30.7.05
Um presente de veraneio
uma_imagem_gira
(Arthur Leipzig, "Window Washer, Empire State Building, 1948")

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o “preto no branco” e os “pontos nos is”
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
Chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
Não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
Exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!


Pablo Neruda

28.7.05
terra da alegria
Ontem houve Terra da Alegria com mais fundamentalismo e futurologia.

as minhas cidades...

A cidade onde nasci – uma riqueza que brota da sua interioridade geográfica. Onde a Terra é dominante nos cheiros verdes da serra, nas cores geladas do Inverno,nos sabores vermelhos das cerejas e nas rugas das suas gentes. Que na dificuldade se eleva a astúcia, gerindo o conflito na compreensão da fé.
- Boa Gente! Diria a minha avó quando se despede com um Bem Haja da vizinha, mulher do sapateiro.

A cidade onde estudei – uma novelo multicultural centralizador do país. Uma mão cheia de vontades e energias. Emaranhado de vidas que correm para um oceano de águas agitadas com uma história que nem os próprios conhecem. Tráfego denso que só na outra margem e nas perspectivas das colinas se desvanece. Um fado, um pastel, um cheiro a alecrim e uma mão cheia de luz são saudades que nos entre tantos
resolvo consumir quando agora, por lá, sou turista em passeio.

A cidade onde trabalho – o meu patinho feio! Para quem conheceu Adamastor, águas brandas da minha tranquilidade. A tristeza edificada é marcada pelo granito tornando-a densa mas arrumada. Um cálice de vinho do Porto ajuda a animar os sonhos que se descobrem do outro lado do rio. As pontes, são virtudes demasiadas, para proximidade tanta. Cidade dos sete ofícios de bairrismo esmagador, onde a patine na perenidade do tempo descobre rostos duros e marcados de vidas e desafios.

Se estas permanecessem como eu as criei em pensamento, as suas vidas estariam agitadas, o seu tempo não estaria certo e assim eu as teria mudado.

26.7.05
A Máquina
A primeira vez que me lembro de ter visto uma foi na mesa do meu avô. Ele olhava por cima dos grandes óculos de massa amarelada e esperava que eu escolhesse o sítio onde me iria sentar. Depois de eu sentada e ele a salvo continuava. Sisudo. Compenetrado. Escrevia na máquina de escrever. Eu. Parada. Longe. Era regra: “jamais mexer na máquina” como eram outras regras: “nem pensar em falar quando se estava a ver televisão” ou, a mais difícil e mais inviolável de todas, a maior ofensa que lhe poderíamos fazer: “mexer na estante dos chocolates”. Eram dele! Nada por maldade. Necessidade sim, quando se tem oito netos todos em escadinha onde a asneira se propaga como rastilho a sobrevivência leva a estas medidas. Com o tempo a máquina foi arrumada. Com o tempo estes e novos netos aproveitaram bem a doçura que a velhice trouxe.

Não vi muitas mais… algumas. As mais modernas não gosto. Aquela ilusão de que é muito fácil mas depois é incrivelmente difícil fazer sair três linhas sem erros.

Hoje lembrei-me por raiva à informática. Como é que um computador perde toda a informação de anos assim em menos de um segundo e nem pede desculpa? Como pode um computador, a porcaria de todos os computadores terem cada um a sua personalidade, do género: “vou bloquear agora” ou “este programa não vai funcionar aqui” ou “recuso-me a ler mais este DVD esta tarde… tenta outra vez daqui a umas horas”. Irritante! Eu não tenho paciência… é “alt-ctrl-del”, “reset” ou “desliga a ficha”. Não tem sido muito mau.

Por outro lado… ainda hoje recebi no e-mail um texto fabuloso e triste. Um daqueles textos que pode acrescentar mais a quem somos. (aconselho no próximo Comtextos) E posso responder que gostei muito, posso agradecer o tempo que alguém tão longe e com uma vida tão cheia de luta magoada mas sempre corajosa nos dedicou. Simples, para o outro lado do Oceano.





MAS UM DIA AINDA HEI-DE TER A MINHA MÁQUINA.

Contra-confusão
Dei por mim, há uns dias, a pensar... a equipa do contra-informação não pode mesmo atirar bonecos fora! Nós nunca sabemos quem é que vai voltar!!!!
(ainda eu não sabia o que iria acontecer pouco tempo depois...)

25.7.05
terra da alegria
A "Mulher das Cidades Futuras" está também na Terra da Alegria de hoje, com um pequeno bónus em relação ao texto que está quatro posts aqui abaixo. Ao lado de mais um olhar sobre a Igreja da Maria Conceição, desta vez sobre a sexualidade e de uma reflexão sobre o "Segredo do Reino" do Christian Bitencourt.

24.7.05
terra de fundamentalismos
Não fiz referência à Terra da Alegria de quarta-feira, mas faço-a agora. Uma Terra por onde passa o fundamentalismo. O Timshel fala da pregação fundamentalista islâmica que ouviu no "Speakers Corner", em pleno Hyde Park, apelando ao martírio e discutindo a aceitabilidade dos métodos terroristas. Tenebroso. Mais fundamentalismo, desta vez cristão, com uns senhores que nos querem dizer o que pensar. O CC deu-se ao trabalho de visitar tal gente. Desconfio sempre de quem não desconfia de si próprio q.b. Debaixo de todos os dogmas e certezas vive quase sempre uma alma frágil e pouco questionamento. Precisamos mais de místicos e profetas de esperança do que de apologetas de anátemas.

22.7.05
Porque sabe bem...
Porque sabe bem no fim de 6 exames, 4 orais e um trabalho, com os olhos a piscar e o corpo cansado ir ouvir alguém, que conhecemos desde sempre, contar contos? Alguém que, sendo mais velho que eu, sempre fez as maiores tropelias comigo, sempre imaginação! Uma biblioteca cheia de livros e histórias, uns sofás confortáveis, quatro da família juntos e mais pessoas presas àquela voz, àqueles finais sempre surpreendentes, ao doce encanto que só as histórias contadas têm.

Porque sabe bem ir esperar um amigo que às 22.30 da noite está a acabar o curso? Esperar sem ele saber, espreitar para dentro da sala sem ninguém ver, pôr o ouvido à escuta para tudo ouvir e dizer cá fora “o professor adorou o trabalho…” e comemoramos os dois muito contentes, aos pulos, mas em silêncio. Chega então o pai, a mãe, o irmão e nós dizemos como tudo está a correr “muito bem, muito bem! Parabéns!”. Orgulho. Finalmente sai cá para fora! Brinda-se com champanhe, comemos camarões, finos (e um chá, com um fino a seguir… não dá para entender! :), um abraço a três no fim, apertado!

Porque sabe bem levar um amigo de sempre a casa?
pé na embraiagem – travão
ponto-morto – travão de mão

Conversamos um pouco na esperança que o próximo passo, neste processo, se realize e, não é que acontece mesmo?:

Rodar a chave – desligar as luzes.

Conversamos muito. E sabe bem voltar a casa muito tarde e adormecer sem dar conta.

21.7.05
um pequeno passo...

"Um pequeno passo para o homem,
mas um grande salto para a humanidade"

Apollo 11 (21 de julho de 1969)
Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins

Já lá vão 36 anos de passos largos na concretização de sonhos...

"Palavras Dadas" de Maria de Lurdes Pintasilgo
uma_imagem_giraFez há poucos dias um ano que faleceu Maria de Lurdes Pintasilgo. Cá no estabelecimento assinalou-se a triste data, com um texto chamado "Mudar a Vida", que merece ser relido. Surge agora em edição dos Livros Horizonte e com chancela da Fundação Cuidar O Futuro o livro "Palavras Dadas". Trata-se de um conjunto de reflexões dirigidas a cada uma das 127 (!) personalidades que escreveram a Maria de Lurdes no livro "Mulher das Cidades Futuras" a ela dedicado por ocasião do seu septuagésimo aniversário. Um conjunto de reflexões, não de respostas, já que "resposta, resposta mesmo, não há". Como diz no prefácio, "todos os meus eus são interrogativos". A busca da verdade segue trilhos incertos; sábio é quem o reconhece: "o princípio da incerteza coexiste com a procura einsteiniana de uma grande verdade".
Ainda não li o livro, mas tive o privilégio de assistir ao lançamento desta edição póstuma com apresentação de Maria Irene Ramalho, Boaventura Sousa Santos e José Manuel Pureza, além da anfitriã Fátima Grácio, presidente da Fundação instituída por Pintasilgo. As três intervenções merecem registo, pelo que deixo a letargia dos últimos tempos e volto à escrita.
Logo na explicação do "porquê deste livro", Maria de Lurdes Pintasilgo começa por citar o poema de Carlos de Oliveira que inspira a expressão "mulher das cidades futuras":

Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras
fique embora mais curta a nossa vida.


Foi precisamente com a música que José Pureza começou por comparar este livro; não com o canto, mas com o Jazz de John Coltrane, num dos seus solos endemoinhados, com vários tons e muitos improvisos, com mudanças súbitas de ritmo, com vocabulário diverso e sempre, sempre com genialidade e vistas largas. Aqueles solos que fazem o ouvinte dizer que o músico anda à procura de Deus. Aqueles livros que fazem o leitor dizer que a escritora anda à procura de Deus.
Já Maria Irene Ramalho destacou a poesia que transborda deste livro. Ele nasce dum movimento de agradecimento: "tenho uma dívida" é a frase de abertura. Desse movimento de gratidão dirigido a cada um dos participantes no livro anterior, a "Mulher das Cidades Futuras" faz nascer uma resposta pessoal. Uma resposta tão pessoal e única que é um gesto de afecto, um "aceno de bem-querer" que a levam à pergunta provocadora: "Será mesmo verdade que não há amor senão recíproco?". É assim que neste livro se resolve o paradoxo: "como fazer de um afecto uma tese?". Por isso poesia: a tese dos afectos! E também por isso pode dizer-se que se trata de um testamento espiritual de Maria de Lurdes Pintasilgo – um testamento espiritual de quem sempre soube que a espiritualidade só faz sentido quando é aliada à acção.
Destaco a reflexão dedicada a José Policarpo, bispo de Lisboa, também destaca por José Pureza. Nela, Maria de Lurdes fala da Igreja e mais propriamente da pertença à Igreja. E fala disso usando uma metáfora: as pessoas que passam ao lado da Notre Damme e que são tocadas pela imagem da catedral, cada uma a seu modo, com maior ou menor intensidade, com mais ou menos inquietação, com mais ou menos questionamento ou identificação. A partir dessa imagem, fala da pertença à Igreja como uma "fronteira indefinida e arriscada", uma fronteira definida apenas na consciência de cada um. Ou, para usar as palavras do teólogo Yves Congar, mais do que uma fronteira, um "limiar":
«Gente que passa junto ao limiar da igreja, uns pensando-se fora, outros pensando-se dentro. Mas também aqui a fronteira não existe. É um limiar e, só porque por ele passam (pelo facto de existirem naquela cidade, naquele planeta Terra, no mundo), só por isso o que é transcendente diz-lhes respeito. A diferença entre uns e outros não é redutível a "acreditar" ou "não acreditar".»
Encarar a pertença à Igreja desta forma, percebendo que os crentes não se distinguem das outras pessoas por nenhuma regra, preceito ou género de vida especial, foi um dos grandes contributos daquela geração a que chamaram "católicos progressistas". Maria de Lurdes Pintasilgo foi a grande figura impulsionadora dessa forma fresca de estar na comunidade eclesial, a quem devemos muito. É a essa geração que devemos a grande mudança cultural que foi desamarrar a missão da Igreja do apoio ao regime. É a essa geração que devemos a mudança, em alguns sítios ainda pouco esclarecida, de entender que a Igreja não é de direita (nem de esquerda). E que não é, não pode ser, um entrave à mudança e à liberdade, a "gloriosa liberdade dos filhos de Deus". Os conservistas não lhe perdoaram. E nem no momento da sua morte um senhor bispo soube estar presente!
Houve outros que não lhe perdoaram. Que não lhe perdoaram estar na política com desassombro e utopia. Estar na política e saber ultrapassar a barreira entre o povo e os burocratas. Ultrapassar a partidocracia. Estar no associativismo e na militância de base e simultaneamente embrenhar-se no "sistema". Houve quem não lhe perdoasse, dos dois lados. Eu sou novo e conheço pouco da história, mas a diferença abismal entre o reconhecimento internacional desta mulher (membro do Conselho Executivo da UNESCO, membro do Conselho Directivo da Universidade das Nações Unidas, Membro do Clube de Roma, só para citar os mais sonantes) e o desprezo a que a nossa triste pátria a votou são sinais evidentes. E da imprensa nem vale a pena falar. Boaventura Sousa Santos, na sua intervenção triste mas desassombrosa, fala de "silenciamento e marginalização". No texto dirigido ao sociólogo ela diz que encontrou como justificação o seu sexo e a sua vivência da condição feminina, imperdoável na nossa "sociedade patriarcal". Boaventura discora. O mal é mais geral: em Portugal só somos felizes se não nos entendermos uns aos outros. Maria de Lurdes Pintasilgo sempre procurou fazer pontes, entendimentos – dialogar. Ultrapassou a mediocridade geral. Não lhe perdoaram.
E para não acabar com coisas tristes, lembro o único momento em que privei com Maria de Lurdes Pintasilgo. Foi na apresentação do livro da Rita, que esteve a cargo de ambos, em Lisboa, numa sala apinhada e com o sistema de som avariado. Eu bem me esforcei por falar alto para aquela multidão. Depois começou ela. Serenamente. Não falou alto, mas não tenho qualquer dúvida que foi ouvida com toda a clareza, tal a força das suas palavras. Se os Wemans nos deixarem, um dia destes ainda publicamos aqui a sua intervenção. Para já leiam o livro, que vale bem a pena.

20.7.05
um erro caro
Sarsfield Cabral, hoje no DN (sublinhado meu):

«Depois dos atentados de Londres, movimentos britânicos contrários à guerra do Iraque voltaram a exigir a retirada das tropas britânicas. Nos Estados Unidos, as sondagens mostram uma crescente vontade popular de fazer regressar os soldados. Ceder a estas pressões seria dar um rebuçado aos terroristas, na medida em que o Iraque se tornou um dos símbolos da sua luta anti-ocidental. Mas esta evidência não justifica retroactivamente a invasão. Bem pelo contrário.
O terrorismo da Al-Qaeda não começou com o 11 de Setembro. Mas ele deu a Bush o pretexto para avançar com um projecto antigo derrubar Saddam Hussein pela força. Digo pretexto porque não se vê relação entre invadir o Iraque e combater o terrorismo de forma inteligente. Ou melhor, uma relação passou a existir depois da invasão: a CIA reconhece que o Iraque se tornou um viveiro de terroristas islâmicos. The Economist (apoiante da invasão) escreve que o Iraque é uma ameaça porque se tornou um ponto de atracção e um campo de treino para combatentes estrangeiros. E o chefe da unidade antiterrorista de França disse que o Iraque relançou a lógica do combate global ao Ocidente.
Entretanto, apesar do êxito das eleições de 30 de Janeiro, das muitas prisões de terroristas e das sucessivas afirmações optimistas da Administração Bush, a situação no Iraque está péssima. Por mês são assassinados, em média, 800 polícias e civis iraquianos. A estratégia (?) americana para o pós-guerra revelou-se um desastre, de uma falta de profissionalismo difícil de entender. E Rumsfeld lá continua… Mas nada do que acontece ali surpreende quem antes tenha pensado uns minutos na questão, em vez de se deixar arrebatar por ideologias na moda. A invasão do Iraque foi um erro terrível, que já estamos a pagar e pagaremos durante muito tempo.
»

19.7.05
No limite
"Esta é a última mensagem que lançamos aos Estados Europeus. Vamos dar um prazo de um mês para que façam sair os vossos soldados da terra da Mesopotâmia"

Findo o prazo, que termina no dia 15 de Agosto, "não haverá mais mensagens, mas actos e palavras que serão traçados no coração da Europa"

"Será uma guerra sangrenta, em nome de Deus. É uma mensagem que endereçamos aos cruzados que ainda estão presentes no Iraque: a Dinamarca, o Reino Unido, a Itália e os outros países que têm soldados que continuam a pisar território iraquiano".

Brigadas Abu Hafs al-Masri, 16 de Julho de 2005.

Que futuro nos espera? Aquele que nós idealizamos, o dos nossos governantes, ou o "deles"! Não me apetece esperar pelo dia 15 de Agosto, pois sabemos que por afrontamento ao terrorismo ninguem irá tirar um pé do Iraque.

Cale Festival


Fica o convite...
O Fundão já está no mapa... Parece ser uma semana interessante em que a arte irá invadir a rua mais caracteristica da cidade! Admito que o Festival também vai ter o meu contributo artistico na exposição Arte Cale. Por isso esta semana sou mais fundanense que nas outras.
As saudades são tantas que as "fraquinhas" cerejas da Turquia, compradas no Lidl, parecem algodão doce em dia de Carrossel.

18.7.05
no jardim
Nasceu um jardim novo na terra dos blogues. O cultivo está assegurado pela Conceição, que também assegurou a Terra desta semana. Ora aí está um bom sítio para umas passeatas!

Poets Garden (Vincent Van Gogh)

(Jardim dos Poetas, Vincent Van Gogh)

17.7.05
130 mortos em atentados em Bagdad neste fim-de-semana
Só para registar. Rodapés cada vez mais rodapés e cada vez mais rápidos.

15.7.05
Horas
Horas a ouvir pormenores dos tempos que se seguiram ao 25 de Abril. Fixamos esta data e pensamos que tudo mudou naquele dia, no vermelho daqueles cravos, no som daqueles tanques contra o quartel, no júbilo registado em fotografias. Hoje sabemos. Na altura não se sabia. Acreditava-se. A luta continuou. O medo estava lá. O não saber como fazer. A esperança sempre.

Ouvi Eugénia Cunhal na televisão e impressionou-me pensar naqueles que viveram a clandestinidade, a prisão, anos… os 11 anos de Álvaro… onde só a pintura, só a escrita, só a profunda convicção das causas podia fazer suportar, transbordar a vida dali para fora. E quando se sai, preservar o amor por essa mesma vida. Nunca fomos de falar do passado, da dor, nós queríamos pensar o presente, o futuro… (não tenho as palavras exactas, mas os olhos de Eugénia brilharam).
Falou também do despertar “para a vida no sentido de olhar para fora de si ao mesmo tempo que se constrói interiormente, que se tenta ser coerente, ser honesto consigo próprio, ter certas características humanas" (ela não gosta de dizer qualidades!)

Encontrei num livro aberto ao acaso, uma flor de buganvília vermelha e já não sei se fui eu que a ali deixei mas imagino que sim… é um delícia encontrar assim objectos nos livros. E nessas páginas li…

“Não era de noite nem de dia quando a morena, nua e tremendo, depois dos primeiros interrogatórios, ergueu ao de leve a venda que lhe cobria os olhos. Tempo morto. Tempo sem medida. A morena viu-se suja de hematomas causados pelas pancadas, de queimaduras deixadas pelos eléctrodos. Então mordeu os lábios e com todo o amor do mundo murmurou:
«Não falei, não lhes disse nada, não me venceram».”


No livro: As rosas de Atacama.



E quieta, muito quieta voltei a pensar na revolução e na Eugénia. Voltei a pensar em mim. Encontrei depois aquela frase: “Estive aqui e ninguém contará a minha história” (frase gravada no campo de concentração de Bergen Belsen, Alemanha). Arrepio. Silêncio.
A leitura, a escrita, o cinema, a música, o teatro, as viagens, a fotografia, a pintura, o querer saber das coisas e das pessoas...tudo o que podemos encontrar para nos tornar melhores, para sermos melhores… o que estudamos e descobrimos… Vale para quê? Para passearmos isso numa sedução qualquer estúpida? Vale para quê? Que farei com isso? Que farei comigo, os meus tendões, os meus caracóis, as minhas palavras para que o mundo seja um raio de um sítio melhor? Que farei para que não se gravem mais frases assim?

Cuspo
"UM MORTO É UM ESCÂNDALO, MIL MORTOS SÃO UMA ESTATÍSTICA,

afirmou Goebbels, e o mesmo repetiram e repetem os militares chilenos ou argentinos e os seus cúmplices disfarçados de democratas. O mesmo repetiram e repetem os Milosevic, Mladic e os seus cúmplices disfarçados de negociadores de paz. O mesmo no-lo cospem os autores de massacres na Argélia, tão perto da Europa."

Luís Sepúlveda, "Histórias marginais"

E eu pergunto... quantos mais repetem isto? Quantas vezes mais?

13.7.05
como se Deus existisse
A Terra da Alegria de hoje traz contribuções do Timshel, do Cardeal Ratzinger e do Frei Isidro Lamelas:
«como discípulos de Jesus Cristo continuaremos a lutar preferindo a caridade ao direito, a misericórdia à moral, a comunhão à excomunhão.»

[1. Nascimento]
Sou teu. Tiveste-me no teu corpo. Sou teu. Desde dentro de ti, ouvia. Ouvia e sentia. Ouvia as palavras, os murmúrios, as conversas. A água que me resguardava, regurgitava o som que nos meus ouvidos ficava. Uma música. Ouvia uma música. Não tinha voz. Era um som que me parava. E eu não mexia.

Dedilhado. Sereno. E sabia que havia uma voz que sempre ouvia e que em mim ficava. Sempre. Sou teu. Até pelo som dessa voz que depois soube saber que era tua: Divertida. A rir, cristalina de brincadeiras sem palavras.

Raul Iturra

O texto continua muito longo e bonito. Muitas vezes duro. Fez-me parar.
Este homem, no seu falar espanhol, é um gosto de encontrar do outro lado da linha ao telefone, sempre simpático, sempre cuidadoso e gentil. Fiquei com vontade de ler os seus livros... talvez o "Como era quando não era o que sou".

11.7.05
alegria e perdão
Desiludi de novo a Conceição e deixei-a a escrever sozinha na Terra da Alegria de hoje... Resta-me juntar essa falha ao pedido de perdão.

as lições de Londres
Timothy Garton Ash assina hoje no "Público" um artigo sobre os atentados em Londres (link para assinantes). Três ideias:

terrorismo é diferente de guerra
«(...) Um comentador americano dizia "estas imagens mostram que vivemos num mundo em guerra". E todos os músculos do meu corpo gritaram: não, não é essa a lição a tirar do ataque terrorista de Londres.
Londres experimentou em primeira-mão o que é uma guerra. As recordações da II Guerra Mundial estão presente nas suas pedras e tijolos, de uma forma que Nova Iorque não conhece. Embora este ataque tenha causado o maior número de baixas em Londres desde 1945, esta não é uma guerra no sentido que os comentadores americanos pretendem dar. As guerras são vencidas por exércitos. Os exércitos são apoiados por sociedades e economias fortes e serviços secretos; mas continuam a ser exércitos. Isto nunca será uma verdadeira guerra. (...)
Haverá mais atentados destes. O terrorismo não é um exército único que possa ser derrotado, como o "Wehrmacht" de Hitler. É uma técnica, um meio com vista a um fim, que é conseguido com maior facilidade devido aos "avanços" da tecnologia das armas. Será utilizada mais e mais vezes. Até certo ponto, teremos de aprender a viver com o terrorismo, tal como com outras ameaças crónicas. É aqui que os eventos em Londres se tornam mais impressionantes.
»

a resposta ao terrorismo
«A resposta [ao terrorismo] está num policiamento especializado e numa política inteligente. Recusando calmamente a metáfora melodramática da guerra, a Polícia Metropolitana de Londres descreveu os locais do metro e autocarro que sofreram os ataques bombistas como "cenas do crime".
É isso mesmo. Crimes. A polícia, ao trabalhar na cidade com maior diversidade étnica do mundo, desenvolveu técnicas perseverantes de relações comunitárias e de recolha de informação, bem como de investigação após o evento. Isto não impedirá que hajam mais ataques. Não impediu este. Mas um policiamento especializado dentro de fronteiras, e não o envio de soldados para o estrangeiro, é a melhor forma de minimizar a ameaça dos terroristas (...).
Por fim, é necessária uma política inteligente. Foi uma medida correcta tirar pela força a Al-Qaeda do Afeganistão. Pelo contrário, torna-se cada vez mais claro que a invasão do Iraque foi um erro, sendo quase certo que isso criou mais terroristas do que aqueles que eliminou.
»

globalização para o bem e para o mal
«Hoje em dia, os acontecimentos que ocorrem lá longe, em Cartum ou Kandahar, têm um impacto directo sobre nós - por vezes fatalmente, enquanto nos dirigimos para o trabalho, sentados numa carruagem do metropolitano entre as estações de King Cross e Russel Square. Deixou de haver política externa. Talvez seja esta a lição mais profunda a retirar do ataque terrorista de Londres.»

10.7.05
o que será que será
Esperei com toda a paciência de que sou capaz por ter ideias mais claras sobre este assunto e, confesso, continuo a não me sentir capaz de escrever sobre ele. Mas tem de ser. Entre o calar e o exprimir escolho o escrever.
Ataque terrorista em Londres… Oiço piadas, oiço frases como “já toda a gente estava à espera”, “que pontaria incrível precisamente na altura em que todos os olhares estavam virados para Inglaterra”, “hum… um bocadinho falhado este ataque… tão poucos mortos”.
Como é que uma humanidade superou tudo o que sempre se jurou impossível só consegue encontrar duas soluções para este problema?

1- Continuo, feita parva a minha vidinha, especulando sobre qual a próxima cidade que será atacada, tornando-me meia insensível, “mais um”. Assim num processo semelhante ao que acontece entre Israel e a Palestina ou com as diárias mortes no Iraque. Compramos as revistas e jornais com os pormenores do terror até que os saldos ou as férias cheguem.
2- Alio-me à retaliação, às razões que me dão para atacar os países que são ninhos de terrorismo, “espalhando a paz e a liberdade pelas guerras necessárias”.

Não é possível que não encontremos outras formas de acabar com isto. Não aceito que isto se torne normal, numa espécie de justificação “sempre houve guerras” muito enfiados na nossa vida, muito enrolados à volta só da nossa própria realização.
Não aceito a guerra seja pelos motivos que for! Tem de haver outras formas.
Quando me deixo prender por alguém que, ali à distância de uma mão, fala e abre muito os braços, que fala e explica como as emoções vêm da barriga subindo num calor muito grande cá para fora, que fala e percebe que o seu trabalho mexe com o que é mais sensível nas crianças: saúde e alegria de esperança infinita… penso, esta nossa energia tem de servir de algo ao mundo, não serve de nada ser só nossa.
À Flor da Pele. Tenho estado com esta música na cabeça “o que será que será”. Chico deixa três frases:

“o que não tem receita.
o que não tem limite.
o que não tem juízo.”

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Aquilo de que Somos Feitos, da coreógrafa Lia Rodrigues
"Com corpos delineados e flexíveis, os bailarinos criaram formas impressionantes"

9.7.05
Gente, Pessoas e Humanos com letra grande por favor!
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Eu tenho um anjo
Anjo da guarda
Que me protege de noite e de dia
Eu não o vejo
Eu não o oiço
Mas sinto sempre a sua companhia

Eu tenho um guarda
Que é um anjo
Que me protege de noite e de dia
A toda a hora
E em todo o lado
Posso contar com a sua vigia

Não usa armas
Não usa força
Usa uma luz
Com que ilumina a minha vida

Ele não
Não usa arma
Ele não
Não usa a força
Usa uma luz com que ilumina
A minha vida


É bonito três músicos juntarem-se para cantar outro músico, já morto ou não. É bonito a homenagem de cantar coisas dos outros. Os Humanos cantaram e mostraram António Variações com alegria e vida, e até do David Fonseca, rapaz sem sal com quem nunca fui à bola, eu gostei no entusiasmo do concerto. Lembraram letras de um daqueles homens deslocados neste mundo, sonhadores de um outro mundo. E que força teve ele!

Como acredito na protecção de anjos da guarda e dos nossos optimismos deixo-vos esta letra de uma música que ainda oiço a Manuela Azevedo cantar...

Temporada de patos
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Explico como me explicaram a caminho do filme: o realizador é um gajo mexicano conhecido por fazer curtas metragens, o filme é a preto e branco e tem aquela música do João Gilberto "o pato vinha cantando alegremente quein quein quein..." (cantarolando).

Talvez por me terem avisado que Fernando Eimcke é um realizador que fazia curtas metragens, encontrei no filme dentro da sua sequência pequenos sketchs que podiam ser curtas (aliás notava-se isso com quebras a negro). O filme é a preto e branco e gostei muito da fotografia, uma sequência inicial poderia caber numa exposição: de imagens sem som, em espaços de zonas degradadas, com um toque de humor (a foto acima é uma das imagens da dita "exposição"); com o desenrolar da história o cuidado com a fotografia e os planos não se perde. O filme começa com a música do pato cantada por uma señorita em espanhol, pensei na altura "um filme que começa assim tem com certeza muitíssimo bom gosto". Duas crianças amigas com a visita de uma vizinha adolescente e de um vendedor de pizzas da telepizza numa casa... dá-nos um filme descontraído, ideal para ver ao fim de uma semana de trabalho. É garantia de boa disposição no fim e de uma boa conversa acerca dos variados sketch's. Está no King.

«¿Por qué los patos vuelan en V? El primero que levanta vuelo abre camino al segundo, que despeja el aire al tercero, y la energía del tercero alza al cuarto, que ayuda al quinto, y el impulso del quinto empuja al sexto, y así, prestándose fuerza en el vuelo compartido, van los muchos patos subiendo y navegando, juntos, en el alto cielo.
Cuando se cansa el pato que hace punta, baja a la cola de la bandada y deja su lugar a otro pato. Todos se van turnando, atrás y adelante, y ninguno se cree superpato por volar adelante, ni subpato por marchar atrás.
Y cuando algún pato, exhausto, se queda en el camino, dos patos se salen del grupo y lo acompañan y esperan, hasta que se recupera o cae.
Juan Díaz Bordenave no es patólogo, pero en su larga vida ha visto mucho vuelo. El sigue creyendo, contra toda evidencia, que los patos unidos jamás serán vencidos.»

o desarrastão
A verdadeira história do arrastão que nunca existiu no Céu Sobre Lisboa. Os posts seguintes discutem donde veio a (des)informação. O mais alarmante nisto é mesmo perceber que a nossa imprensa não consegue dizer-nos com rigor o que se passou naquela tarde em Carcavelos. Foram 500? Não, foram 20 ou 30. Foi um gang organizado que tinha tudo premeditado? Não, foi um grupo de arruaceiros que aproveitou a confusão. No www.eraumavezumarrastao.net há mais. Com explicações do comandante da PSP de Lisboa a reconhecer que o seu comunicado de imprensa foi "infeliz"; a queixar-se do "pressing" dos meios de comunicação social e a explicar que a criminalidade efectivamente baixou nos últimos anos.

desarrastão

aquele a quem Deus ouve
(Samuel)

Não prometo que o que aqui escreva se tenha passado desta exacta forma, mas é a forma de quem olhou, de quem discreta foi fazendo parte desta história.

Começou há muito tempo. Começou por um homem de paz, um homem da terra, do moldar do chão duro, muitas vezes seco, mas fértil. Com muito trabalho o barro fazia crescer, germinava em vida. Um homem que invulgarmente, dizem, tinha a destreza de mãos e de gestos. Era ele quem, na falta frequente dos médicos, administrava as injecções, acompanhava os momentos difíceis. Homem certamente sábio, quieto, sempre no seu lugar definido na mesa… o respeito e o amor daquela mulher de metro e meio que com ele criou 11 filhos. Manuel e Piedade. Patrício.

Ontem morreu um filho. O terceiro. Hoje toda a família se juntou. Todos os amigos acorreram. E mais uma vez os mais velhos estavam lá, com a dor de uma morte que não queriam antecipada à sua. E mais uma vez as crianças estavam lá e viram tudo. Lembrei-me de mim também noutras alturas. E assim começam a entender que as pessoas não desaparecem ou viajam, as pessoas morrem e só continuam connosco se as soubermos ouvir cá dentro. Um ciclo. Um dos mais pequeninos, ao abandonar o cemitério ao colo da mãe, onde tinha feito muitas perguntas, fez o gesto de adeus à campa. Tinha percebido tudo.
Esta família, a família muito grande, que começou com aquele homem, que reconhecemos nas feições dos filhos e naquela mulher, que reconhecemos na fibra das filhas, acolhe sempre a nossa presença com uma felicidade e uma saudade imensas. Formamos uma espécie de clã, onde se espera apenas que sejamos honestos, que sejamos verdadeiros. Gente de paz, gente de força que chora muito com as partidas, mesmo aquelas que já esperávamos. Fragilidade. Uma espécie de clã onde se reconhecem os traços, onde se assiste aos crescimentos, onde se quer saber e se pergunta o que se tem vontade. Depois de muitos anos dizem-nos que estamos bonitas. Os abraços são apertados, aproximam-nos. Também existem os malandros, os que fizeram tudo errado, os que dói só de falar... mas tudo isso é vivido, é partilhado. Existe o sofrimento, mas também existe a sua superação. Sabedorias.
E sem falar de fé é impossível falar desta gente, porque a celebração foi preparada. As leituras e os textos por quem gosta. As flores por quem as cria. As músicas por quem sempre as cantou com aquele irmão. E toda a gente ouviu e rezou com a esperança de quem acredita profundamente. "Com minha Mãe estarei…" (música final) e conseguimos imaginar aqueles olhos verdes recolherem-se no seu colo.
Sinto um orgulho e um privilégio inexplicáveis.

7.7.05
terror em Londres
New York 0911
Madrid 11M
London 0707

Registo das datas do terror.

London subway

Terrorismo
uma_imagem_gira

Ribeiro e Castro acaba de referir à Renascença que os ataques terroristas em Londres tiveram por base "princípios fundamentalistas islâmicos" que procuram "afrontar toda a Europa".

Terei de o corrigir! Penso que "toda a Europa" é demais. Eu e ele sabemos bem, quais são os países que Al-Caeda pretende atingir.
Já agora faço a minha sugestão para a Al-Caeda quando pensar em aterrorizar uma das cidades portuguesas, em vez de escolher o metro de Lisboa ou o eléctrico do Porto procure um cadeirão que há em Bruxelas.

6.7.05
Intervalo
No intervalo entre o estudo da linguagem, da fala, da marcha ou do mais primitivo reflexo de fuga, treino assim:

"Dobry’ den! 5 pivo, prosím."
Espero que entendam e digo então: "děkuji" e pergunto "kolik?"
E aí a cena só se poderá tornar catastrófica, mas com algum tempo e paciência espero poder abandonar o local com uma gargalhada e um "nashledanou".
Os 5 vamos dizer "na zdraví!". E saborearemos mais "rychle" ou mais "pomalu" (já sabemos quem). E assim... "dobře", já se "jídlo" qualquer coisa.


(o 5 terá de ser gestual)
(Este é um post à Zé Pedro! Um desvario, prometo não repetir demasiado)

terra da alegria
A continuação da discussão sobre a liberdade intelectual dos católicos, pelo José. A continuação da leitura do pensamento do cardeal Ratzinger sobre os limites da pessoa, pelo Timshel. Comentários aos comunicados dos bispos portugueses saídos da sua última assembleia pelo Miguel e pelo Carlos. Tudo na Terra da Alegria de hoje. Graced with guts / and gutted with Grace!

5.7.05
A casa I
Um enigma que me ocupava a cabeça distraída. Muitas vezes. Em vários anos. Sempre sem solução. Que casa seria aquela. Sem solução afastava o pensamento dali. Que chatice...

Recordei hoje ao ler Pablo Neruda em "Confesso que vivi":

"Mudava de casa quase diariamente. Por todos os lados se abria uma porta para me proteger. (...) Entre os lugares comoventes que me albergaram, recordo uma casa de dois compartimentos, perdida nos bairros pobres de Valparaíso. Estive ali limitado a um pedaço de compartimento e a um cantinho da janela, donde observava a vida do porto. (...) Enclausurado no meu canto, sentia uma curiosidade infinita. Meditava e fazia deduções solitárias. Por vezes não conseguia resolver os problemas. Por exemplo: por que razão as pessoas que passavam lá em baixo, tanto as indiferentes como as apressadas, se detinham sempre no mesmo sítio?"

Ao lembrar, encontrei:

A CASA

(Toquinho e Vinícius de Moraes)

Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos, número zero


E o enigma permanece.

A Casa II
À volta para a minha casa (casa onde eu sempre morei) descobri esta música.
Aconselho a ouvir.

Minha Casa
(Zeca Baleiro)


é mais fácil cultuar os mortos que os vivos
mais fácil viver de sombras que de sóis
é mais fácil mimeografar o passado
que imprimir o futuro
não quero ser triste
como o poeta que envelhece
lendo maiakóvski na loja de conveniência
não quero ser alegre
como o cão que sai a passear com o seu dono alegre
sob o sol de domingo
nem quero ser estanque
como quem constrói estradas e não anda
quero no escuro
como um cego tatear estrelas distraídas
amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas
tempestades que não param
pára-raios quem não tem
mesmo que não venha o trem não posso parar
veja o mundo passar como passa
uma escola de samba que atravessa
pergunto onde estão teus tamborins
pergunto onde estão teus tamborins
sentado na porta de minha casa
a mesma e única casa

A Casa III
Elis canta bem alto as três últimas linhas e faz valer a música por esses segundos.

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Willy Ronis
Nu de Dos (Deena de dos), 1955

Casa no campo
(Elis Regina)

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
e nada mais

4.7.05
terra da alegria
Mais uma vez, qual ovelha tresmalhada, baldei-me à Terra da Alegria de hoje.

3.7.05
NO MORE EXCUSES
uma_imagem_gira uma_imagem_gira

(Live 8)

1.7.05
guerra na terra
A Terra está em guerra! O José entrou na batalha, qual cruzado da Contra-Reforma. Depois de um olhar sobre a história do Iluminismo e do seu impacto nas nossas bandas ibéricas, promete uma conversão a todo o custo do nosso amigo Lutz:

«E agora que vou devolver o Iluminismo para a Enciclopédia de onde o tirei, tenho ainda assuntos a tratar com o Sr.Lutz que anda por aí a dizer que a condição de católico limita a nossa liberdade intelectual através daquele mecanismo terrível e normalizado que ele foi desencantar pelas bandas do marxismo: a tal aproximação voluntária do pensamento. Mas, embora eu seja um homem livre, já estou cansado e este ajuste ficará então para a semana. Pois não eu descansarei enquanto não vir o Lutz a envergar opa para seguir a procissão do Senhor dos Passos!»

o fim do Barnabé
Depois de dez dias fora da bloga, as novidades são muitas. O Barnabé chega ao fim -- polémico em vida, não podia deixar de o ser em morte, com epitáfios a espalhar-se por todos os cantos. O André já explicou que em vez de funeral teremos três dias de carnaval de verão, com piadas sobre o morto e jazz em música de fundo. Fica como contributo o espírito fúnebre de Sá Carneiro, para dizer que também nós estamos de luto:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.



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