram a discussão interna profunda e séria. A oposição que fizeram à direita de Durão, Santana e Portas foi a melhor conseguida das esquerdas. A força entre a classe média e a população urbana cresce e obriga a que tenham cada vez maior exigência, pelo menos assim se espera.

O PS tinha tudo para neste momento ter a maioria absoluta já assegurada após os consecutivos tiros no pé (deles e no nosso) desde Durão a Santana, com maior qualidade na asneira deste último (o que na altura parecia difícil...). Sócrates tem, no entanto, pautado a campanha pelo politicamente correcto e o não levantar ondas. No debate com Santana, Sócrates saiu vencedor, vencedor de um debate sem brilho. Parece não ter nada de novo para trazer ao debate e forma de fazer política; sem promessas e pragmático assim se apresenta. Era caricato perceber que, a certa altura, era Sócrates que era acusado do "pântano guterrista" e da situação do país; após o "lamaçal da direita" nos últimos tempos: estes 4 meses santanete foram possivelmente os ventos e marés mais fortes que tivemos desde que temos democracia em Portugal. Sócrates está assim com o trunfo de Santana estar em ruínas mas não tem tido muito mais que isso. Neste momento, pelo que tem feito, não me parece que esteja em condições de pedir maiorias absolutas.

O PP tem em Paulo Portas o dirigente mais novo mas com mais anos à frente do partido. Quer gostemos, quer não, Paulo Portas é muito inteligente e tem tido muita força nesta campanha, os cartazes do PP são, na minha opinião os melhores conseguidos e a forma como se distanciou do que foi mau na governação, e associou a si a credibilidade e seriedade que o PSD não teve tem sido muito bem conseguida. É preciso cuidado com estes gajos!

A FALTA DE NEGOCIAÇÃO À ESQUERDA começa a ser preocupante, já era altura de haver possibilidade e vontade de se sentarem à mesa. Nesta altura, as estruturas dos dois principais partidos portugueses estão viciadas (no que as juventudes são claros exemplos - como exemplo, os cartazes "péssimos" da JSD), com cada vez menos "auscultar" das populações, sem seriedades e sem candidatos que nos levem a votar por convicção: votamos para “livrar”. É por isso importante que os 3 partidos mais pequenos cresçam e equilibrem a balança (mesmo se o PP me assusta nesse crescimento): a necessidade de negociação das propostas com os partidos mais pequenos para aprovação seria uma mais valia. Uma maioria absoluta do PS seria apostar e dar crédito a quem já foram dadas todas as oportunidades... falhadas.

Por fim, as ofensas de ordem pessoal não tinham sido até aqui arma utilizada em campanhas anteriores, até nisso a política se tem descredibilizado. Já era mau quando usavam a figura do bom pai de família.

EM QUEM VOTARÃO VOCÊS? - Faço esta pequena reflexão com inclinações claras mas com necessidade de opiniões diferentes que me ajudem a votar bem.

Corso Infantil de Carnaval de Carnide
1400 crianças a desfilar por Carnide com o tema do Circo, foi assim:









Associação A Tenda



Uma das propostas da Junta de Freguesia de Carnide, enquanto função do meu estágio, é a de acompanhar uma associação de cariz cultural e educativo recém formada chamada A Tenda. No protocolo que a Junta fez com A Tenda, ficou definido que seria oferecido um Chapiteau: espaço onde a associação possa funcionar seja através de peças de teatro, acções de formação ou projectos em que a Associação se queira empenhar. Espaço sempre disponível para que a Junta de Freguesia e outras Associações com falta de local para trabalharem.
No fim do último mês conseguimos finalmente pôr de pé esse espaço mágico... Na 4ª feira tivemos a sua primeira enchente: o Corso Infantil de Carnaval de Carnide. Para provar que os sonhos se realizam.

3.2.05
fúrias e valores
Na Terra da Alegria de ontem encontram gente a propôr hipóteses sobre os valores na sociedade contemporânea, a barafustar com a política&futebol, a propôr que se leia o Evangelho a rir, a discutir os nossos tiques platónicos, a falar da dificuldade do amor. Gente dos nossos dias. As suas alegrias e tristezas, as suas fúrias e valores.

máscaras africanas

(Jean Paul Gaultier, Printemps-Été 2005, Baoulé, Kambèze, Fétiche)

2.2.05
o medo do futuro
«Jean Paul Gaultier, que um dia se definiu como o mago das misturas, quando interrogado sobre os lugares e os temas em que se inspira para os trabalhos de alta costura, costuma responder que nada é tão estimulante como a porta do metro. (...)
Gaultier acaba de dar ao magazine dominical do jornal "La Vanguardia" uma entrevista curta na qual coloca problemas muito sérios a um conjunto de catálogos da sobrevida muito em moda. A moda (...) cobre mais do que a pele, cola-se às múltiplas marcas evolutivas da sociedade e ele sabe-o — nomeou-o. Trabalha como um investigador que se diverte não perdendo nunca de vista se não já sempre uma ideia de roupa que possa ser usada na rua, um vinco estreito ao tempo que vivemos; ao menos, uma ideia de roupa que cada qual deseje levar pela rua. Ou seja, em vez do espanto diante da extravagância que ninguém ousaria usar, ele prefere escolher um caminho em que, no limite da estranheza amável, esteja uma exclamação do tipo: "eu nunca vestiria isto, mas fica tão bem a quem o exibe na passarela!".
Mas Gaultier, o mediático, o aclamado, o reconhecido, (...) pede que nos detenhamos diante da crise — esta crise mundial que enfrenta a economia e tudo em volta —, e no modo como ela conduz os criadores da moda, também os criadores da moda, a insistentes mergulhos no passado. "Tal é — diz Gaultier — o medo do futuro". E raspando um pouco mais o osso, o homem que conhece o brilho dos flashes (...) fala daquilo que mudou desde que começou a admirar os nomes maiores, os que chegavam ao grande público pelo explendor do seu trabalho. "Agora — diz Gaultier — as ideias já não são necessárias para se ser reconhecido; agora o êxito é conquistado na tele-realidade". É um novo fenómeno que o faz pensar, a ele que diz — assim — "que as pessoas já não acreditam em nada". Enfim, apetece aplicar na dobra de uma roupinha Gaultier um autocolante que diga, por exemplo: "Despe-te do pensamento pronto a vestir e vai inspirar-te. Vai encher os olhos e o peito, mais do que do ar do tempo, à porta do metro."
»

(podem ouvir os Sinais, certeiramente lidos pelo Fernando Alves)

«Gosto daqueles manequins sem rosto, radicalmente manequins, estatuetas vivas, centrando o foco de luz nos tecidos sobre os quais Gaultier vai esculpindo máscaras africanas.»

1.2.05
a campanha e os seus defuntos
Estava para fazer uns recortes sobre a campanha para as legislativas e as cenas tristes que ela nos tem trazido. Como descobri quem já o tivesse feito, deixo só o link para um texto do Abnóxio, onde se juntam os comentários de Vital Moreira, Ana Sá Lopes, Pacheco Pereira e Luís Osório. Destaco o texto de Ana Sá Lopes, com um cruel mas verdadeiro epitáfio do cada vez mais ex-Primeiro Ministro.

Revolução Personalista II
Ontem, continuei a escrita sobre o Personalismo na Terra da Alegria. Lá escrevem também o Afonso ("A Unidade do desejo") e o Marco ("Uma nova era se inicia"). E para abrir o apetite, dou a palavra a Emmanuel Mounier:

«Quase se poderia dizer que só existo na medida em que existo para os outros, ou numa frase-limite: ser é amar. Estas verdades são o próprio personalismo, a ponto de podermos dizer que há pleonasmo quando se designa a civilização que ele visa por personalista e comunitária. Exprimem, frente a persistentes idealismos e individualismos, a ideia de que o sujeito não se nutre autonomamente, que só possuímos aquilo a que damos ou aquilo a que nos damos, que não nos salvamos sozinhos, nem social, nem espiritualmente.»



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