29.4.05
Mais um dia...
Mais um dia, mais uma notícia de mortos e feridos no Iraque.
Mais um dia, mais umas buzinaledas no trânsito.
Mais um dia, mais um olhar desviado aos sem abrigos pelas ruas.
Mais um dia, mais um sonho arrojado que ficou adiado.

Que futuros? Quando é que o mundo vai mudar? Até quando vamos viver nesta ilusão (não iludida) da democracia?
Não sabemos. É essa a força desta vida, de "fazermos novos todos os dias", de nuns estarmos tristes e nos outros darmos pulos de alegria.
Para mim, basta uns blogs bonitos, projectos em que fazemos a vida dos que gostamos mais bonita, um abraço de amizade, viajar pelo mundo e perceber que tanta coisa que temos em comum apesar das diferenças, para no meio da desorientação ganhar um folêgo novo para encher tudo de futuros!

Parabéns ao enchamostudodefuturos e a um amigo querido que faz anos hoje!

O estágio continua...
Este post utiliza abusivamente e de forma rude o Enchamos Tudo de Futuros e toda a sua trupe para efeitos publicitários de carácter estudantil e regozijo pessoal. Qualquer pessoa mais sensível a estas questões queira por favor chegar toda a sua indignação, com palavreado grotesco e na máxima expoência do calão, para o e-mail do futuros.

Exmos. senhores, amigos, artistas, idealistas, criativos, apaixonados e afins,

Estou responsável por coordenar a VII Feira de Expressões Artísticas de Carnide. A Feira vai realizar-se de 1 a 4 de Junho no Jardim da Luz e terá cerca de 1000 crianças e jovens a visitá-la todos os dias. Ando à procura de formadores e/ou associações que tenham disponíveis ou queiram preparar todo o tipo de ateliers de expressões artísticas: desde capoeira, graffiti, música, teatro, origamis, culinária, expressão plástica, educação pelo jogo, escrita criativa, arte de contar contos, criatividade, etc, etc, etc, tudo o que possam imaginar!

Os ateliers devem durar entre 30 a 45 minutos, e funcionarão cinco por dia (2 de manhã e 3 à tarde). Quem estiver interessado ou conheça pessoas interessantes peço o favor de me enviar um mail (josembelo@sapo.pt) com os contactos respectivos (telefone e e-mail). Neste momento, começamos a ter alguma urgência!

Muito Obrigado!

Observar o céu



Foi mais ou menos assim que vi hoje Saturno. Muito escuro, frio, um grupo de pessoas, um telescópio e vontade de ver além da luz das estrelas. Planetas, constelações, galáxias. Lembrávamo-nos a todo o instante que não estávamos a ver fotografias e sim a olhar para o que existe.
Será, possivelmente, uma noite que não vou esquecer.

28.4.05
um ano de Terra da Alegria
Let´s start a catholic blog!
Cleared of beatific literature!
We want something red blooded,
loud and pure,
reeking with stark
and fearlessly obstinate
but really clean.
Get what we mean?
And let´s not spoil it.
Let´s make it serious,
something authentic but delirious.
You know, something genuine,
like tears in a shrine.
Graced with guts
and gutted with Grace!
Squeeze your thoughts
and open your faith!


Há um ano começava assim a Terra da Alegria, tendo como mote este poema adaptado de e.e. cummings pelo José. Como diz o próprio na edição de hoje, não fazemos ideia do impacto que tem, nem nos queremos levar demasiado a sério. E agora sem mais falsas modéstias, o Afonso é que acertou: "É o blog que Jesus Cristo gostaria de ter escrito. Ou mesmo Moisés, se não tivesse já escrito o pentateuco."

27.4.05
Visiones para Madrid
Madrid, Espanha (1992)

"Visiones não é propriamente um museu, é um espaço. O projecto foi feito no contexto de Madrid Capital da Cultura 1992, quando se pediu a alguns arquitectos que fizessem um trabalho sem programa para um local que escolhessem em Madrid. Escolhi um local que conhecia bem, porque tinha feito o concurso para o Centro Cultural de La Defensa, que não viria a ser construído. O projecto foi feito em total liberdade e em total gozo. O que fiz foi pegar em duas obras de Picasso, a Guernica e a Mulher Grávida, e criar duas galerias independentes para as expor. A certo ponto as galerias podem comunicar, encontrando-se num extremo a Guernica e no outro a escultura, como um contraste entre a vida e a morte."

Álvaro Siza



Aquele edifício (Serralves) é de facto magnífico. A luz. Principalmente a luz. As janelas enormes para um jardim verde e irresistível. O chão de madeira, os tectos muito altos contrastando com outros espaços de maior aconchego.

Visiones para Madrid:

Primeiro era a voz calma daquele meu amigo, já nos tínhamos juntado a ele por isso mesmo. Ele explicou aquela ideia de Siza, duas obras de Picasso: Guernica e a Mulher Grávida, um novo espaço para elas. Total liberdade, total gozo. Ele criou aquelas duas galerias quase suspensas na encosta. Uma recta ia dar à Guernica, começamos a adivinhá-la cá bem atrás, entre os postes que nos dão a ideia de que a altura vai aumentando. (e como é comovente este encontro com o quadro verdadeiro!) Outra curva aproxima-nos da Mulher Grávida mas só a encontramos no fim.
Depois veio a voz da guia, que não era nossa mas que ali encontrámos. Repetiu tudo aquilo e mesmo assim fiquei a ouvir. Liguei-me à obra. Mais ainda quando ela interpretou que sendo o quadro a morte e a escultura a vida, que a morte é certa e dela não podemos escapar. A linha recta. A vida, no entanto, não sabemos nunca o que nos reserva, o que virá. Daí aquela suave linha curva e no fim aquela barriga de futuro.

26.4.05
Parabéns a você - TRÊS
Amigos,

Gostei do "enchamos tudo de futuros" só pelo título, desde logo.
Depois comecei a gostar de vocês, sem vos conhecer como deve ser. Gosto de todos, sem excepção.
Viajo pelo vosso BLOG sem outras pretensões senão aprender. Vocês têm conseguido ensinar-me.

A Inês, por exemplo. Ela paira no Blog com muita suavidade. Escreve pouco. Partilha o que lê, os filmes que a marcaram, as fotos de que gosta. Pouco se desvenda mas nota-se que tem outras riquezas por revelar.
O Pedro Novo é dos meus. Combativo, polémico mas não demolidor. Diverge mas aceita outras opiniões. É frontal e corajoso. O Blog cresceu com a entrada dele no terreiro.
O Zé Maria é complementar da Inês. Revela-se todo no que partilha. Parece ser uma pessoa bem alegre, optimista, clara e luminosa. Muita da variedade do Blog é carregada sobre os seus ombros.
A Leonor que é feito dela que tão raro aparece? Aliás, o Blog precisava enriquecer-se com o "outro lado", o lado feminino da vida. A sensibilidade das mulheres precisa de estar mais presente e, apenas a Leonor e a Inês não são suficientes.
O Zé Filipe é peixe de águas profundas. Faz muito pela seriedade do Blog mas é tão belo um peixe de águas profundas como um peixe de superfície. Neste AQUÁRIO-BLOG todos vocês são iguais, porque todos diferentes.

Se alguma sugestão eu me atrevo a fazer será: diversifiquem-se, abram mais o Blog a outros com participação fixa.
E não percam a frescura que emana da verdade. Quem, como eu, vos lê o que mais aprecia é a sensação de verdade que transparece. Ali nada soa a mentira. As certezas não são impositivas, as dúvidas são compartilhadas, a vida parece merecer ser vivida.
E porque não um poço mais de humor?

Parabéns

Mário Moreno

25.4.05
A Frase
"A circunstância de haver uma generosa maioria de portugueses para quem o 25 de Abril já não é mais do que um dia em que não se trabalha significa que o regime chegou à maturidade."
Pedro Duarte no DN

Festa da Música
"(...) Eu queria conservar a essência da música clássica, que afinal, se baseia na intimidade e no silêncio. Quando se ouve um pianista numa sala é como se se estivesse numa igreja a rezar. A oração é individual.
Quando se ouve um pianista é como se ele tocasse para nós. Mas é importante estar com os outros, estar em comunhão com os outros.
E era isso que eu queria conservar. Não queria fazer batota com a forma do concerto.
Mas era difícil porque queria milhares de pessoas, recriação desse ambiente de festa dos concertos de rock, mas ao mesmo tempo, conservar a exigência da música clássica, que é onde reside a sua riqueza.

A ideia veio-me quando estava num grande museu em Nantes, estava nesse museu há já quatro / cinco horas e via todas as salas e tive uma ideia: tenho de criar uma casa da música, um local que eu pudesse ocupar de manhã à noite, mas em vez de quadros houvesse salas com concertos em permanência. Vários ao mesmo tempo.
Mas há uma coisa que eu queria evitar e que se pode fazer num museu. Quando entro numa sala de pintura contemporânea e se não gosto, posso sair imediatamente.
Eu não queria que as pessoas saíssem logo, queria que se sentassem e ouvissem como um concerto normal.

Eu começava a ter essa ideia de conjunto: um local especial, onde houvesse música de manhã à noite, e, ao mesmo tempo, se eu queria ter um grande número de gente, os concertos tinham forçosamente de ser curtos. (...) Por isso eu queria concertos curtos, espírito de festa o mesmo de um concerto de rock ou de outras manifestações populares. Onde se possa falar de emoção, que seja acessível. Onde os artistas também possam ser acessíveis (...)"

"(...) Acho que na festa da música, o milagre que se produz é que todos têm papel a desempenhar. O público desempenha um verdadeiro papel assim como o artista e os técnicos. Toda essa gente confraterniza e todos estão ao serviço da música (...)"

excertos da entrevista de René Martin por Ana Sousa Dias in Por Outro Lado sobre o Projecto "Festa da Música"

25 de Abril SEMPRE!


"O 25 de Abril é um dia e são dias, meses, anos. É daquelas datas que se constelam, que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje como a memória de uma outra possibilidade no conflito dos possíveis reais. Porque foi um processo de irrupção de imensas vozes e corpos no teatro da história tal como a fazemos. Porque foi um processo de transformação do nosso espaço-tempo e das nossas formas de habitar. Porque foi a liberdade e a democracia como emancipação. Porque foi a política como poiesis. E por aí, através do som e da fúria da vida histórica, passa um sentido que julgamos vislumbrar, um sentido possível para a frase «rico em méritos, é contudo poeticamente que o homem habita sobre esta terra», que vem em Holderin."

Manuel Gusmão in Os Dias Levantados

31 anos depois...


Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.


Letra e música: Zeca Afonso

24.4.05
Gargalhadas na bola...
Fui ao circo e foi só rir...
Às câmaras da TVI , o director da SAD do Estoril quase comemorou o 1º golo do Benfica! Um dos comentadores da TVI chegou mesmo a dizer:
"Atrevo-me a dizer que Hélio Santos (o arbitro da partida) realizou uma excelente exibição"

E a titulo de curiosidade o arbitro desta partida ainda só tinha apitado um jogo do Benfica, e nesse mesmo jogo a equipa adversária ficou reduzida a nove unidades.
Mas isto meus caros são só e apenas coincidências!

Eu, beata devota me confesso!


A festa da música acaba hoje em Lisboa, no CCB, após três dias de homenagem a Beethoven e à (sua?) música clássica. O espírito é abrir as portas a quem não vai normalmente ouvir música clássica, preços baixos (Ana Sousa Dias entrevistou, no Por Outro Lado, René Martin, o mentor do projecto, numa entrevista que dizem ter sido muito interessante). Eu fui apanhado. Poucas vezes tinha ido a concertos de música clássica, dois ou três até ontem. E foi "casualmente" que ontem fomos aqui de casa parar ao CCB. Um free pass maravilhoso foi-me cedido ilegalmente e deixou-me deambular consoante os conselhos dos mais conhecedores da obra de Ludwig Van Beethoven por entre intérpretes compenetrados em fazer jus a tamanha obra. Entrava, espreitava, olhava muito atento para tudo, para o público, para o palco, fechava os olhos a ouvir, tentava fazer parte da festa. Pouco conhecedor da obra de Beethoven (vastíssima!!!), lembro-me só de em pequeno adorar ouvir a sinfonia nº3. É com ela a tocar que escrevo agora, crio o ambiente.

Missa Solene em Ré maior, Opus 123 (Opus = obra; plural de Opus = Opera) de Beethoven, às 22h30 na Sala Waldstein.

Foi o último concerto a que assisti, dizia-se "esse não podes perder!". Era o grande concerto do dia. Eu que sou tão relutante no que toca a mencionar deus, digo: divinal! 14 violinos, 5 violas, 4 violoncelos, 3 contrabaixos, 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones e um tímbalo e um maestro. Dois coros gigantescos: Rias-Kammerchor e Capella Amsterdam. E 4 cantores solo: soprano, mezzo soprano, tenor e baixo. Qualquer coisa de sobrehumano, que ultrapassa os músicos, os instrumentos, todos os que somos e fomos humanidade!

A força das vozes deixa-nos arrepiados: desde avassaladora e imponente até a ternurenta e suave, a conjungação de todos aqueles instrumentos tão perfeita, fundida, tão bem encaixada pedaço a pedaço. Apetece agitar os braços, voar. Beethoven foi profeta na música dele está deus, está um testemunho que comove.

23.4.05
Radiofonia pela manhã


Acordei de manhã ao som da radio... a música que passava era uma dos xutos, pensei em mudar mas a musica fez-me lembrar um par de amigos!
Esta é dedicada a dois grandes amigos...


O Mundo ao Contrário

Onde vais?
perguntas tu
ainda meio a dormir
não sei bem
respondo eu
sem saber o que vestir
Porque sais?
ainda é cedo
e tu não sabes mentir
nem eu sei
só sei que fica tarde
e eu tenho de ir

bem, depois
de estar na rua
instalou-se uma dor
por nós dois
talvez sair
tivesse sido o melhor ...
se assim foi
porque me sinto eu
a morrer de amor?

tenho a noite a atravessar
doi-me não ir
mas não me deixas voltar

se gosto de ti se gostas de mim
se isto não chega
tens o mundo ao contrário


letra: Tim
música: Xutos & Pontapés

22.4.05
no rádio e à janela
Foi outra vez graças aos Sinais de Fernando Alves, ouvidos com uns dias de atraso, que pude descobrir a reacção de Arnaldo Jabor àquelas imagens tão marcantes de há uns dias, de João Paulo II à janela, tentando articular uma palavra à frente da multidão. Diz-nos Jabor num texto chamado "Eu não gostava de João Paulo II":

«Depois, o papa ficou doente, há dez anos. E eu olhava cruelmente seus tremores, sua corcova crescente e, sem compaixão nenhuma, pensava que o pontífice não queria "largar o osso" e ria, como um anti-Cristo.
Até que, nos últimos dias, João Paulo II chegou à janela do Vaticano, tentou falar... e num esgar dolorido, trágico, foi fotografado em close, com a boca aberta, desesperado. Essa foto é um marco, um símbolo forte, quase como as torres caindo em Nova Iorque. Parece um prenúncio do Juízo Final, um rosto do Apocalipse, a cara de nossa época. É aterrorizante ver o desespero do homem de Deus, do Infalível, do embaixador de Cristo. Naquele momento, Deus virou homem. E, subitamente, entendi alguma coisa maior que sempre me escapara: aquele rosto retorcido era o choro de uma criança, um rosto infantil em prantos! (...)
Sou ateu, sozinho, condenado a não ter fé, mas vi que se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida.
»

Fernando Alves prossegue com outra opinião não-crente sobre o Papa anterior. Régis Debray, republicano de esquerda e estudioso das religiões e da mediologia, que lembra a célebre frase de Alfred Loisy: "os cristãos esperavam o Reino de Deus e foi a Igreja que veio" e a aplica a outras circunstâncias menos sagradas...

O que dirão ambos do novo Papa daqui a uns anos? Como ficará conhecido aquele que entrou no vaticano com o epiteto de "Papa Panzer"? Ouçam lá os sinais e daqui a uns anos voltamos à conversa.

Absolvido!



Redenção do homem que foi porta-voz interessado de todos quantos nele depositaram a sua confiança e economias. Caído em desgraça, carregado de dívidas, acusado de fraudes diversas e outros tantos abusos de confiança.Depois em fuga à justiça é caçado. Agora para espanto dos menos crédulos, é Absolvido!

Todo o Portugal espera carne e sangue na praça pública, mas a justiça portuguesa não lhes faz caso. Na Casa Pia ainda só vemos fumo, o Apito Dourado ainda vai demorar umas semanas, a Fatinha Felgueiras não quer voltar das férias em terras de Vera Cruz, nem o Pedro Caldeira foi deixado no Caldeirão para todos nós podermos cozinhar…

Moby Dick, o conforto e o lugar da amizade

“Estávamos mesmo tão acordados que a posição deitada se tornou fatigante e acabámos por nos sentarmos, bem protegidos pelos cobertores, com os queixos enterrados entre os joelhos erguidos, como se as nossas coxas fossem botijas de calor. Sentíamo-nos perfeitamente bem ali no quente, tanto mais que lá fora, e no próprio quarto, sem aquecimento, reinava um frio cortante. A este respeito acrescento que para se gozar plenamente o calor é indispensável ter uma parte do nosso corpo exposta ao frio; porque neste mundo a única medida de valores é a que resulta do contraste. (…) Se uma pessoa se vangloria de um conforto pleno e perene, isso é o mesmo que afirmar que não se encontra mais em condições de avaliar o que é o desconforto. Mas se, à semelhança de Queequeg e de mim próprio, uma pessoa se encontra na cama com a ponta do nariz e o alto da cabeça ligeiramente friorentos, então, na verdade, essa pessoa pode afirmar com toda a consciência que sente o mais delicioso e inequívoco calor.”

Peço desculpa por mais um moby dick. A verdade é que o tenho lido devagar, muito devagar. Antes de dormir, antes de apanhar o autocarro, antes de uma aula. A verdade é também que neste livro tudo parece passar-se devagar. Correram muitas páginas e apenas um dia. Queequeg e Ismael voltaram à mesma cama, mas agora estão casados, o que na língua de Queequeg (o assustador canibal da primeira noite) quer dizer “amigos íntimos”. Não sabem porquê mas acreditam que a “cama é o lugar mais propício para os amigos trocarem confidências. Diz-se que os casais põem no leito a alma a nu, e que os mais velhos ficam até de madrugada a conversar dos tempos passados. E assim, na lua-de-mel da nossa amizade, eu e Queequeg formávamos, ali deitados, um casal feliz e enternecido.”
É incrível que este romance tenha data de publicação de 1851 (foi o que consegui descobrir) e que descreva assim a amizade entre dois homens, dois marinheiros.

21.4.05
Confirma-se !!


"O líder do PSD, Luís Marques Mendes, admitiu ontem à noite que não aprova uma eventual recandidatura de Pedro Santana Lopes à Câmara de Lisboa, mas escusou-se a revelar se vai convidar Carmona Rodrigues para se candidatar à maior autarquia do país."
Público

Como já tinha previsto no post funerais acabámos de ter o enterro político de Santana Lopes!

"Relativismos"
Zé Maria Brito, no seu recém criado Haja o que Houver:

«Julgo que o pior dos relativismos é absolutizar o que é relativo...
Ao fazê-lo estaremos a relativizar o é verdadeiramente Absoluto.
»

É o que me chateia nalguns que se dizem (ou são chamados) de "conservadores". Conservadores são todos os católicos. Há é quem queira meter a Igreja em latas de conserva... E aí prefiro chamá-los "conservistas". Conservador é quem sabe qual é o núcleo essencial da mensagem de Jesus Cristo (que é bastante simples) e consegue formulá-lo e viver de acordo com ele na linguagem e costumes do mundo de hoje.

20.4.05
Espalhem a Notícia
Achei apropriado para o momento que atravessamos...

Espalhem a notícia
do mistério da de lícia
desse ventre
espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu a fago
que eu bebia de um só trago
se pudesse

Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado

A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
o ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

Falei-vos desse ventre


Poema de Sergio Godinho 1981

terra da alegria
Sobre o Papão escreve o CC na Terra da Alegria de hoje.

Ratzinger Fan Club


Já compraram ?!

Que Futuro?
Ratzinger é um Papa contra a Teologia da Libertação e o envolvimento na Igreja na luta política contra pobreza. É contra a integração na União Europeia de um país muçulmano como a Turquia. É contra a homossexualidade. Contra o preservativo e os anticoncepcionais em geral. É muito contra a possibilidade de divórcio e absolutamente contra o aborto, a que chama "cultura da morte. É contra a adopção por homossexuais. No que à Igreja diz respeito, é contra o casamento dos sacerdotes. E contra a ordenação das mulheres.
in Diário de Notícias

E Ratzinger diz mesmo:
"A homossexualidade é uma depravação e uma ameaça à família e à estabilidade da sociedade" e "O matrimónio é santo, enquanto que as relações homossexuais contrastam com a lei moral natural."
É dificil acreditar no futuro!

“Há coisas que não lembram nem ao Diabo” *
Mal soube da noticia dei uma volta pela net e blogolândia para me inteirar das sensibilidades do povão. O delírio é total, deveras esperado, contudo por razões que eu já supunha adivinhar mas não contei a ninguém. Ou melhor, levantei o véu num dos meus comentários no post Funerais. Mas nunca pensei que a euforia fosse geral, que a incredulidade, o espanto e a incerteza fosse desta dimensão. Não há esperança, ninguém acredita... Eu digo: Acredito! Desde a reeleição do George W. Bush que acredito em tudo.
A igreja está em crise? E agora?
Uns entendem que uma definição e clarificação ideológico-doutrinária é a solução para tempos de crise. Já outros entendem que o novo Papa deverá ser evolucionista na continuidade. Pois eu acho, na pior das previsões, que este será radical na continuidade do pontificado de João Paulo II.
Espero que o tempo não me dê razão...

* expressão comum da minha Avó Carmo

19.4.05
Habemus Papam...
Bento XVI. Esperemos, contra todas as evidências, que seja diferente de Joseph Ratzinger. "Pode ser uma surpresa muito grande para todos", diz Tolentino Mendonça. É disso que precisamos -- uma grande surpresa. Ou nas palavras de D. Manuel Martins à TSF: "O cardeal Ratzinger foi uma grande figura a muitos níveis, mas agora que foi eleito Papa, tenho esperança que morra o cardeal para aparecer em pleno o Bento XVI, já que Bento XV foi um Papa extraordinário".
[corrigido]

Vamos ao teatro?
Há cinco anos atrás, foi criado um grupo de teatro designado X-Acto e que pertence à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. A ideia de base deste grupo era de romper com uma tendência quase coerciva de dependermos do que os outros já disseram. Era este universo de citações que nos acompanha em vários domínios que se pretendia contrariar.
Este ano, apresentamos "Um quarto de vida".



Tudo se passa em palco. Um conjunto de pessoas encontra-se dentro de 5 metros quadrados (o palco) e pensa que a vida é só aquilo. Nesta passagem tudo acontece a olho nu, sendo retratadas várias posturas em relação a esta condição. A dimensão daquele compartimento tinge a dimensão do espaço interior das personagens. Tudo aparece pequeno. No entanto, um dos "hóspedes", sem saber porquê, reconsidera esta condição e aquele sítio começa a parecer-lhe pequeno e, no meio desta (com)pressão, tenta descobrir o que está para além daquelas paredes. O seu percurso começa a incomodar as outras personagens que, no meio da sua lógica confortável, são confrontadas com o barulho de ser.


Texto e encenação Lara Morgado
Elenco Ana Isabel Moreno, Clara Preto, Francisca Pimentel, Francisco Martins, Gisela Borges, Leonor Pereira da Costa, Nelson Capela, Raquel Marques, Raquel Teixeira, Sara Silva, Sérgio Rocha, Pedro Cruz.
Luz Francisco Teles.
Som Sérgio Silva.
Design Pedro Novo

Oklahoma 9:03


"Pouco passava das nove da manhã no dia 19 de Abril de 1995, quando uma bomba explodiu no interior do edifício Alfred P. Murrah de Oklahoma, nos EUA. A explosão matou 168 pessoas, entre elas 19 crianças que estavam na creche do prédio. Seis anos depois, Timothy McVeigh era executado pela autoria do atentado." Público

Ainda existe a pena de morte?!

18.4.05
Eu fui ao fim do mundo
O que mais deixei para trás, em cada viagem que fiz, foram os amigos que não voltei a ver. Amigos verdadeiros, instantâneos, instintivos, amigos do peito, para toda a vida. Cá dentro, sou um português macambúzio, fechado sobre si mesmo, frequentemente de mal com Portugal e com os portugueses. Lá fora, sobretudo quando viajo sozinho, sou um homem novo, sem país, sem destino, sem passado nem futuro: apenas o tempo que passo. E assim, porque sou verdadeiramente livre e desconhecido, acontece-me frequentemente tornar-me íntimo de pessoas que acabei de conhecer há meia dúzia de horas. Tudo é genuíno e generoso nesses encontros e, quanto maiores são as diferenças, mais evidente se torna o que é essencial nas relações entre as pessoas. Não esperamos nada dos outros, apenas o privilégio de viajar juntos, beber uma cerveja juntos, ficar à conversa por uma noite adiante.

Miguel Sousa Tavares, Sul


Muitas vezes tenho pensado no que é viajar. Oiço relatos, oiço as pessoas falarem de locais que não conheço, encontro livros que falam de aventuras extraordinárias. Sou um bocado teimosa, é um defeito, e penso muitas vezes que preciso mais de aprender a viajar em mim, aprender a viajar nos outros, saber reviver a minha cidade, saber reconhecer sinais de esperança e de desventura em mim mesma e em quem passa por mim, principalmente em quem fica. Uma conversa com alguém pode ser uma viagem sem destino, sempre novidade. Um passeio por um local que conheço e que assim me acompanha no pensar em quem sou, nas coisas que me fazem ser gente e em que formas fazer com que outros sejam pessoas e se sintam, quem sabe, mais aconchegados comigo.


David Plowden

A viagem com uma mochila pequena, uma muda de roupa, um caderno, uma máquina fotográfica manual, um livro, um canivete também me encanta. Nenhuma ideia de viagem, para mim, pode prescindir de praças, terraços, varandas, esplanadas, nem que seja um simples monte de areia. (Também diz o Miguel). E eu posso acrescentar Pessoas. Sim, a fuga dos hotéis, a fuga da facilidade dos locais a que toda a gente vai, a fuga dos roteiros organizados por empresas que não deixam as pessoas OLHAR para o que visitam.

Por enquanto viajar ainda é uma dificuldade porque não tenho o meu dinheiro e assim vou viajando nesta descoberta infinita que são as pessoas. Tenho descoberto quantas ideias erradas se pode ter. Principalmente aquelas "muito certas e absolutas". Às vezes encontramos grandes teorias para as explicar e falta-nos OLHAR para elas. Únicas. Lá está a viagem outra vez.

Nota: o título é da música: Espalhem a notícia, Sérgio Godinho, que continua depois muito bonita.

O futuro da Igreja
Na Terra da Alegria escrevo sobre "O futuro da Igreja". Também hoje saiu no "Público" um texto de Teresa Martinho Toldy, teóloga e professora na Universidade Fernando Pessoa que resume bem o que aí digo. Chama-se "Uma Igreja para os nossos filhos" e reza assim:

«Mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?»

Depois coloca duas questões principais sobre o que devia ser a Igreja do futuro: "uma Igreja mais humana" e "a Igreja das discípulas e dos discípulos de Jesus". Podia resumir-se usando o nome da encíclica "Mater et Magistra", dizendo que nos dias de hoje a Igreja devia procurar ser mais Mãe do que Mestra:

«Não ficaria mal à Igreja não se colocar tanto na posição de mestra, como na atitude de companheira de caminho de um mundo cuja história continua em aberto. (...) [Isso] implicaria então da parte da sua hierarquia e do Papa, a perda do medo de enfrentar e de fazer a experiência da existência quotidiana de todos os homens e mulheres deste mundo: o amor, a sexualidade, a paternidade e a maternidade, o trabalho, a intervenção sócio-política mas também as perplexidades, as angústias, as incertezas, que fazem do ser humano aquilo que o define como simultaneamente próximo de Deus e frágil como o barro.»

17.4.05
O destino e o sapo


Goleiro não é uma posição, é uma danação. As pessoas estão fadadas a jogar no gol no sentido trágico, português, de «fado». Mas não é verdade que ninguém escolhe ser goleiro. O futebol, como a literatura, está cheio de exemplos de pessoas que optam por um destino trágico.

Algumas desde criança. Foi o caso de Osmar, que desde pequeno pedia para ficar no gol. O comum, nas peladas, era o ruim ir para o gol. Mas nunca se soube se Osmar era bom ou ruim jogando na «linha», como se dizia. Ele sempre preferiu o gol. Masmo depois da primeira bolada na cara, continuou no gol. Mesmo depois do primeiro frango humilhante, continuou no gol. O Osmar não queria apenas ser goleiro. Queria todos os riscos, todas as consequências, todo o drama de ser goleiro. Queria o gol e o seu universo único. Inclusive o ridículo e os dedos quebrados.

E tornou-se goleiro profissional. Dos bons. Tinha altura, tinha agilidade, tinha coragem e tinha, acima de tudo, uma índole filosófica. Pois de nada serve a um goleiro uma defesa extraordinária ou um vexame espectacular se ele não os encarar com uma lição - não a um goleiro, mas à Humanidade. Osmar odiava quando chamavam uma das suas defesas de «milagrosa» ou uma das suas falhas de «azar». Não havia milagres, não havia azar, não havia intervenção de teceiros. Era sempre o Homem só contra o seu destino.

Um dia, numa conversa com Loló, o Osmar comentou:
- O Camus era goleiro.
- Quem?
- Albert Camus.

Loló era o massagista do time, assistente de treinador e confidente dos jogadores. Nunca tinha ouvido falar naquele goleiro, e olha que conhecia todos. Em que time ele jogara? Mas Osmar era assim. Lia muito, e dizia coisas que Loló não entendia.
- Camus dizia que a única questão filosófica era o suicídio - continuou Osmar - mas eu acho que ele se enganou.
- Ah, é?
- A única questão filosófica é o penálti.
Para Osmar, no penálti, o goleiro, logo a Humanidade, de defrontava com o seu destino. Cara a cara. Mas nada estava escrito. Nada estava preordenado. A Humanidade decidia para que lado ia cair. Na condição humana reduzida a três elementos - o batedor de pénalti, o goleiro e a bola - o que ia acontecer não estava desenhado no chão desde sempre. Como na situação extrema de Camus, o Homem tinha o domínia da dua vida. Podia puxar o gatilho ou não. Podia escolher o lado.

Foi por isso que deu a briga entre o Osmar e o Loló dpois do jogo em que o Osmar levou três frangos terríveis no segundo tempo e o time perdeu de três. Frangos antológicos, arrsadores. O Loló chegou com a notícia de que tinha descoberto a causa da derrota. Tinha investigado e cavado e era com ele pensava: sapo enterrado atrás do gol do Osmar no segundo tempo. Enrolados em fita vermelha com três alfinetes espetados na cabeça, um para cada gol. Feitiço, macumba, trabalho, tudo explicado.

Osmar reagiu com violência. Mandou o Loló jogar o sapo fora e não contar para ninguém que o tinha encontrado.
- Mas Osmar, o sapo vaio salvar a sua carreira!
Os três gols tinham sido mesmo de acabar com a carreira de qualquer goleiro. Num, o Osmar largara a bola dentro do gol na hora de arremessá-la para a frente. No outro chutara na nuca do seu próprio zagueiro e ela entrara no gol por entre as suas pernas. No terceiro, escorregara e caíra sentado enquanto a bola passava por sobre a sua cabeça. Mas o Osmar não quis saber de culpar o sapo. O sapo simbolizava a intervenção de terceiros na sua forma mais primitiva. O Loló não entendia? O sapo roubaria de Osmar o significado do seu sacrifício. Salvaria sua carreira mas desmentiria a grandeza que escolhera ao pdeir para jogar no gol e se sujeitar a tudo, até ao vexame definitivo. O sapo transformava o goleiro, o destino, a Humanidade e o seu poder de decisão diante do nada em nada.
O Loló incinerou o sapo e não falou mais nisso. Mas não entendia mesmo. Futebol era coisa simples. Mandinga era coisa simples. O mundo era coisa simples. Complicado era goleiro. E olha que conhecia todos.

(crónica semanal "Do Lado de lá" na revista Actual do dia 2 de Abril de Luís Fernando Veríssimo)

16.4.05
Parabéns a você - DOIS
Pode alguém ser quem não é?

“Fez-me mergulhador e viajante, ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro.”
(Miguel Sousa Tavares sobre a sua mãe Sophia)

Woody Allen no seu filme “Holywood Ending” conta a história de um realizador de cinema que, perante o facto de ter uma cegueira (ainda que psicossomática), esconde a sua deficiência com medo que isso fosse estragar a sua carreira de realizador e o lançasse na miséria. Assim, esse realizador faz-se passar por uma pessoa que vê e realiza o seu filme cego, sem nunca revelar a sua verdadeira condição. No final, o filme foi alvo de duras críticas mas acabou por ser elogiado por críticos franceses, pelo que o realizador tem a sua carreira assegurada (entretanto já recuperara a visão). Neste filme, Woody Allen caracteriza muito bem a postura de algumas pessoas perante a deficiência, que fazem tudo para a esconder, justamente por medo do miserabilismo (nomeadamente nos casos de deficiência mental) principalmente porque na generalidade dos países (e Portugal não foge à regra) os cidadãos com deficiência têm muitos poucos apoios. A história de Woody Allen tem um final feliz, pois trata-se de uma comédia, mas na vida real em geral isso não acontece, pois a realidade é bem mais dura. Foi o que aconteceu em França em 1993. Um jovem estudante de medicina, uma vez adormeceu e faltou a um exame. Foi este o pormenor. Filho de uma mãe frágil que ele não queria decepcionar e de um pai muito exigente que ele devia satisfazer, mentiu aos pais e disse que tinha passado no exame. E assim se passou com todo o resto dos anos: disse aos pais que tinha passado e tornou-se para os pais médico e investigador da Organização Mundial de Saúde. Tudo falso, obviamente, ele passava os dias em negociatas duvidosas com amigos, sentado no carro à espera que o tempo passasse. Depois casou-se e teve dois filhos, sem nunca revelar a ninguém a sua verdadeira história. Viveu esta vida dupla durante 18 anos. Ao fim de 18 anos, planeou o seu suicídio e um vídeo onde contava toda a verdade. Mas não foi isso que acabou por fazer. Assim que percebeu que a verdade estava prestes a eclodir, em vez de pedir ajuda, incapaz de enfrentar as pessoas mais próximas e de quem mais gostava, matou os pais, a mulher e os dois filhos, para depois fazer uma tentativa falhada de suicídio. No fim, foi condenado a prisão perpétua. Esta história foi depois imortalizada em livro por Emmanuel Carrère e em filme por Nicole Garcia sob o título “O adversário” (“L’adversaire” no original). Eu vi o filme e li o livro. Posso dizer que foi dos filmes mais deprimentes e mais impressionantes que eu já vi em toda a minha vida. O livro também não lhe fica atrás. Fui ler o livro para tentar perceber o que se passa na cabeça de uma pessoa que comete um acto desses. Confesso que a minha curiosidade não ficou totalmente satisfeita.
Emmanuel Carrère escreve a determinada altura: “Jean-Claude sabia que a única solução lógica para a sua vida seria o suicídio”. Não posso aceitar uma afirmação destas. Desde quando é que o suicídio é solução para quem quer que seja?! Há sempre uma solução alternativa à morte, uma solução de vida. O erro e o azar de Jean-Claude foi nunca ter pedido ajuda a nenhum especialista. Infelizmente, esta é uma posição que muita gente adopta.
O que Emmanuel Carrère não escreveu e devia ter escrito é que as pessoas matam quando estão convencidas de que têm a razão do seu lado. Como escreveu Eduardo Prado Coelho no “Público” sobre o caso francês: “O que é estranho não é que uma borboleta em Pequim possa provocar um tufão em Nova Iorque. O que é estranho é que as pessoas vivam de tal forma as suas existências exíguas que estejam dispostas a desfazê-las e a liquidá-las por uma manhã na cama ” (citação evocada de memória).
Por fim, faço aqui um apelo: se conhecerem alguém que não assuma a sua deficiência ou que tenha uma vida dupla, convençam-no a procurar ajuda junto de especialistas antes que aconteça mais alguma tragédia. Porque não há nada pior do que a mentira. Porque só a verdade liberta. Como confessou posteriormente Jean-Claude:“Nunca na minha vida fui tão livre, nunca a minha vida foi tão bela. Sou um assassino, tenho a imagem mais baixa que pode haver na sociedade, mas tudo isso é mais fácil de suportar do que os anteriores vinte anos de mentira.” Esclareço: ninguém é obrigado a assumir uma deficiência. O que não é justo é que terceiros paguem por tabela os erros dos outros.

Clara Belo

14.4.05
Música para os meus ouvidos


Temos música, não sei é se temos Casa!

Tiro o palito da boca e inspiro fundo…
Casa que se constrói torta nunca mais se endireita, já outras direitas tornaram-se tortas. Caso paradigmático, o da torre de Pisa. Não vou questionar formalismos, estejam descansados, pois a expressão do belo só em Portugal é que não é questionável ou não tivéssemos todos nós uma costela de “pato-bravismo”. É incrível como todo o processo da concepção do projecto até à sua construção é indiscutivelmente reflexivo da nossa vivência do portuguesismos saloio e rural.
Saco da pedra e afio a faca…
Não é questionável um concurso desta envergadura pelas suas exigências de prazos de concepção apenas tenha quatro propostas para análise final, devido a seis desistências. O projecto vencedor, para além de na sua génese destruir a leitura urbana de escala e carácter da Rotunda da Boavista evidencia de um protagonismo exacerbado que a rotunda na sua génese não necessitava. Mais, um projecto que antes era uma habitação unifamiliar para um jovem casal que se divorciou, agora é a sala de espectáculos mais famosa do país. Com sorte o mesmo projecto podia ter sido o centro de mesa da sala de reuniões da nova embaixada da Holanda em Berlim. Todo e qualquer processo de concepção de formas de artes, desde Marcel Duchamp, é difícil de questionar. Não estamos a falar de rodas de bicicleta sobre bancos de cozinha, mas sim de um equipamento com um custo elevado que tem como fim a optimização e rentabilização do uso dos espectadores. Um edifício que se rendia pela transparência ao abrigo das exigências dos prazos estabelecidos dotou-se de betão branco, branco de mais para rotunda tão taciturna.
Estendo o braço e lanço a faca …
Aquilo que de interessante se revia no edifício, eram as relações que os auditórios constituíam com a envolvente. Se por um lado o pequeno auditório nem com a abertura no edifício de Ginestal Machado consegue realizar tais relações. O grande auditório que no alto da sua imponência em tosco enquadrava com brilhantismo o leão da rotunda, agora apresenta vidros ondulados (interessantes mas pouco eficazes para o efeito) que não aproveitam a luz natural e disformam a "fotografia" que se tinha do exterior da rotunda.
Quanto aos interiores deixo para outras facadas.

Contudo não poderei deixar de dizer que entendo o edifício como uma obra extraordinária da nossa arquitectura contemporânea, mas que nem o país nem a cidade do Porto necessitam. Um edifício pósmodernista que marca um tempo que ainda não é nosso…

Parabéns a você - UM
“Enchamos tudo de futuros” é uma expressão bem estranha, sempre achei desde que a li. Se vocês me puxam pela imaginação, a questão é saber o que é que isso pode querer dizer.
A primeira hipótese, que talvez se pudesse pensar à primeira vista ser a vossa, é que o futuro é sempre uma coisa boa, e que portanto se quer que tudo seja bom, cheio de futuro. Como quando se diz de alguém a quem se reconhece qualidade: ‘este ou aquela tem futuro’. Mas para ver que não é assim, basta pensar noutra expressão um pouco maldosa, que no meu tempo se usava muito, agora não sei, quando se dizia com um sorriso irónico: ‘continua assim, que vais ter um lindo futuro’. Além do sorriso, também o ‘lindo’ era irónico e dizia o contrário, um mau futuro. Não é preciso ser muito velho, ter muito mais passado do que futuro, para se saber que o futuro não é sempre bom. Aliás acaba sempre na morte.
Então, para tentar perceber a vossa divisa, busquemos doutro lado, noutra expressão: ‘o futuro a Deus pertence’. Se não quer dizer que seja sempre bom, as tragédias bem o mostram, a do maremoto do 26 de Dezembro é das últimas que mostra que Deus não é sinónimo de ‘tudo bom’: como dizia o filósofo Lévinas, Deus tem mais a ver com ‘encher-nos de bondade’ do que com ‘encher-nos de coisas boas’. O que será então? Que o futuro ninguém o conhece, ainda que seja profeta. Aqui chegamos a uma melhor perspectiva: é que é talvez, falando um pouco depressa, uma das melhores coisas do mundo; outra é que ninguém possa ler o nosso pensamento. Ambas são essenciais ao que chamamos liberdade.
Mas se é bom não conhecer o futuro, também tem inconvenientes: seria terrível que nunca tivéssemos certeza nenhuma sobre o que vai suceder naquilo que fazemos a cada momento. Para contrabalançar esse risco, os humanos desde sempre que inventaram aquilo que nos torna humanos: as receitas, aquilo que se aprende. Desde a fala até à culinária, aos remédios e tratamentos, às técnicas todas, o saber que se aprende é para se ‘saber fazer’ numa dada situação com grande probabilidade de sair bem (savoir-faire, como dizem os franceses, ou know-how, à inglesa). Misturar farinha, água, sal, fermento em certas proporções, fazer uma boa massa e levar ao forno durante um certo tempo, quando se já tem algum treino, permite quase sempre fazer um bom pão, sem que seja necessário rezar a Deus para que isso aconteça. As receitas são para repetir, as respectivas aprendizagens são coisas óptimas, facilmente aprendemos novas que nos são muito úteis, até o caminho para ir a tal ou tal sítio: acautelamos o futuro, mas não é isso com certeza que vos interessa na vossa divisa, mas um pouco o contrário da repetição, o incerto, o tal futuro que ninguém conhece que a Deus pertence. Uma prova disso é que quase toda a gente gosta de jogos, e os jogos é uma das coisas em que, por um lado se aprende e se treina bastante, mas também em que não há receitas. O que é próprio de um jogo é que, embora haja jogadores melhores uns do que outros, nunca nenhum, nem nenhuma equipa, está certo ou certa de ganhar, tem que se esforçar constantemente, do princípio até ao fim, para o conseguir. E pode não conseguir: mas todos os seus minutos estão cheios de futuro.
De tal maneira são assim incertos, que são considerados coisas ‘não sérias’, fora da vida habitual, da vida útil como se diz dos dias que vão de segunda a sexta, divertimentos, espectáculos, passatempos. E então eu chego ao que eu julgo que vocês querem dizer com a vossa divisa: que a vida, em tudo o que ela tem de útil, e apesar das necessárias cautelas que são as inúmeras receitas que constantemente aprendemos, seja um jogo permanente, em que haja risco frequente, que puxe por nós, nos estimule, nos ‘encha’ (sem nos ‘inchar’). Como naqueles desafios apaixonantes em que se sofre muito e enfim se ganha. Ou se perde.
Acho que é uma divisa muito corajosa. Boa sorte.

Fernando Belo

13.4.05
terra da alegria
Às quartas...

«O homem bom que foi Karol Wojtyla pode vir a ser santo. Eu, por mim, gostava que na sua proclamação se ouvissem palavras como… "naquela comunidade, um milagre aconteceu: a guerra acabou, a paz venceu, seguindo o apelo deste homem bom". Para isto, sim, a medicina não tem explicação.» (Miguel Marujo)

«do mesmo modo que de Cristo o mundo reteve sobretudo a Sua Paixão, também deste Papa serão sobretudo recordados os anos derradeiros, os seus rictus de dor, a fragilidade gritante com que se arrastava em visitas pastorais extenuantes, aquele desespero tocante que deixou entrever da sua janela, ao não conseguir pronunciar aquele último Angelus. E sobrepondo-se a todo esse sofrimento, uma determinação terrível em lhe resistir, uma força imparável que, no meio da multidão, o impelia inexoravelmente para o seu Gólgota.» (José)

E ainda, "A Santíssima Trindade" com direito a interpretação herética do Timóteo; Rui Almeida lembrando os trinta e três dias do pontificado marcante de João Paulo I; Fernando Macedo falando da religião instituida e da não-instituida e da sua convivência.

Moby Dick II
Naquela noite em que Ismael chega a Nantucket a estalagem "A Baleia" encontra-se já lotada, sem conhecer a cidade e sem vontade de continuar a vagear por ruas escuras Ismael insiste. O estalajadeiro faz-lhe a proposta de dividir a cama maior da casa com um arpoador que chegaria dentro em breve. Acontece que o estalajadeiro sabia que o arporador era canibal, o que causou um susto enorme em Ismael. Mas Queequeg era um canibal civilizado. Após o pânico os dois adormeceram... Na manhã seguinte:

"Despachei-me depressa e descendo ao bufete aproximei-me do sorridente estalajadeiro. Não lhe guardava rancor, embora se tivesse divertido à minha custa com o meu parceiro de cama.
Uma boa gargalhada é, porém, uma coisa tão apetecida e quase tão rara como um gesto piedoso. Portanto, quando um homem dá motivos para que os outros se riam, e não só não se irrita como até acompanha a hilariedade dos outros e não se ofende quando os estranhos se juntam ao jogo, podemos ter a certeza de que esse homem vale muito mais do que aparenta"


Herman Melville

12.4.05
PARABÉNS A VOCÊ!!
O Enchamos Tudo de Futuros faz anos. Faz? Fez? Depois de umas trocas de emails, ainda não conseguimos perceber bem quando é que os anos se fazem... os primeiros posts estão lá, com data fixa, mas a verdade é que ninguém sabe mesmo o dia exacto. O dia exacto foram muitos dias em que começámos a ler o que uns e outros partilhavam aqui, a conhecer gente interessante noutros blogues, a entrar em amenas cavaqueiras, a descobri mais alguns dos futuros que nos espreitam. E para que se fixe um dia (que estas coisas têm sempre que ter dia), aqui declaramos publicamente que passamos a ter nascido há um ano. Venham os parabéns e um copo de vinho do Porto, do tal que escolhemos para companhia desde o início!

Para comemorar o aniversário decidimos abrir o estaminé. Nos próximos dias publicaremos todos os futuros que nos enviarem. Pode ser o que bem quiserem — ideias, desejos, intenções, novidades, antiguidades, exaltações, exasperações — tudo, desde que completamente dinamizado pelo futuro. E acompanhado por um vinho doce, forte e perfumado. A bebida está servida, para terminar permitam-nos apenas que acrescentemos uma música de fundo. Deixamo-vos com a ira delirante das fábulas do mestre Mingus.


(Fables Of Faubus, Charles Mingus, 1959)

Inês, Leonor, Pedro, Rosa, Zé, Zé.

11.4.05
terra da alegria
Ontem na Terra da Alegria continuaram dos debates teológico-exegéticos, desta vez com a contribuição do Marco. A conversa começou entre o José e o Nuno Guerreiro sobre a visão judaica e cristã de Jesus nestas epístolas a não perder.

Senois


De forma algo inesperada descobri a tribo dos Senois. Numa livraria, abro um livro numa página ao acaso e leio o primeiro parágrafo. Falava sobre esta tribo de particulares vivências. Então investiguei. Os Senois vivem em habitações comunitárias na floresta da Malásia, onde não se encontram registos de violência ou conflitos nos últimos trezentos anos. A peculiaridade desta comunidade é o controlo sobre os seus próprios sonhos, que começam a treinar desde infância. Os Senoís acreditavam que o homem, no seu processo de adaptação, cria as imagens dos sonhos a partir do que vê no mundo exterior. De forma a evitar tensões interiores e possíveis angústias, a criança senoi que relata um sonho perigoso e aflitivo ouve como resposta “É maravilhoso!” ajudando-a transformar uma queda num voo inigualável e que ela é perfeitamente capaz de controlar.
Esta tribo é, do que se conhece, o único grupo social que se conduz de forma tão singular, que se conduz em função dos seus sonhos…

10.4.05
a ler
Ainda Guilherme d'Oliveira Martins sobre Jean Paul Sartre, Emmanuel Mounier e Raymond Aron: «(...) num triângulo inesperado, percebemos que o século XX encerrou muitas das contradições e complementaridades que os três intelectuais representaram. Raymond Aron chamou a atenção para a importância da complexidade das circunstâncias sociais e políticas, Jean-Paul Sartre invocou as contradições e os paradoxos da existência humana e Emmanuel Mounier pôs na ordem do dia a grandeza paradoxal e dramática da dignidade humana. Afinal, é indispensável ouvi-los a todos para tentar perceber onde estamos e para onde poderemos ir…»

Sobre o Papa João Paulo II muito se tem escrito:

Timothy Garton Ash explica porque é que «Pope John Paul II was the first world leader».

Ana Gomes curva-se, comovidamente: «Acompanhei com pesar e profundo respeito o sofrimento dos últimos tempos, o seu derradeiro assomo de carácter, de determinação, de fé. De uma Fé que eu não partilho. Mas na hora em que a morte o libertou do sofrimento, percebi tornar-se insignificante o que me separou e separa de uma parte das suas ideias e convicções - sobre direitos e capacidades de mulheres e homens na família e na sociedade, sobre o direito à vida, sobre direitos na morte.
João Paulo II morreu - é diante de um grande Homem, e da sua infinita e contagiante humanidade, que eu me curvo. Comovidamente.
»

Nuno Guerreiro lembra o bilhete deixado no Muro das Lamentações, onde se exprime o pedido de perdão da Igreja Católica aos seus "irmãos mais velhos na fé": «Deus dos nossos pais, que escolheste Abraão e os seus descendentes para trazer o Teu nome às nações: estamos profundamente tristes com o comportamento daqueles que, ao longo do curso da história, causaram sofrimento a estes teus filhos e, pedindo o teu perdão, manifestamos o desejo de nos comprometermos a uma irmandade genuína com o povo do convénio.»

E até no Barnabé se escreveu um elogio fúnebre a Karol Woytila, pela mão do Bruno Reis, com irritação q.b. do Daniel Oliveira: «Woytila foi grande, mas não escapou aos feitios e defeitos do seu percurso e da sua época. E se é ilusório pensar que no passado houve um idade de ouro em que os cristãos seguiam realmente os mandamentos das suas Igrejas, não o é menos pensar que com este papa tão popular, mas nem por isso menos contestado e surdamente desafiado, a Igreja Católica resolveu o seus problemas. Como dizia um dos 'santos' criados por ele, o nosso Frei Bartolomeu dos Mártires: 'a igreja está sempre a precisar de reformas!' Está sempre em crise, é esse o seu estado natural. Quem vier a seguir que faça melhor, se puder. João Paulo II ganhou amplamente o direito ao descanso.»

Um último recado do Filipe Alves deixado no Post Scriptum de um texto de há uns meses atrás e agora recuperado: «Às vezes fico com a impressão que certa esquerda "caviar" só ficaria satisfeita com João Paulo II se ele tivesse dito que Deus não existe!»

Para quem quiser seguir as andanças no Vaticano por estes dias, aconselho o blog de Rubén Amón, jornalista do "El Mundo". Pelas nossas terras, o "Público", pela pena do António Marujo, publicou um dossier excepcional disponível gratuitamente online: "João Paulo II, Papa por uma vida".

9.4.05
Coimbra-Moscovo
Coimbra-Moscovo para renovar o passaporte. De carro. De carro em segunda ou terceira mão. Mais de seis mil quilómetros. Coimbra, Portugal-Espanha-França-Itália-Áustria-Hugria-Ucrânia-Rússia, Moscovo. Um bom percurso de interrail? Certamente. Mas neste caso é para fazer tudo em três dias:
— Três dia, três dia. Guiar vinte-quatro horas, descansa três. Três dia, três dia e já está.

Já chegaram. O vinho português que levaram não deve ter passado a fronteira da Ucrânica, mas já chegaram. Voltam daqui a um mês com passaporte novo, à procura de novo trabalho. À procura das oportunidades que não encontraram na sua terra. Ela tem lugar garantido numa fábrica — o patrão não manda embora quem trabalha bem. Ele vai procurar qualquer coisa. Queria conduzir autocarros, como fazia lá, mas a carta profissional é cara. Não deixa de se desgostar, com o seu tique machista:
— Mulher não é para trabalhar. Mulher é amor!"

A mulher e a filha repondem com uma gargalhada.

Funerais


Temos entre nós um fim-de-semana atribulado onde cerimónias fúnebres de importância se realizam pela Europa fora. Ora em Roma, realizou-se o ultimo adeus a Karol Wojtyla com a presença de reis, rainhas, chefes de estado, primeiros-ministros, embaixadores, 2 milhões de polacos, 27 ecrãs gigantes, 8 mil seguranças, etc. Uma barrigada para televisões e companhia e uma perda para o discurso ecuménico do planeta. Já quem não pode estar perto do Santo Papa é o príncipe Renier que malogrado tem as suas exéquias fúnebres esta tarde.
E nós por cá?! Não poderíamos deixar em claro tanto mediatismo pela Europa fora... Será que amanhã no Congresso do PSD em Pombal teremos o enterro político de Santana Lopes?

comtextos
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz:
Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos - O verbo tem que pegar delírio.


Manuel de Barros, Uma didáctica da invenção


8.4.05
Blog em passeio






No dia 13 de Março o blog "enchamos tudo de futuros": leonor, pedro, rosa, zé filipe, zé maria e inês, foi passear. 10Km a pé pela Serra da Lousã e suas aldeias: do castelo para o Talasnal, Vaqueirinho, Chiqueiro, Casal Novo até que voltámos ao castelo novamente.
Um passeio em que não decidimos nada em relação ao blog... ou talvez tenhamos decido tudo...
Para mim é um dia a recordar.

X -ACTO



Agora já ninguém pode dizer que não sabia... :)

6.4.05
terra da alegria
É quarta-feira e a Terra está aí.

5.4.05
O guincho



O vento guincha e tem tanto de bonito como de indomável. Lembro-me sempre daquele amigo que não vejo tanto como nos víamos e da forma como ele me ensinou o olhar: "repara como a serra entra mar adentro". Agora sempre que lá vou ensino os outros com quem quero partilhar aquele presente "reparem como a serra entra mar adentro". No guincho podemos gritar.

De Handas



Não sei se foi por ter estado a ver o filme Lisbon Story do Wim Wenders, vi o filme como não se deve ver: fui vendo em vários pedaços quando ia arranjando tempos. Não me senti fazer uma asneira tão grande como acharia normalmente: o filme fala de imagens, de recortar imagens, fala de guardá-las...
Não sei se é porque no livro que estou a ler (O paraíso na outra esquina de Mario Vargas Llosa) Paul Gauguin vai para o Tahiti em busca de imagens de um mundo primitivo, puro...
Não sei se é pelo meu medo (A imortalidade do Kundera?) que me vem de vez em quando de perder o que vou sendo e vivendo...




... a verdade é que ontem e hoje resolvi ir tirar fotografias: ontem no Guincho e hoje aqui pelo pinhal. Momentos meus para vocês.

Revolução Personalista 6
João Paulo II está nos dois posts de hoje da Terra da Alegria. Um meu e outro do Marco.

Aí termino a série sobre "O Personalismo" de Emmanuel Mounier, desta vez a partir do discurso com que João Paulo II começou o seu pontificado. Não tinha à mão o livro de Mounier, por isso citei de cor a frase com que termino o texto. A versão completa é esta:

«Quando já não tivermos possibilidades de sucesso, resta-nos testemunhar. Não se perde a vida daqueles que souberam dar largo testemunho. Conhecemos a fragilidade de nossas forças e do sucesso, mas conhecemos também a grandeza do nosso testemunho. Eis porque conduzimos sem hesitação a nossa tarefa na certeza da nossa juventude.»

Deixo os links para os vários textos mais ou menos atabalhoados que foram surgindo:
1 - Mounier, o Personalismo, a revista o Tempo e o Modo
2 - o cristianismo e o universo pessoal
2 e meio - política e amor
3 - interioridade e comunicação
4 - da liberdade ou manifesto anti-neoliberalista
5 - da transcendência
6 - conclusão

4.4.05
parabéns UDP! adeus Lenine?


Durante este fim de semana, a UDP realizou o seu XVII Congresso tendo tomando decisões históricas, e que na sua natureza, se constituem de grande relevância para vida politica deste partido. Entenderam assim comunicar ao Tribunal Constitucional o cancelamento do registo partidário da UDP procedendo de imediato à constituição de uma Associação Política, com personalidade jurídica própria.
Passando esta associação política a adaptar na integra o património e no essencial dos seus princípios: razões de luta, natureza ideológica e carácter revolucionário da UDP.
Assim chega ao fim uma caminhada de um partido político preponderante no crescimento da nossa democracia. Esperando na certeza que os seus princípios ideológicos não se percam nesta mudança, pois foi de convicções que o percurso democrático do nosso país se estabeleceu. No entanto é de questionar se a Lei orgânica destinada aos partidos políticos é a mais adequada para a nossa realidade civil.
Gostava apenas de desejar que esta nova associação politica nas suas convicções e princípios continuasse na senda dos últimos 30 anos democráticos, pois foi no pluralismo ideológico que estes foram construídos.

3.4.05
Miragens
"Chamem-me Ismael. Há alguns anos, quantos ao certo, não importa, com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem nada de especial que me interessasse em terra, veio-me à ideia meter-me num navio e ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afugentar a melancolia e regularizar a circulação. Sempre que na minha boca se desenha um esgar carrancudo; sempre que me vai na alma um Novembro húmido e cinzento, sempre que dou comigo a deter-me involuntariamente em frente das agências funerárias ou a engrossar o séquito de todos os funerais com que me deparo; e, especialmente, sempre que me sinto invadido por um estado de espírito de tal maneira mórbido, que só os sólidos princípios morais me impedem de descer à rua com a ideia deliberada de arrancar metodicamente os chapéus a todos os transeuntes, nessa altura, dou-me conta que está na hora de me fazer ao mar, quanto antes. É o meu estratagema para evitar o suicídio. Catão lança-se sobre a espada com um floreado filosófico; eu, calmamente embarco. Nada há de surpreendente nisto. embora não se dêem conta, tal como eu, quase todos os homens acalentam, mais tarde ou mais cedo, este desejo de mar.(...)

Por que será que quase todos os rapazes são de corpo e de alma, mais cedo ou mais tarde, sentem a loucura do mar? Por que razão, na sua primeira viagem marítima, o passageiro experimenta uma tão mística vibração, quando lhe dizem que do navio já não se avista terra? Por que motivo o mar era sagrado para os persas? Por que lhe atribuíram os gregos uma divindade distinta, precisamente o irmão de Júpiter? Tudo isto tem decerto um significado. "




Assim embarco na aventura do enorme livro sobre uma enorme baleia: Moby Dick.
Envio uma mensagem a quem dedico este post e suavemente sorrio.

2.4.05
ainda sobre Mounier
Mais um texto sobre Mounier. Desta vez não é meu, é de Guilherme d'Oliveira Martins e foi publicado ontem no "Público". No blog de Oliveira Martins, Casa dos Comuns, reproduz-se esse texto intitulado "Centenário de Emmanuel Mounier". É um bom final para a minha série sobre a "Revolução Personalista e Comunitária". Na segunda feira ainda escreverei algumas coisas mais (espero eu!), mas o essencial está dito.

1.4.05
O Noivo

Gabriel Bouys, World Press Photo - 1999
Maribor, Eslovénia


O Noivo

Quanto mais passa o tempo
Mais a morte nos alcança,
Mais se enfraquece a esperança
De renovação da vida.
Este é o nosso lamento
É esta a desesperança
De quem já esqueceu a herança
De uma Terra Prometida.

Quem aguarda pelo Noivo
A chama acesa mantém.
Não se assusta com a demora
Pois sabe que o Noivo vem.
Se o Noivo repudiamos
Envelhecemos sem festa
Desperdiçando, hora a hora,
A pouca luz que nos resta.

O nosso Noivo partiu
Com a promessa de voltar,
Estejamos todos alerta
Que a noite passa depressa.
Ele é de volta, saiamos!
Velhos e novos saiamos!
Como pombas e serpentes
Pela noite fora vamos.


Já vem ao longe o nosso Noivo
É a luz e a mão segura
De quem se atreve na noite escura
Ai, acendamos as nossas velas
Não temamos a noite escura,
Vem lá o Noivo, nossa ventura.



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