30.9.05
Reconhecimento à Loucura
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descermos abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?

E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

José Almada Negreiros

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Esta loucura boa que nos faz “fazer dos abismos descidas de recreio”, atrevida e misteriosa. Novidade e Mudança.
Não é fabuloso entrarmos numa livraria onde apetece levar todos os livros, nada da nossa área de estudo, só coisas que não precisamos… olhar um livro em que nunca tínhamos pensado, desfolhar, e sem pensar levá-lo à caixa em passos largos e dizer “era este!”?
Deve ter sido esta loucura a explodir lá dentro. Melhor ainda quando não fica só aquele momento, o gozo continua.

26.9.05
Terra da Igreja
Na Terra da Alegria de hoje a Maria da Conceição apresenta uma bela síntese do evangelho lido nas missas de ontem:

«Ao contrário de a Igreja andar sempre à procura e a reagir àquilo que ela considera serem os obstáculos à sua acção, nomeando “inimigos”, tais como o sincretismo, o relativismo, o facilitismo, o naturalismo, o subjectivismo e outros “ismos”; deve, ela própria, fazer uma profunda conversão interior, que abranja todas as suas estruturas e agentes pastorais, deste a Hierarquia aos fiéis leigos. Conversão, que a leve a olhar para si e veja com verdade, em que é que tem posto o seu empenho. Se é em crescer e manter as suas estruturas, onde a hierarquia assume o papel preponderante de tornar visível o rosto da Igreja. Onde os dogmas e o Direito Canónico foram, substituindo o Evangelho. Ou, no seguimento de Jesus Cristo, reconhecer-se como o pequeno grão de mostarda (Mc 4,30-32) que sendo a semente mais pequena, dá fruto que permanece.»

os bons políticos
Hoje arranca oficialmente a campanha para as autárquicas. Em termos mediáticos, pouco se vai dar pela diferença. Continuaremos a ter as mesmas páginas de jornais que, já há umas semanas, têm sido preenchidas pelos assuntos quentes das principais cidades do país. Vamos ter os mesmo debates televisivos a que nos habituámos, mais aperto de mão, menos aperto de mão. Curioso é o destaque dado aos maus políticos, aqueles de quem toda a gente diz mal, mas que se arriscam a ganhar o poder nos respectivas feudos. Por isso, hoje que começa a campanha, queria aqui lembrar os bons políticos. Aqueles que se candidatam à junta ou à câmara da sua terra com umas réstia de sentido de dever cívico. Aqueles que nunca aparecerão na televisão porque não têm sacos azuis ou de outra cor qualquer e que apertam a mão a todos porque não têm camâras que filmem as suas fitas. Aqueles que vão abdicar dalgumas horas de conforto para se preocuparem com a coisa pública e que vão aceitar que o seu nome ande de boca em boca pelas boas e más opções que fizerem. Aqueles que fazem campanha porta a porta mesmo desconfiando da possibilidade de vencerem.

22.9.05
"Agora que o silêncio é um mar sem ondas"
Foi Miguel Torga que escreveu... porque o dia passou, o silêncio acalmou, os olhos piscam e não encontrei um poema que pudesse dizer...
Lembrei um conto e a frase "sei um ninho", uma frase que lembro sempre a minha professora da primária ler enquanto eu imaginava o gesto que ela não faria, entre as palmas das mãos formar a palavra.
Sei um amigo. E esse meu amigo não cabe em poema nenhum. Sei um amigo que não mostra a muita gente que traz poesia com ele, muita poesia e muito jazz lá dentro. E o não mostrar só o torna mais precioso e mais consolado quem recebe. O meu amigo ontem deixou-me doidinha de orgulho. Pena não lhe ter conseguido dizer. Espero que ele saiba...

21.9.05
Ignorância minha II
Porque é que os militares têm possibilidade de tirar cursos superiores recebendo dinheiro (em troca de dois anos de serviço ao exército no fim, pagos também), têm brutais ordenados em missões no estrangeiro onde não fazem nenhum até quando essa é a sua vontade mas os comandos não permitem (notícias muito fiáveis de Pristina), porque é que ganham bons ordenados para se passearem pelos quartéis a vida toda entre continências, exercícios de treino e medalhas e os bombeiros dependem tanto de voluntariado, de maus meios, pouca formação específica, risco de vida contra os fogos que podiam ser evitados e cujo alastramento podia ser prevenido e de ordenados miseráveis?

Ignorância minha I
Penso que era ontem que os militares tentavam (se eu bem percebi) negociar condições especiais para a reforma dos paraquedistas portugueses. Alegavam que era uma profissão extenuante, que os paraquedistas são sujeitos a condições climatéricas duríssimas e que, de facto, devido à sua intensa actividade, sofrem de maleitas de saúde precocemente.

Ora eu pergunto, o que fazem os paraquedistas em Portugal?

20.9.05
sabedoria infantil



ontem lembrei-me desta frase:

"Nunca te enganaste?
(pausa)
Mais burra ficaste!"

18.9.05
Vendaval
Um vento fortíssimo sopra na rua.
Não é um vento furioso, é um vento determinado.
Voam milhares, milhões de folhas de eucalipto queimadas chão fora, ar fora, por cima, muito por cima da minha cabeça no alto do 3º andar!
Um grande amigo, numa cumplicidade de quem nos vê crescer, aparece na minha memória. Encolhe os ombros, ri-se e diz “é preciso morrer para nascer de novo. É preciso queimar para voltar a nascer”.
O vento faz um turbilhão à minha volta. Desiquilibra-me. Despenteia-me. Parece anunciar mudança.

17.9.05
Lancei-os ao chão!


Lancei-os ao chão.
Os 4. Lado a lado. Por ordem de nascença.
Primeiro olhei-os do alto. Demorei-me. Depois sentei-me no chão e vi-os um a um. Pela primeira vez escolhi um de cada para mim, só para mim.
Confesso que me senti orgulhosa do nosso trabalho. Um ano de comtextos terminou. E não fizemos nada de especial, apenas trazer para perto aqueles que admiramos, chegar até eles com delicadeza… afinal não havia nenhuma razão para nos escreverem! E não havia razão nenhuma por acabarmos a conversar tanto, trocar poesia, partilhar dúvidas e esperanças.
Um ano começa… ai.

juggling artists
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Depois de umas horas mais ou menos concentrada na mais terrível das cadeiras do meu curso… mais ou menos a ouvir as conversas à minha volta… mais ou menos flutuando por outras ideias… achei que merecia uma fatia do bolo de chocolate. Ao balcão encontrei outro muito melhor: nozes a maçã. É mesmo esse que eu quero! A rapariga que lá trabalha agora, na preguiça que já lhe reconheço, não estava com vontade nenhuma de dividir o que faltava de bolo ao meio. Ofereceu-me a fatia enorme depois de se certificar que eu não me ofendia. Eu disse que sim pensado que ela não vai resistir ali muito tempo…
Estávamos nisto quando chega um rapaz muito, muito alto e bonito e diz baixinho “cafei con letche”. Ela não percebe e ele repete. Lá dentro do balcão as duas desajeitadas raparigas discutem se é “meia de leite” ou um “galão”. Eu ainda pensei no “pingado” mas não quis piorar a situação.
Eis senão quando eu decido ir pela primeira vez aos Encontros Mágicos de Coimbra, evento com o qual já gozamos porque há todos os anos, monopoliza o TAGV semanas após semanas, uma certa implicância pelo Luís de Matos (que é quem organiza), confesso.
Os mágicos foram muitos e é incrível como a magia já nada tem a ver com as cartolas e as cartas. É um verdadeiro espectáculo que ocupa o palco! O espaço todo com uma só pessoa. Luz e música. Silêncio e suavidade ou energia explosiva.
Andreas Wessels e depois Jojo Weiss foram fabulosos! Vito Lupo foi cativante, sedutor. E quando uma senhora japonesa vem tentar destruir a ilusão explicando-a, finjo que oiço mas não quero mesmo saber!
E não é que o Andreas Wessels era rapaz do café com leite?

15.9.05
Sabedoria do optimismo
"Enquanto o pau vai e vem folgam as costas."

Lá como cá...
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(cartoon peruano)

A poesia e a economia
"Eugénio Gudin definiu a moeda como o instrumento de liberdade de escolha."

"Keynes afirmou que a moeda era um ponto entre o passado e o futuro, um meio de assegurar a continuidade da actividade (económica) através das descontinuidade da realidade presente."

Entre as desatenções e a infelicidade de ter que estudar economia vou-me deslumbrando com a poesia. Deixo-vos estas duas pérolas; manhas e arranjos para enganar a "grande depressão" em busca de maiores "produtividades".

Sobre os jornais
Encontram-se na rua a respeito das cadelas respectivas, parece que as ditas andavam a caçar patos à noite num ribeiro lá perto, outras histórias. Verdade é que, de conversa em conversa, que umas coisas puxam outras, e a modos que por o senhor a quem se dirigia ser Professor, veio à baila a conversa da leitura:

- "Já não leio nada há praí uns 30 anos!" - disse quase orgulhoso.
- "Desde a escola primária não!?" - pergunta o professor ironizando.
- "Nem tanto, que eu já tenho 58." - não se desfazendo - "E nem era livros que eu lia, era jornais. Jornais desportivos", afirmativo. E continua, rematando em chave de ouro: "Mas depois fartei-me, eu via uma coisa e eles diziam outra!"

14.9.05
Grandes objectivos à beira de falhar?
Acerca da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, hoje no Público Teresa de Sousa indica 6 grandes objectivos à beira de falhar:

1- Conselho dos Direitos Humanos
2- Responsabilidade de proteger
3- Terrorismo e segurança
4- Conselho para a Consolidação da Paz
5- Reforma da organização
6- Desenvolvimento

O consenso adivinha-se inviável… cada nação continua a tomar conta do seu quintal e questões fundamentais como a “responsabilidade de proteger” que tenta ultrapassar o princípio da não-intervenção obrigando a ONU a não permitir massacres de qualquer natureza, os "Objectivos de Desenvolvimento do Milénio", adoptados em 2000, para reduzir a pobreza para metade até 2015, ou o desarmamento nuclear continuam a esbarrar na prepotência dos EUA (e não só, claro.)

terra da alegria
Terra de Ecumenismo e diálogo.

12.9.05
os Katrinistas
Hoje, a minha conversa com o Filipe Alves continua pelas paragens da Terra da Alegria.

Na última Terra da Alegria, o CC escrevia sobre os fundamentalistas cristãos que se apressaram a dizer que o terrível Katrina foi a ira do deus terrível em que acreditam:

«Os outros, pobres e negros, ficaram para trás. Não por serem negros, mas por serem pobres e não terem transporte próprio ou dinheiro para fugirem da tragédia. Ficaram para trás, sem casa, com fome e sede, porque o governo federal não agiu nem mandou evacuar a cidade antes do furacão bater à porta. E vetou as verbas para a manutenção dos diques. E... Mas isso não é religião, é política.
Religião é outra coisa. É dizer que Nova Orleães está a sofrer devido aos pecados cometidos pelos pobres negros que lá habitam. Esses pobres pagãos, promíscuos, pecadores de toda a ordem. Esses descendentes de outros com os quais Jesus Cristo comia à mesa em alegres festas há 2000 anos.
»

11.9.05
"inesgotáveis recursos do acaso"
1º dia de viagem, Varsóvia – Cracóvia.
Junto a duas freiras com um “chapéu” branco muito bem passado e luminoso, com os outros 4 entre o sono, o sudoku e novidade de querer ver já o país pela janela da pequena cabine leio:

«Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse coachar violento do que era a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»
dinis machado

10 dias mais tarde, Zagreb – Budapeste.
Releio a frase. Escrevo. Tão verdade…
Um elástico que me prende a mim mas que puxado (não sei como nem por quem) me afasta de mim. Vejo-me de fora e normalmente não compreendo bem. Estranho-me. Eu aqui? Inês? Estranho-me. Ainda não aconteceu esta viagem. Oscilo entre o interior e a brincadeira doida. Paisagens bonitas levam-me a Budapeste. Leve. Lembro a música “leve na lembrança… a singela melodia que eu fiz”

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(havemos de ter a nossa)

9.9.05
Um político de verdade
"Hoje o meu governo submete definitivamente à aprovação da Assembleia o Projecto de Lei pelo qual se modifica o Código Civil sobre o direito de casamento no estrito cumprimento de um compromisso eleitoral perante os cidadãos e perante esta Assembleia.
Reconhecemos hoje em Espanha o direito de as pessoas se casarem com outras do mesmo sexo. Antes de nós fizeram-no a Bélgica e a Holanda e anteontem reconheceu-o o Canadá. Não fomos os primeiros, mas tenho a certeza de que não seremos os últimos. A seguir virão muitos outros países impulsionados por duas forças imparáveis: a liberdade e a igualdade.
Trata-se de uma pequena mudança no texto legal: acrescenta-se apenas um sucinto parágrafo no qual se estabelece que o casamento terá os mesmos requisitos e os mesmos efeitos quer os contraentes sejam do mesmo ou de diferente sexo; uma pequena mudança na letra que acarreta uma mudança imensa nas vidas de milhares de compatriotas.
Não estamos a legislar para gentes remotas e estranhas. Estamos a alargar as oportunidades de felicidade para os nossos conterrâneos, para os nossos companheiros de trabalho, para os nossos amigos e para os nossos familiares, e ao mesmo tempo estamos a construir um país mais decente, pois uma sociedade decente é aquela que não humilha os seus membros.
Num poema intitulado «A Família», o nosso Luis Cernuda lamentava-se: «Como se engana o homem e quanto inutilmente/Dá regras que proíbem e condenam».
Hoje a sociedade espanhola dá uma resposta a um grupo de pessoas que durante anos foram humilhadas, cujos direitos foram ignorados, cuja dignidade foi ofendida, a sua identidade negada e a sua liberdade reprimida. Hoje a sociedade espanhola devolve-lhes o respeito que merecem, reconhece os seus direitos, restaura a sua dignidade, afirma a sua identidade e restitui a sua liberdade.
É certo que são apenas uma minoria; mas o seu triunfo é o triunfo de todos. É também, embora ainda o ignorem, o triunfo dos que se opõem a esta lei, pois é o triunfo da liberdade. A sua vitória torna-nos melhores a todos, torna melhor a nossa sociedade.
Senhoras e senhores Deputados,
Não há agressão nenhuma ao casamento ou à família na possibilidade de que duas pessoas do mesmo sexo se casem. Bem pelo contrário, o que existe é uma corrente para realizar a pretensão que têm essas pessoas de ordenar as suas vidas ajuntando-as às normas e exigências do casamento e da família. Não há uma violação da instituição do casamento, mas sim exactamente o contrário: valorização e reconhecimento do casamento.
Estou consciente de que algumas pessoas e instituições estão em profundo desacordo com esta mudança legal. Desejo exprimir-lhes que, como outras reformas que a precederam, esta lei não produzirá mal algum, que a sua única consequência será livrar seres humanos de sofrimento inútil. E uma sociedade que livra os seus membros de sofrimento inútil é uma sociedade melhor.
De qualquer forma, manifesto o meu profundo respeito por essas pessoas e por essas instituições, alé de quero pedir a todos os que apoiam esta Lei esse mesmo respeito. Aos homossexuais, que suportaram na sua própria carne o escárnio e a afronta durante anos, peço-lhes que à coragem demonstrada na luta pelos seus direitos acrescentem agora o exemplo da generosidade e exprimam a sua alegria dentro do respeito para com todas as crenças.
Com a aprovação deste Projecto de Lei o nosso país dá um passo mais no caminho da liberdade e da tolerância que se iniciou com a transição democrática. Os nossos filhos olhar-nos-iam com incredulidade se lhe disséssemos que não há muito tempo as suas mães tinham menos direitos que os seus pais e se lhes contássemos que as pessoas tinham de continuar unidas pelo casamento, contra sua vontade, quando já não eram capazes de viver juntas. Hoje podemos oferecer-lhes uma bela lição: cada direito conquistado, cada liberdade alcançada foi o fruto do esforço e do sacrifício de muitas pessoas a quem devemos hoje estar reconhecidos e disso nos orgulharmos.
Com esta lei demonstramos hoje que as sociedades podem tornar-se melhores a si mesmas e que podem aumentar as fronteiras da tolerância e fazer retroceder o espaço da humilhação e da infelicidade. Hoje, para muitos, chega aquele dia que evocou Kavafis há um século: «Mais tarde - na sociedade mais perfeita -/ outrem feito como eu/ por certo aparecerá e fará livremente.»


Discurso final de José Luís Zapatero em defesa de uma lei imediatamente promulgada a seguir por Juan Carlos I: a legalização do casamento entre homossexuais.

8.9.05
Colher uma maçã
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Um dia em que eu...
(começo muitas frases assim... normalmente indicam a seguir uma solução que eu gostaria de dar a qualquer coisa que me parece correr mal. E hoje...)
Um dia em que eu monte um infantário (infantário, que palavra tão feia) eu vou fazê-lo numa quinta! Terra. Brincar na terra. Sujar as pequenas mãos. Plantas. Semear, regar, conversar. Animais. Limpar, alimentar, cuidar, chamar.
Aprender a esperar. Aprender os ritmos da vida.
Compreender no nosso próprio corpo os ciclos. A importância da chuva e do sol. A partilha do que criamos com os outros animais... os pássaros, os coelhos, os javalis. Na quinta não haverá armadilhas apenas alguns resguardos. Eles têm as manhas deles porque não aperfeiçoarmos as nossas?
Não precisamos seguir logo para o Pão, o Barro ou os Cozinhados. Isso poderá vir muito mais tarde. Falo de ligação à terra. Muito simples.

Um mestre
"(...) EPÍLOGO
Não creio que no final o homem seja muito mais que as suas histórias. Queria deixar-vos com algumas das que representam este país tão sofrido, mas ao mesmo tempo tão feliz: curioso paradoxo. Quem não vive de paradoxos, está cheio de certezas! E as certezas, para um bom colombiano são na maioria dos casos algo muito, muito aborrecido..."


(excerto do texto com o título Colômbia: as mil e uma noites do conflito de Diego Parra Duque no nº42 da revista Comtextos)


Diego Parra Duque, de que já falei aqui neste blog, e que escreve no último Comtextos, volta a Portugal e ao Centro Comunitário de Carcavelos, de 15 a 23 de Outubro, com três workshops: Humor e Formação, Escrita Criativa e Psicologia e Criatividade.

Eu já estou inscrito e aconselho vivamente a despacharem-se: É urgente aproveitar os mestres!

Medos
Hoje uma amiga mais velha lembrou-me uma menina de cabelos aos caracóis que não conseguia dormir depois de ver filmes de terror... e eu pensei melhor e não eram filmes de terror, era o Batman e aquele assustador pinguim (Danny DeVito, anos mais tarde ri-me)ou um rapaz que não podia viver fora de uma redoma esterilizada.
Ainda hoje me arrepio cada vez que vejo aquele horrível palhaço da McDonalds. Ou velhinhas corcundas e pernas finas que andam demasiado rápido (Roberto Benigni quando se veste de mulher em "La Vita È Bella ").
Teremos sempre medos que não compreendemos, não é?

Os Edukadores
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Apenas 10% da população mundial goza da riqueza produzida, enquanto os restantes 90% vive na pobreza e fome.
No entanto, há suficiente trigo no mundo para providenciar 2000 calorias por dia para cada habitante da Terra. O problema é que o trigo não é bem redistribuído.

90% do mundo está a morrer à fome enquanto os restantes 90% faz dietas.

É PRECISO REDISTRIBUIR A RIQUEZA DO MUNDO!
ASS: OS EDUKADORES


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Nós somos os edukadores.

Acreditamos que a ganância tornou a sociedade gorda e vaidosa.
Desprezamos a alta-sociedade e a sua decadência.
Por isso vamos bater às vossa portas,
Perturbar as vossas vidas e reedukar-vos.

OS VOSSOS DIAS DE ABUNDÂNCIA ESTÃO CONTADOS!
ASS: OS EDUKADORES


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"OS EDUKADORES é um filme sobre os últimos dez anos da minha vida - queria fazer parte de um movimento político sem nunca ter encontrado um que funcionasse.
Acho que vivemos numa época em que os jovens querem que exista uma mudança política, mas não sabem por onde começar. Talvez as nossas sociedades se tenham tornado tão individualistas que a dinâmica colectiva já não seja possível."


Hans Weingartner


Este filme alemão em exibição no King põe-nos muito em causa. Numa altura em que são badalados os resultados do relatório do desenvolvimento humano das nações unidas, depois dos acontecimentos em Londres, no Iraque, em New Orleans (Estados Unidos!?), dos fogos em Portugal (porque não!?), ou numa qualquer passeata pelas ruas de Lisboa (os cartazes políticos para as autárquicas... ufff); torna-se evidente, mesmo para os mais distraídos, que este mundo está a andar ao contrário, aos solavancos.

Dizia há uns tempos um amigo meu qualquer coisa como: "é preciso compreender que não é possível o mundo todo, por inteiro, viver com a qualidade de vida que vivemos no Ocidente. Para que o resto do mundo se desenvolva temos que perder conforto".

Eu não me sinto com coragem, com saber, para me desinstalar e por isso o filme fez-me sentir frustrado num qualquer papel que eu possa ter. Por outro lado, espicaçou-me, incomodou-me. Para onde ir? Quem me ajuda?
Apetece-me dizer, "A revolução não vai passar na televisão!"

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para ler a newsletter têm apenas de "clicar" em cima da imagem e ela aparecerá maior.
insistimos em dizer que vale a pena.

7.9.05
Uma chapada em todos nós
O público lança a notícia:
Morrem 1200 crianças por hora devido à pobreza

"Em todo o Mundo morrem 1200 crianças por hora, ou cerca de 900 mil por mês, devido à pobreza, revela o relatório do desenvolvimento humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Os autores do documento consideram que "está a ser quebrada" a promessa feita em 2000 a todos pobres do Mundo de reduzir a pobreza para metade em 15 anos."

"Por cada dólar gasto em ajuda, os países ricos gastam dez em orçamentos militares, diz a ONU, acrescentando outra comparação: a despesa actual com a sida, uma doença que custa três milhões de vidas por ano, representa o valor de três dias de despesas militares."

"Os sete mil milhões de dólares necessários anualmente, durante a próxima década, para disponibilizar o acesso a água limpa a 2,6 mil milhões de pessoas, é menos do que os europeus gastam em perfume e menos do que os americanos gastam em cirurgias plásticas".



Croácia 2005. Ilha de Brac.

Crianças. Como tantas outras brincam junto aos barcos na praia. Porque é que umas vivem e outras não? Uma chapada em todos nós...

VII - Da Minha Aldeia
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...


Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver

Alberto Caeiro

Ouvi de Laura Cardoso, talvez uma das melhores atrizes brasileiras, hoje na televisão.
Convosco partilho.

Don Giovanni


29 de Agosto. 14º dia de viagem. Praga.
Uma plateia muito pequena. Umas cadeiras de madeira a prometerem o desconfortável. Um palco onde pareciam caber só crianças. Aparece uma cabeleira branca. Pede aplausos, muito desgrenhado e desconcertante Mozart aparece-nos com um metro ali mesmo à nossa frente (a primeira fila era nossa). Foi aparecendo várias vezes. A marioneta cada vez que aparecia fazia-me rir, bastava começar a aparecer aquela desajeitada figura do fundo do palco e já não me conseguia conter. Todos os seus gestos pareciam humanos. Fez o que quis de nós, rimos, apanhámos pautas de música, levámos com pingos de água, fez-nos bater palmas, mandou-nos beijinhos, seduziu-nos, mandou calar quem cochichava... tudo sem uma palavra!
As outras marionetas movimentavam-se lá mais atrás no palco. Era lá que a ópera se passava e "Don Giovanni" acontecia. Conquistas, descobertas, lutas. Aventuras em italiano mas das quais não percebemos uma frase, só intensões, sentimentos. Foi maravilhoso ver aquelas mãos que moviam os bonecos, fabulosa delicadeza, coordenação e concentração. A primeira fila é evitada por isso, porque se vê, mas para mim valeu ainda mais assim. No final os artistas mostraram as caras em suor, felizes brincaram. E nós aplaudimos, aplaudimos muito!

Banho Turco
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Dia 18 de Agosto. Fim de tarde do 3º dia de viagem.
Já nos tinham falado dos banhos turcos em Budapeste e não podíamos perder.
Procurado o equilíbrio entre a beleza do espaço e o preço chegámos à porta de Széchenyi, no parque de Városliget. Um edifício enorme amarelo. Entrámos e descemos aos balneários. Um corredor comprido onde mulheres circulavam sem grande ordem. Os rapazes tiveram menos sorte, uns trocos que não eram florins para o empregado do balneário e não valeu de nada falarem com ele sobre futebol português.

Estávamos os cinco prontos e encontrámo-nos na enorme piscina exterior. A água quente. Cá fora o dia tinha-se tornado frio. E a cabeça arrefecia quando emergia. Não fossem os jogadores de xadrez mergulhados na água na mais absoluta concentração na estratégia do jogo e repuxos de água, que descontraíam as costas ainda não habituadas às mochilas e noites em comboios, nada me fez pensar que valesse ali ficar duas horas como tínhamos pensado... uma sopa. Percebemos então que numa porta pequena entravam e saíam pessoas. Descobrimos dezenas de piscinas dentro dessa pequena porta. Várias temperaturas, devíamos circular entre morna, fria, muito quente, gelada... a ordem ia mudando. Os cenários iam mudando, enormes cúpulas, paredes altas, pinturas mais ou menos recuperadas, salas mais ou menos agradáveis. Piscinas com um circuito de água que nos fazia rodar sem parar sempre à volta. As piscinas geladas sempre as mais pequenas. Descobrimos saunas e chuveiros frios quase-cruéis, quase-alívio logo a seguir.

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As duas horas souberam a pouco e o descanso soube a delícia. A viagem continuava.
"Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir..." Álvaro de Campos.

5.9.05
regresso ao trabalho
A Terra volta ao trabalho, com missas, salvação e sua (não) exclusividade.

2.9.05
balanço da solidariedade
A propósito do 25º aniversário do Solidariedade, Zbigniew Bujak, seu antigo líder numa região da Polónia central e um herói da resistência clandestina durante a lei marcial dos anos 80, escreveu ontem no "Público" um balanço do impacto do movimento na sociedade polaca. "Antes de tudo, o Solidariedade foi um grito de dignidade". E é um pouco do desenrolar desse grito que nos dá a conhecer no artigo. No final, faz o balanço dos dias de hoje -- onde chegou a Polónia, em pleno desenvolvimento económico -- e deixa um grito desiludido: "seria realmente inevitável que o nosso Solidariedade tenha deixado escapar tanta solidariedade?".

«(...) algumas das nossas esperanças de uma nova ordem social esmagaram-se contra a parede das novas regras do jogo. No entanto, as instituições democráticas da Polónia, apesar das suas imperfeições, funcionam bastante bem. O crescimento económico é impressionante e a vida está definitivamente a melhorar.
Mas a energia da sociedade civil, o sentido do destino comum, a manifestação universal da solidariedade social que o nosso sindicato defendia nesses tempos - todas estas coisas desapareceram em grande medida.(...)
Mais importante ainda, o carácter unificador do Solidariedade deu lugar a divisões sociais e a uma grande dose de alienação em relação aos compromissos políticos e cívicos por parte de muitos polacos.
É isto que a normalidade forçosamente significa? Os tempos de luta dão inexoravelmente lugar ao sentimento de vazio da vitória? Serei eu apenas um melancólico veterano, saudoso dos velhos tempos do combate?
Talvez, embora não seja do tipo nostálgico. Sei que percorremos um longo caminho e não quero voltar para trás. Mas seria realmente inevitável que o nosso Solidariedade tenha deixado escapar tanta solidariedade?
»

New Orleans
New Orleans está a ferro e fogo. Depois do catástofre natural, veio a catástofre humana: gangs armados controlam e pilham a cidade desvastada, tornando a vida difícil aos que, já dificilmente, sobreviveram à passagem do furacão Katrina. "Quatro dias depois da tragédia, Nova Orleães tornou-se território de bandidos", dizem as notícias. A governadora do Louisianna já fez saber que precisa de quarenta mil soldados para restabelecer a ordem. Não menos. O cenário faz lembrar o "Ensaio sobre a cegueira", mas numa versão de olhos abertos. Porque é que as catástrofes fazem vir ao de cima o pior que há nas pessoas?

Won’t you come and go with me
Down that mississippi
We’ll take a boat to the land of dreams
Come along with me on, down to New Orleans

(Basin Street Blues)

1.9.05
Personalidades ou deseneagrama
para o João, com uns dias de atraso.

1: simpático indisponível
2: amigável absorto
3: diligente conversável
4: visionário incompreensível
5: mandão desintimidado
6: altruísta inconsciente
7: convencido satisfeito
8: desesperado sequioso
9: irrequieto arrelioso
10: independente cabisbaixo
11: abandonado estridente
12: simpático repelente
13: perspicaz descontraído
14: desprezador presunçoso
15: relaxado socializador
16: atarefado fingidor
17: desorganizado sensível
18: caótico anafado
19: supersticioso desinseguro
20: incompreensível aluado
21: inconsequente comprometido
22: infantil transvestido
23: és pouco de tudo
24: escolhe-te e ri a seguir



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