31.8.05
1 de Setembro
uma_imagem_gira

Amanhã há um concerto de Jorge Palma no Casino do Estoril, é gratuito e começa às 23h30. Fica o anúncio para quem estiver interessado.

28.8.05
reflexões de férias
Algumas reflexões de férias. Não são minhas, mas do Zé Maria Brito. Roubo-as sem descaramento:
«1 – Porque é que, quando se fala de comentadores ou analistas, os mais pessimistas são geralmente os que são considerados mais lúcidos e brilhantes?
2 – O que se passa com as pessoas que chegam ao final das férias mais cansadas que no seu começo?
3 – Considerar-se detentor de uma Verdade Absoluta não será cair na tentação de ser detentor de Deus?
4 – O que nos leva a rotular de ingénuas aquelas pessoas que confiam em toda a gente e que conseguem ver bondade em todo o lado?


E acrescento:
5 - Há quem não trace objectivos para a sua vida e escolha andar ao sabor da corrente. É um modo de vida possível e há quem seja feliz assim, sem querer fazer escolhas. Resta saber se as escolhas se farão certas substituindo quem as não quer fazer. Também há quem tenha tudo meticulosamente planeado de antemão e faça constantemente o balanço da sua felicidade em função dos objectivos traçados. Que espaço fica para o inesperado? Que espaço para nos ultrapassarmos a nós próprios e aos nossos objectivos mesquinhos?

regresso e ausências
Regresso de férias e encontro ausências.

Ausente o irmão Roger de Taizé, assassinado num momento de oração perante milhares de jovens. No funeral, o cardeal Walter Kasper lembrou-o como um comtemplativo que não suportava a divisão entre os povos nem a divisão entre os cristãos. Um contemplativo que tornou a pequena aldeia do Sul da Borgonha num farol para os que buscam a paz.
A minha geração cresceu acostumando-se a ouvir insultos. Creio que esse hábito de maldizer "os jovens" se deve ao medo do futuro: quem melhor que "os jovens" representa o que há-de vir? São pertinentes as últimas palavras do sábio irmão Roger: «Quanto a mim, iria até ao fim do mundo, se pudesse fazê-lo, para afirmar e voltar a afirmar a minha confiança nas jovens gerações.» Assim fez. Foi até ao fim.

Ausente a floresta aqui em frente, reduzida a cinzas. O cheiro a fuligem paira no ar e entranha-se na casa. Decidi fotografar esta catástofre, para não esquecer até onde ela pode ir. Entretanto deparei-me com o artigo do Fernando Ilharco onde ele psicanalisa a nossa neurose com os incêndios:
«Se as catástrofes de facto nos protegem de algo pior, então nos incêndios deste e dos outros verões deve entender-se que a incompetência nos poderes fácticos, o medo generalizado da qualidade dos outros, o poder da mediocridade, a incapacidade do estado e da sociedade civil, que tudo isso, de alguma forma é um esforço derradeiro de palavra Portugal, um aviso final, um grito surdo da história na esperança de que algo possa ainda acontecer. Mas hoje o mundo vive outras catástrofes e pode ser demasiado tarde.»
Risco o pessimismo da última frase e espero que este fogo destruidor possa ser também o fogo simbólico que nos transforme. E fotografo para fazer memória.

26.8.05
Carta de Mãe de Pinóquia



Queria deixar expresso, a cada um dos animadores , directores e à mamã do campo de pinóquios um obrigado imenso.

Parece um obrigado qualquer, um desses educados, mas não é. É um obrigado imenso, como imensa veio a filha que fui buscar a Santa Apolónia numa tarde de Agosto. No fim dos comboios.

Ela trazia o nó na garganta do fim da linha, do fim dos dias e do fim , do que sentimos na hora, do mundo. Enrolou os braços na confusão de nos reencontrar e na vontade de não chegar. Enrolou a alma na comoção da hora, cantou “ Dias que passam “ como quem chora. Olhou-me intensa como quem diz que agora temos mais uma cumplicidade, esta a de fazer campos, esta a de ser do MOCAMFE. E estava uma luz bonita, um derrame dourado sobre a linhas dos comboios. E estava o rio tão perto. E também eu fiquei com um nó.

Também eu que a sei, fiquei feliz e supresa. Porque mais do que uns dias com estrelas, com o prado, com a desarrumação da tenda, com a saudade escondida (“ oh mãe... eu ás vezes tinha saudades e escondia para não me verem as lágrimas.... mas eu queria ficar dez dias como os turrinhas... mas eu já não me lembrava da tua cara e da do pai !”) com as rodinhas, com as canções ( “ ainda não posso apreender a tocar viola , tenho as mãos pequeninas “), com as caminhadas , com os amigos secretos, com os banhos de água fria e as latrinas ; mais do que uns dias diferentemente divertidos, ela soube a imensidão. Ela viveu e sentiu essa coisa indizível de que se faz o MOCAMFE. Talvez isso me tenha surpreendido.
Sabia que ao escrever-lhe o nome na ficha de inscrição lhe estava a escrever a hipótese de crescer o mundo. Sabia que ao deixa-la no comboio a estava a deixar ir mais longe. Mas não tinha pensado, com vagar, que lhe pudesse acontecer já essa imensidão . (“ Mamã achas que eu já tenho a tenda na alma ? .... já tenho. Mas falta-me por as malas. Nos próximos campos ponho as malas na tenda “). Não tinha pensado, com vagar, que tudo isso lhe coubesse já na alma... tão pequenina lhe é a vida.

Isso deixa-me muito feliz. Que maior dádiva pode haver ? e que imenso reforço de cumplicidade se criou.

Fomos no carro, para casa, junto ao rio. Cantamos “ São dias que Passam “ até me embargar a voz. Pediu-me para tomar banho de água fria, dormir no chão de casa e lavar a roupa à mão.
Disse-me que já não era .... “ palavra que tem c-a “.... caloira, que precisava de uma mochila maior, que era muito giro dançar com o Zé Milho, que no campo havia a melhor manteiga do mundo, que afinal gosta de salame de chocolate por lá faziam como deve ser, que o Sr. Filipe fez anos e lhe cantaram os parabéns à MOCAMFE, que fizeram uma directa e que os animadores disseram que eram 5h30 da madrugada mas que não tinha acreditado... achava que era meia-noite, que era muito pequenina e quase caia na latrina para ir buscar o papel higiénico, e que havia uma Catarina que era mesmo, mesmo Princesa de Holanda !, e que tinha visto uma constelação que era um papagaio, e que já não tinha medo de aranhas que tinham uma na tenda.... “ oh mãe... não sabia que tinhas escrito Cais de Setembro ...é um bocadinho seca, é lenta ... “ e perguntou-me se a partir de agora lhe podíamos chamar “ pulguinha “ lá em casa.

Disse-me que não queria que, para o ano, fossem muitos meninos conhecidos as escola aos campos. Para eu não convidar. Como se fosse um segredo, um bocado do mundo e de território da alma que não pode assim ser revelado ao mundo todo. “ Só o Filipe ( Granja )... que vai ser caloiro e eu vou encontrar em Coimbra “.

Perguntou-se se conhecia o Ricardo, irmão da Ana Azeiteiro, que fez de mulher e se conhecia os animadores e porque é que chamava Tecas à Teresa, e se conhecia o Gui da Kuki, e que o Zé Milho tirava muitas fotografias como eu. Disse-lhe que não, que não os conhecia mas os sabia um bocadinho. Só a Tecas com quem, num Caima antigo, tinha ficado na tenda.

Disse-lhe que era uma das mães invejosas que lhes escrevera para o campo, e que isso queria dizer que eu a sabia. Milímetro a milímetro. Simplificou essa inveja de mãe, “ Porque não se arranja um campo de férias para mães e pais ?”

Chegou a casa devagar como quem finge uma tenda gigante. (“ Porque é que nós, família, não podemos ir acampar sem ser no MOCAMFE ?”). Riu-se com a água morna e exclamou “ Nem sei o que é um ice tea !”. Adormeceu enrolada numa manta, num canto de um sofá, sem ter cumprido o pedido de telefonar à Sofia da tenda. Ficou quieta na noite da chegada.

Uhm...tem o mesmo cheiro, esquecido, o da roupa na mochila. Falta apenas o cheiro a fumo das fogueiras. A palha enrolada na roupa. As nódoas e a terra ... e a mochila foi apanhar ar para a varanda.

Acordou triste, na cama da casa dos dias de sempre. Acordou triste por saber que tinha acabado. Passou o dia enrolado nesse dolência triste e feliz. Contou com vagar as fotografias, repetidissimas, ao pai. Olhou-me sempre, castanho profundo, como se eu soubesse o que ela sentia.

Afastou o silêncio com conversa única dos campos. “ Mãe... um dia a Ana perguntou se sabíamos quem era o Hélder... só eu é que respondi. “ .“E o que disseste ?”. “ O Hélder foi quem inventou o MOCAMFE “.

Eu um dia, no dia da morte ou do encantamento, tinha escrito ao Ze David:

“Já sei do Hélder. Suspendo o tempo porque amanhã vou para a ilha. Porto
Santo. Lá, o mar e a areia são imensos e eu vou ter tempo. Vou ouvir mais por
dentro.
Hoje de manhã, na estrada, ouvi propositadamente a Biografia do Amor, do
Sérgio Godinho. Estão em muitas delas, as nossas violas, o nosso frio, a
nossa aprendizagem do amor, os nossos comboios a partirem e a alma
desfazer.
Sei tão bem como foi importante ter crescido com quem cresci, ter feito as
caminhadas que fiz, ter apreendido a ver as estrelas, a ouvir pequenos
ruídos do mundo e da alma... que é impossível eu não ter uma vontade imensa
e poderosa de que, um dia, as minhas filhas possam apreender também tudo
isso. Sobre a minha memória já tive tempo para saber da importância, do
sossego e desassossego, do MOCAMFE e nela do Hélder também. Disse-lho
algumas vezes em pequenas e intemporais cartas ou postais de Natal.
Agora sinto que cumprir o Hélder é permitir que, um dia, as minhas filhas
possam apreender no MOCAMFE as pequenas imensas coisas da vida. Sinto que
isto é mais importante e forte do que sussurrar a memória e tentar
comovidamente dizer-lhe adeus.
Vou chorar, porque dói. Mas vou jurar, que hei-de fazer mais campos pelo
MOCAMFE e cantar uma noite para ele. “

Senti naquela hora que o tinha começado a cumprir. Ela fez-mo saber. Quis depois ver-lhe os olhos azuis na fotografia que lhe mostrei.

“ Tenho saudades do campo “ murmurou ao deitar-se.


E eu disse por dentro : “ também eu “.

Não me despeço de campo algum mas tenho presente a despedida. Tenho todos os outros pais invejosos tão perto de mim e sinto o que sentia quando deles me despedida, na mesma estação, agora feita azul no nosso ocre antigo. E a voz que me embargava ao cantar “ São dias que passam “ era a mesma de quem se despede de quem ainda agora mesmo estava ao lado à espera do comboio, a mergulhar na cerveja, a trocar as linhas da chegada. Como se vivesse as pontas da eternidade. A sabedoria do tempo, essa coisa pequena de ser para sempre.

Queria deixar expresso, a cada um dos animadores , directores e à mamã do campo de pinóquios um obrigado imenso. Certa de que este agradecimento é partilhado pelos outros pais invejosos. Carta de uma mãe, de uma qualquer, de pinóquios.

Helena Morais
Agosto 2005

25.8.05
Nossa terra
"Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João,
Eu perguntei a Deus do céu, ai,
Porque tamanha judiação?"

(música Asa Branca de L. Gonzaga e H. Teixeira)


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O cio da terra
(Milton Nascimento e Chico Buarque)

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão

Hoje vi um vídeo em que estes dois senhores, de que gosto tanto, cantavam juntos esta música - Cio da Terra. Encontrei depois esta senhora bonita de mãos vividas de trabalho e resolvi manter o blog em mãos na terra mesmo durante férias de verão.

Ficam como um abraço forte nosso às pessoas que têm lutado a favor da terra contra os fogos incompreensíveis de norte a sul.

17.8.05
Para a dona destes corpos pela foto



Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola sozinha
Cansada com minhas meias três quartos
Rezando baixo pelos cantos
Por ser uma menina má
Quem sabe o príncipe virou um chato
Que vive dando no meu saco
Quem sabe a vida é não sonhar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Bobeira é não viver a realidade
E eu ainda tenho uma tarde inteira
E eu ando nas ruas
Eu troco cheque
Mudo uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo o meu pileque
E ainda tenho tempo pra cantar
Pra cantar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu ando nas ruas
Eu troco cheque
Mudo uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo o meu pileque
E ainda tenho tempo pra cantar
Pra cantar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu sou poeta e não aprendi a amar

(letra de Cássia Eller, aconselho vivamente a quem não conhecer)

Mocamfe - Turras 2005



"Para pensar noutra coisa, comecei a folhear um velho album de fotografias que o meu irmão tem. Há várias fotografias minhas. Sou pequeno. E muitas vezes estou vestido com roupas muito estranhas. De veludo. Sempre de veludo.
Em pequeno devia ter uma autoconfiança fora de normal."
(em Naif Super de Erlend Loe)

Fui-me tentando lembrar ao longo dos 10 dias de como eram quando eram pequenos e de como eu era. Incrível esta coisa de os ter visto crescer, de me ter visto crescer. Chegado a casa sinto uma ponta de orgulho por eles e por mim. Pelo humor, a arte de ter prazer em rir.


"Ele manda-me um fax de volta e diz que o vácuo é nada. Sem ar. Sem nada. Isso é o vácuo.
Esperava que fosse algo mais. Mas no fundo chega. Se não é nada, não há razão para defini-lo de forma mais complicada"
(em Naif Super de Erlend Loe)

Chegar é o vácuo. Despe-se a mochila até formar um monte de roupa castanha suja. Enquanto a despimos vamos encontrando as saudades e um deles de cada vez. Num caderninho de lembranças escritas, num teréré-pulseira, em fotografias, no amuleto, num cigarro, num café, numa conversa, na memória. Já preenchemos esse vazio, ainda continua tudo a fazer sentido como saltar por cima de uma barreira sem tocar nela.

Mais nostalgia de verão



CANZONE POPOLARE (de Ivano Fossati)

Alzati che si sta alzando la canzone popolare
se c'e' qualcosa da dire ancora, se c'e' qualcosa da fare
alzati che si sta alzando la canzone popolare
se c'e' qualcosa da dire ancora, ce lo dirà
se c'e' qualcosa da imparare ancora, ce lo dirà

sono io oppure sei tu, che hanno mandato più lontano
per poi giocargli il ritorno sempre all'ultima mano
e sono io oppure sei tu, chi ha sbagliato più forte
che per avere tutto il mondo fra le braccia
ci si e' trovato anche la morte
sono io oppure sei tu, ma sono io oppure sei tu

alzati che si sta alzando la canzone popolare
se c'e' qualcosa da dire ancora, se c'e' qualcosa da fare
alzati che si sta alzando la canzone popolare
se c'e' qualcosa da capire ancora, ce lo dirà
se c'e' qualcosa da imparare ancora, ce lo dirà

sono io oppure sei tu la donna che ha lottato tanto
perché il brillare naturale dei suoi occhi
non lo scambiassero per pianto
e invece io lo vedi da te, arrivo sempre l'indomani
e ti busso alla porta ancora e poi ti cerco con le mani
sono io, lo vedi da te, mi riconosci, lo vedi da te

alzati che sta passando la canzone popolare
sono io, sono proprio io, che non mi guardo più allo specchio
per non vedere le mie mani più veloci, ne' il mio vestito più
vecchio
e prendiamola fra le braccia questa vita danzante
questi pezzi di amore caro, quest'esistenza tremante
che sono io e che sei anche tu, che sono io e che sei anche tu

alzati che sta passando la canzone popolare
alzati che si sta alzando la canzone popolare
se c'e' qualcosa da dire ancora, ce lo dirà
se c'e' qualcosa da capire ancora, ce lo dirà
se c'e' qualcosa da chiarire ancora, ce lo dirà
se c'e' qualcosa da cantare ancora, ce lo dirà.


Pelas estradinhas apertadas da serra de Cinqueterre cantava-se muito de noite e de dia no corajoso panda. A certa altura parámos para comer e sentados para a lua resolvemos brincar aos filósofos e aos poetas. De um lastro de lua no mar para cada um e do mesmo para todos ninguém se esquecerá. Depois seguimos para dormir na praia, nós e a garrafa de vinho.

A Canzone Popolare de Ivano Fossati foi a que se cantou mais alto, empolgante.

14.8.05
Apenas para aguçar a curiosidade…


(foto do zé pedro )

América Latina no próximo Comtextos, escreveram-nos:

Raul Iturra
Walter Prysthon
Luis Nascimento e Nós do cinema
Pepe Nuñez
Susana Viegas
Zé Pedro Marques
Alba Mejía
Jorge Gonçalves
Diego Parra Duque.

No comactualidade: Ondjaki.

Para assinar ou saber como o fazer.
Podem escolher assinatura de dois anos a partir do número 39 e recebem também os números sobre África, América do Norte e Ásia.
Confesso que me dá um certo gozo conhecer o Comtextos, ter aqui a maquete na mão e ainda ninguém o poder ver... um certo gostinho antes de o libertar! O próximo gosto é recebê-lo já editado, desfolhar muitas vezes, verificar que tudo ficou bem. Sentir que muito de nós está ali.

13.8.05
o ecrã
O ecrã. O escuro. O silêncio. O filme.
"Queres ir ver um DVD lá a casa?" E lá tenho eu que passar (outra vez) por antipático. Filmes a sério é no cinema. Não é só o ecrã grande, que hoje já aparece em algumas casas. Não é só o escuro, que é facilmente imitável. É estar ali, completamente para o filme. Entrar naquela história que por uns minutos se torna real. Bénard da Costa dizia que há uma certa dimensão onírica em ver um filme. Faz-se escuro e como que adormecemos para entrar no sonho que passa no grande ecrã. Cinema é sonhar acordado. Ver um filme em casa é uma sesta mal dormida.

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a Europa e o Cristianismo
Embora estejamos em tempos de férias, este blog mantém a sua (inebriante) actividade habitual. Desta vez o texto que está já aqui a seguir mereceu um comentário e um post de resposta do Filipe Alves. Nas caixas de comentários dos dois blogs há mais umas bocas. Vamos à discussão que interessa, que é a da necessidade de evangelizar a Europa e do que é que isso significa.

Quando digo que concordo com Ana Vicente em chamar hoje a Europa de cristã, o que pretendo enfatizar é que muito do bom que aqui se vive veio do cristianismo (obviamente sem exclusivos e com muitos erros e pecados): direitos humanos, liberdade religiosa, laicidade, noção da dignidade da pessoa, noção de bem comum, bem estar, direitos sociais, etc. E isto não são apenas conquistas materiais que o cristianismo supera largamente, como o post do Filipe parece indicar. Como ele diz, o cristianismo não é uma mensagem política, mas é uma mensagem com valores que têm tradução na vida política da sociedade. Por isso a Igreja vai produzindo a sua reflexão sobre a sociedade nos textos da doutrina social da Igreja. Naturalmente, como afirma o Filipe, «a doutrina cristã transcende em muito os valores sociais de "liberdade, igualdade, fraternidade, justiça e paz"». Isso hoje é fácil de perceber, quando esses valores estão (minimamente) acentes. Mas é só olhar para a história do século vinte para perceber como a paz, a justiça, a igualdade foram conquistas complicadas, onde o cristianismo teve um papel libertador essencial. Não creio que a fraternidade esteja tão acente como os anteriores. Até entre os cristãos há quem não seja sensível à necessidade do combate à pobreza... E a paz também não vive dias felizes.

Sem pretensões de fazer um diagnóstico aos problemas da Europa e da vivência do cristianismo, avanço só mais duas ou três questões:

Uma: hedonismo vs. aceitação do sacrifício. A "aceitação do sacrifício" que faz parte da mensagem cristã é difícil de entender na nossa sociedade consumista. Mas é preciso explicar que não é o sacrifício por si só que tem valor. Ele tem valor se for uma oferta, quer dizer, se for feito com um fim que o ultrapasse. Pregar o sacrifício por si só tem pouco sentido. Depois de tantos anos a ouvir que o prazer era pecado, é natural que agora ninguém ligue à questão do sacrifício. Por isso tenho muitas dúvidas quando oiço aqueles discursos que contrapõem o "ser" e o "ter", como se os cristãos fossem umas almas imateriais que passam sem um bom almoço.

Duas: a "Entrega total a Deus e ao próximo". Parece-me que falta concretizar e discutir o que é que significa hoje essa entrega a Deus e ao próximo. E aqui voltamos a questões políticas: solidariedade, atenção às situações de pobreza, solidariedade intergeracional, problemas ecológicos, terrorismo, conflitos e situações de miséria subsistentes,... A Europa tem um papel essencial de ajudar ao desenvolvimento de outros povos. Para dar um exemplo, a Igreja devia pregar o sacrifício de acabarmos com os subsídios à nossa agricultura para abrir o comércio aos produtos dos países subdesenvolvidos.

Três: discordância teológica. Não concordo que "enquanto cristãos, acreditamos que a vida que realmente interessa não é esta pobre existência terrena, mas sim a que há de vir". Caso assim fosse, de facto, a taxa de alfabetização e a esperança média de vida não eram para nós preocupações. Mas são. A mensagem cristã é clara quanto a isto: o Reino de Deus -- a dimensão de Deus -- não é uma recompensa de bom comportamente no final desta vida miserável. Entrar na dimensão de Deus, viver aqui e hoje a boa notícia anunciada por Cristo implica o empenho total nos problemas deste mundo. Afinal, se acreditamos que o próprio Deus veio ao mundo, é porque o mundo é um local muito especial. O Reino de Deus começa aqui e hoje, nesta nossa magnífica existência terrena.

5.8.05
a Europa cristã
Ana Vicente publica hoje no "Público" um texto interessante e pertinente. Chama-se "Os melhores alunos do cristianismo" e fala sobre a Europa. Essa Europa que continuamos a ouvir dizer ser necessário "recristianizar". Recristianiquê? A verdade é que a Europa é dos melhores sítios para se viver hoje. E é-o, como diz Ana Vicente porque os valores cristãos impregnaram na nossa cultura:
"(...)as populações que vivem na Europa, quer o reconheçam ou não, foram beber nos Evangelhos os seus valores mais preciosos: a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a justiça, a paz. É por isso que podemos afirmar, sem qualquer hesitação, que a Europa nunca foi tão cristã como agora.»

O "re" de "recristianizar" é particularmente absurdo. Alguém pretende voltar ao passado? A qual? Ana Vicente recordo os "bons velhos tempos" da nossa Europa católica:
«Milhões de europeus, entre os quais eu me incluo, viveram outros tempos mais sombrios e têm memória. Será que a Europa era mais cristã quando admitia a pena capital? Quando não considerava as crianças como pessoas, sujeitos de direitos? Quando as legislações discriminavam as mulheres, na família, no trabalho e na vida social e política, por serem mulheres? Quando não havia sistemas de segurança social, deixando os desempregados e os mais velhos na mais completa miséria? Quando não havia liberdade de expressão? Quando o método para resolver os conflitos era o recurso à guerra? Quando existiam os gulags e os campos de extermínio? Quando havia elevadíssimas taxas de analfabetismo? Quando homens e mulheres podiam ser legalmente hostilizados e até encarcerados, porque eram homossexuais? Quando os filhos nascidos fora do casamento eram discriminados na herança e impedidos de entrar para o Seminário? Onde em muitos países europeus havia sistemas políticos ditatoriais de direita ou de esquerda, que atentavam gravemente contra os direitos humanos? Onde não havia leis de trabalho, permitindo, assim, a mais abjecta exploração de crianças e de adultos, quanto a condições e a salários?»

Não há nada mais relativizador do que alguém a querer tornar absoluto aquilo que o não é. E há muita coisa que ainda é demasiado absoluta na nossa Igreja. Para o cristão só Deus é absoluto. O resto "é vaidade e vento que passa":
«Cada vez mais os cristãos europeus, católicos, ou de outras comunidades cristãs, como seres pensantes, sabem em que consiste a essência da sua fé, o maior dos mandamentos: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei." Por isso não entendem, ignoram ou lamentam, a insistência em normas eivadas pela sedimentação do tempo, por parte do Vaticano, com toda a relatividade que isso implica.
Sabem que o que é importante é serem responsáveis pelo nascimento e pelo cuidado dos seus filhos, ao longo da vida e que todos os métodos contraceptivos, quaisquer que eles sejam "iludem a natureza". Por isso os utilizam em total boa consciência. Sabem que é obrigatório, por imperativo moral, ajudar a diminuir a incidência do HIV-sida recorrendo, também, à promoção do uso do preservativo, não como remédio milagroso, mas como parte importante de uma política de prevenção. Sabem que a exclusão das mulheres dos ministérios ordenados é uma contradição gritante face ao valor da igual dignidade de todos os seres humanos, criados por Deus. Sabem que o casamento não é incompatível com o serviço do próximo, ou seja não percebem qual a mais valia da imposição do celibato obrigatório aos padres católicos. Sabem, ainda, que um processo participativo na escolha das autoridades civis ou religiosas é sinal de maturidade e civilização.
É este o desafio que a instituição Igreja Católica tem que enfrentar. Ao fazer acusações de relativismo moral, e mostrar descontentamento connosco, não estará esta a afastar precisamente os seus filhos mais obedientes, aqueles que concretizaram com alguma perfeição a mensagem evangélica embora, em muitos aspectos, com grandes falhas? São antes estes que estão a rejeitar o relativismo moral, na verdadeira acepção da palavra. Como bons alunos que são, sabem que na vida terrena nada jamais está adquirido, e que é sempre necessário procurar fazer mais e melhor. Por isso, não aceitam pôr em causa os valores que, em aliança com os seus irmãos de todas as confissões (ou de nenhuma), com tanto esforço, conseguiram transpor para o seu dia-a-dia. Valores que conseguiram integrar nas instituições políticas e sociais europeias, tendo em vista a dignidade terrena de milhões de pessoas.
»

preservar a memória
"Quero que a minha memória se preserve" — dizia um sobrevivente de Hiroshima, hoje, com uma lágrima nos olhos, mas com o seu inevitável sorriso japonês. "Não quero que se esqueça o que eu vi. Lembrei-me disso por causa do meu neto." — a memória é um dever para com as gerações futuras. Faz amanhã 60 anos que o mundo conheceu o horror total da guerra atómica. Hoje, a Greenpeace recorda os compromissos de desarmamento não cumpridos pelos oito estados que possuem arsenais nucleares:

«"To honour those killed and to make sure what happened here in Hiroshima never happens again, we must work together to create peace"

peace dove

astronautas
Quem diria que os problemas dos astronautas iam ser... as telhas?

telhas discovery

2.8.05
Capela dos ossos II
uma_imagem_gira

A certa altura e depois do espanto inicial de descobrir aquela "noção" de ossos acumulados, que põe tanto em causa o tratamento que tivemos para lidar com a morte desde pequenos, uma amiga minha desabafa: "Sinto-me tão viva".

1.8.05
edição de luxo
A Terra da Alegria foi de férias. Mas antes, fica uma edição antológica que por lá foi passando:

Miguel Marujo. a erradicação de deus.
Carlos Cunha. A rush and a push and the land that we stand on is ours. Colateral.
Timshel. Fazei o que Deus quer e não o que Ele manda.
Vitor Vicente. De que fala a minha avó quando fala de Deus.
Fernando Macedo. A pata do urso.
Porfírio Silva. A Tecnologia do religioso.
Gabriel Silva. Carta a propósito do texto, “O MEU CORAÇÃO BATE À ESQUERDA”.
Manuel António Ribeiro. A crise actual e a urgência do testemunho cristão.
Milene. Tonalidades de céu.
Zé Filipe. A história nunca pode ser travada.
António Marujo. O diálogo inter-religioso é só uma moda?
Marco Oliveira. Para que serve o Simbolismo.
Luís Almeida. Comentário à "Carta aos bispos da Igr.eja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo"
Bernardo Sanchez da Motta. Santo Graal.
Afonso Cruz. Quatro grandes alegorias.
Maria da Conceição. Olhares sobre a Igreja – Eucaristia.
Filipe Alves. O Constantinismo.
Marvi. Caminhar, apesar do mal.
Helena Araújo. Aprender com Buchenwald.
C.M. Retractação, Amizade e Espírito - 1. Do lugar das virtudes.
Zé Maria Brito. Com as mãos na Terra – Os cristãos e a política.
Christian Bitencourt. O segredo do Reino.
Varqa Jalali. O Papel da Religião na Sociedade: uma perspectiva bahá'í.
Ludwig Krippahl. Nada para além da razão.
Cbs. Porque sou Cristão.
José. Job ou o princípio da incerteza.
Lutz. O segredo da morte.

Capela dos ossos
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"É tão difícil entender a morte, é urgente amar a vida."

Adeus que aqui ficamos enquanto te vais embora. A despedida é ao teu corpo antes de tudo, são com ele que tenho recordações, é ele que aqui está branco e morto. Agora abraçamo-nos com força aos que cá ficam e de quem gostamos, encontramos nos outros a nossa mesma tristeza e novos engenhos para encontrar coragem. Acabar não é fácil, nunca estamos preparados. O sentido da vida é a morte e ao ver-te sentimo-nos vivos e acreditamos com força crescente na vida, na tua.

Para onde vais tu? Para lado nenhum, acabaste. E tiveste cá o que quiseste e como quiseste ou pudeste. Para onde vais tu? Para as histórias contadas uns aos outros com humor, para o choro, para a memória. Ensinam-me quem foste.

No fim pensamos em começos. Para os vivos "chega aonde tu quiseres, mas goza bem a tua rota".

A Prova

Luis Felipe Vieira há pouco mais de um mês dizia assim em entrevista ao jornal da SIC "o estádio já está pago"
agora temos a prova...
"O Benfica "hipotecou" à Somague os jogadores Petit, dos Santos, Fyssas, Geovanni e Carlitos como garantia para o pagamento das dívidas de construção do novo Estádio da Luz." Rádio Renascença



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