29.11.05
lembrança
Encontrámo-nos os 5 em casa. Eles os três foram de carro, à frente. Os dois em cuidados com ela. Muito de escuro o cabelo claro ficava-lhe bem. Ele de caracóis escuros e a terceira de caracóis também, lá foram.
Eu e o outro, os meus caracóis e o cabelo liso a esbranquiçar em entradas hereditárias. De autocarro, serenos e confiantes fomos ter à dita sala.
Lá dentro tentei estar atenta, orgulhosa do seu inglês eu fiquei a olhar... mas também contei as lâmpadas fundidas, olhei as caras dos reis lá em cima penduradas, analisei as reacções do júri. Conversei um bocadinho para o lado, disse ao irrequieto de trás (o que me falou das lâmpadas dias antes) que parasse de bater na minha cadeira.
Tudo correu muito bem e ela já é doutora. Minha irmã sempre será.











quem tirou esta foto ficou tão orgulhoso que ela aqui não podia faltar. e o que eu fazia na parede escrito está (esta parte fui eu que reparei e não o fotografo)

25.11.05
Este Sábado: Comtextos no MIL FOLHAS
Tudo começou com uns e-mails para várias editoras de jornais e revistas. Apresentávamo-nos e perguntávamos se não gostariam de conhecer a revista "Comtextos". O que me lembrei foi apenas de trocar publicações, se lemos as outras porque não dar a conhecer a nossa? Todas as publicações teriam a ganhar... porque ideias trazem outras ideias. Várias nos responderam que sim.
Passaram uns meses e recebemos um e-mail. A editora do Mil Folhas tinha enviado o nosso e-mail à coordenadora dos Copy-desks e era ela que me escrevia. Queria conhecer. Enviámos os 4 últimos números.
Fomos conversando bastante, ouvi a sua voz ao telefone.
Hoje chegou o e-mail tão esperado:

Olá Inês,

Afinal, sempre se arranjou um cantinho.
Sai amanhã na página 3 do Mil Folhas, por baixo do Livro da Semana.

Espero que gostem.
(eu fiquei a gostar de vocês.)


RP

Quem quiser ver corra às bancas!

Pausa
uma_imagem_gira

Alexandre O'neill


a imagem não é grande coisa mas hoje ao reencontrar, depois de tantos anos, este poema voltei a acha-lo genial.
vírgula e pessoas e eu.

24.11.05

uma_imagem_gira

Alto e lá longe vi a passarada passar.
Pequenos pontos dançantes sobre o sol que se põe.

Todos os dias os fotografo à mesma hora e no mesmo sítio: a barragem em frente ao meu barraco. Encontrei um ritual habitual para viver, não quero mais imprevistos. A vida já me foi tão cara que me sinto um pechisbeque. Dia a dia, hora a hora, sei tudo o que me vai acontecer, como vou reagir, solitário como escolhi.

Não tenho conseguido e ontem de novo "pus os pés naquela parte da vida além da qual se não pode ir com a intenção de regressar". Encontrei-me de novo e voltei a fechar-me em mim, sem saber que espaço é o meu, que função na sinfonia da vida.

Fotografo mais e mais, obcecado por saber o que vai lá fora. Preciso de imagens, muitas e que não digam nada sobre mim.

A vida tramou-me outra vez, imprevisível no meu hábito. O sol pôs-se como era suposto e eu continuo aqui obcecado por não viver, deixar os dias passar, soltos e iguais...

(texto escrito n'A BARRACA numa sessão da CRIA)

23.11.05
porque não?...
De noite, muito escuro. Não demasiado frio. Depois de conversa boa. Daquela que exige argumentar muito mas também se reconhece o que temos de comum. Despique. Amizade.
No carro para casa a música que me apetecia, bonita. A minha rua esperava-me no vendaval habitual… não conheço mais lugar nenhum na cidade onde se forme este túnel de vento. Leva tudo e agrada-me quase sempre. Furioso.
Lembrei-me de como pode ser bom o vento que se sente quando um grupo de 10 pessoas corre e pára de repente, ao mesmo tempo virando-se. Desequilíbrio, vento, o mundo parece continuar a mover-se contra nós. Lembrei-me de como é harmonioso rodar em cima de uma bola muito grande, sair numa cambalhota. Tentar o equilíbrio em cima dela. Deitarmo-nos em cima da bola e deixar ir.
Uma música pode contagiar o corpo enquanto nos dizem para rodarmos no chão em todas as direcções. Escorregar. Levantar partes de nós e poisá-las num sítio diferente. Sentir só.
É muito difícil a dissociação, um braço faz uma coisa e outro faz outra. Fabuloso quando conseguimos. Andar lunar é contrariar tudo o que aprendemos. De cabeça para baixo é uma questão de hábito, "a quem trepou a árvores não é tão difícil"… diz o francês no seu sotaque bonito. E é verdade!
Aquele sotaque pergunta o que sentimos, o que queremos comentar…
E grandes teorias de técnica e dificuldade se levantam. Em segredo comigo, muito calada, penso como há dias em que de facto não escolho aprender, deixo-me levar só. 3 horas ontem pareceram alguns minutos e estava muito bem, tranquila. Saiu e entrou muito ar em gargalhadas e desconcerto. Como o vendaval hoje ainda lá fora. Há dias em que, sem querer, escolho só brincar com as coisas que não sei fazer.

22.11.05
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
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Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

(Álvaro de Campos)

20.11.05
estranho
Nunca tiveram a estranha sensação de ouvirem muitas vezes o vosso nome num mesmo dia? Não que nos chamem (que isso chateia), nem que falem para nós.
Falam de nós na nossa presença. Dizem o nosso nome "a inês fez assim...", "a inês é que um dia disse...", "a inês foi ali..."
E de cada vez que as pessoas falam penso "a inês sou eu."

18.11.05
Contraceptivo falhado
Nota Introdutória: Este texto é profundamente machista e broncamente racista, assustem-se já as almas menos receptivas ao estilo.


Do ponto de vista do pai tudo parece estranho. Não entendo as movimentações femininas dela, aquelas ânsias. Chego à conclusão em estilo pai solteiro: nunca entendi as mulheres.

Parece que rapariga cresceu e chegou-lhe a adolescência e os desejos.
Os conselhos médicos indicaram que tomar a pílula era potenciador de cancro da mama e de desestabilizações hormonais. Pai galinha que sou, levei a sério. A saúde antes da rambóia, pensei eu, incauto fui!

Numa fase mais propícia aos instintos naturais do sexo começaram a surgir os pretendentes, alguns abnegados passavam dias e dias, chuva ou sol, tentando espreitá-la nas poucas saídas que fazia, sempre sob a presença do meu olhar atento, feroz e castrador. Tivemos várias discussões noite dentro noite fora, em que os seus chiares agudos e femininos me pareciam muito pouco respeitosos para um pai à procura de um sono recuperador.

As filhas também não percebem os pais, e o diálogo intergeracional muitas vezes não tem saída. Como se não bastasse os avós protegem a neta, dizem que já tem idade para saber de seu faro o que quer. Querem que eu a deixe tomar a pílula. O tanas é que deixo!

Certa noite saio de boa fé e a caminho do carro percebo que ela se esgueira pinhal fora com um preto. Uma fúria desmedida! Arranco no carro pronto a desancá-la em frente ao namorado e a arrastá-la para casa contra o chiar mais uivado que ela pudesse lançar. "Onde está a sociedade patriarcal dos bons costumes, que libertinagem vem a ser esta!? Só namora com quem eu quero e quando eu quiser, é demasiado nova para estas rebeldias, avarias de adolescente!" Vou o caminho todo a dizer impropérios, pronto para dar-lhe uma sova.

Quando a encontro, eis que estavam sem vergonha nem ar pecador no auge da sedução. Não queriam soltar-se, grudados. O preto nem tugia, nem mugia. Ela fez o olhar-suplicante-derrete-pais-babados. Agora está grávida! Põe-se a hipótese de aborto: ela não está em idade, nem nós temos condições de ter crianças nesta fase.

E o preto onde anda? Nunca mais o vi!

A Ginja cá continua com o período do cio a acabar, fechada em casa de castigo e desolada com saudades do namorado que a abandonou mal soube da gravidez.



17.11.05
tempos de ocupar
Estávamos a andar, um pouco apressados para mim naquele acompanhar de passos grandes. Ele, no seu jeito magro e alto, despenteado e um pouquinho gingão, tinha que me mostrar aquele texto! Não havia tempo, mas ele queria mostrar-me. Então foi a ler enquanto os nossos passos nos levavam. Aqui estão algumas partes.


“Não é a primeira vez que me põem questões do género: «as minhas paredes estão vazias, quero comprar quadros para as encher, o que me aconselhas?» ou «precisava de objectos para as minhas estantes, vens comigo escolher, logo à tarde?»
Invariavelmente, ensaio uma enfadonha didáctica da colecção que passa por explicar que não se compram de um momento para o outro quadros, cinzeiros, mesas, cortinados, serviços de jantar, livros.
Sempre pensei que (…) os objectos, as gravuras, os pratos, só fazem sentido se carregarem a história pessoal que lhes esteve na génese. Só merecerão as nossas paredes se forem amados, desejados, obtidos com dificuldades (económicas, prestações, perigos). (…)
A «colecção instantânea» arrepia-me. Nada se mereceu, nada se conquistou, é tudo fruto do mais grosseiro dos acasos, da desordem circunstancial de determinada loja em determinado dia de semana de um qualquer ano.

Também me afligem os jovens casais que não descansam enquanto, no subsequente mês ao casamento, não equipam toda a casa com candeeiros, dúzias de cadeiras, paredes inteiras de estantes onde alinham desgarrados objectos que, num esforço desmemorizado, os colegas do emprego lhes ofereceram, à toa. Penso que esses casais deveriam pugnar por uma grande despensa/arrumação onde guardassem toda a quinquilharia, exibindo A CASA VAGA, ESPARTANA, BRANCA, COMO UMA TELA VIRGEM ONDE AO LONGO DOS ANOS PUDESSEM VIR A INSCREVER A VIDA, AS VIAGENS, AS ZANGAS, OS FILHOS, AS FOTOGRAFIAS DE DOMINGOS LONGOS, UM MÓVEL APANHADO NO LIXO, OS PRIMEIROS DESENHOS DE UM SOBRINHO. Isso será um ambiente, o ambiente deles, o que os distingue dos amigos, do sítio onde cada um acumula o pó, onde ficam os jornais velhos, os cadernos de liceu, embalagens gastas de remédios, anúncios recortados de casas melhores.” (…)

Manuel Graça Dias


Eu ri-me deste meu querido amigo. Só ele me mostraria este texto e no entanto não sei se ele sabia o sentido que ele faria para mim, como aquilo explicava o que nunca consegui explicar.
Gosto de casas vazias, gosto de paredes brancas. Não gosto de entrar em casas em que parece que acabei de abrir uma revista, não me atrevo a sentar no sofá, a mexer num livro, a ordem e a combinação são tais… Também nunca percebi quem ocupa uma divisão enchendo logo as paredes com imagens, combinando logo cortinados com tapetes. Essa pressa assusta-me. Assustam-se as listas de casamento. Só de pensar que numa só loja (ou pouco mais) duas pessoas tiveram de escolher tudo e mais alguma coisa que lhes pudessem oferecer de uma vez. (não entendo muito bem as prendas de casamento) As casas montadas antes de se lá morar. Os móveis de várias casas todos comprados no IKEA. Muito design cansa-me. Os candeeiros de tecto colocados à pressa, com os fios eléctricos à mostra. Vê-se bem que ali não entrou o tempo, não entrou a vida dos dias que correm, os riscos dos nossos passos no soalho, o esmurro da porta onde batemos com o pé, aquela almofada um bocadinho manchada do dia em que comemos no sofá, os papeis, muitos pelos sítios onde ficam muito feios mas só ali os encontramos, a panela que era da avó, o móvel que os pais fizeram quando não tinham dinheiro para comprar um.
Podem ser tudo disparates, mas talvez por eles queira começar por uma casa pequenina, gostava que não fosse nova. Gostava de não ter pressa nela.

16.11.05
Aqui todos têm nomes
Aqui todos têm nomes. O António. O Manuel. O Amadeu. Não são mais um arrumador, como para todos nós, enquanto habitantes duma cidade, são. Eles sabem quais as ruas que o António vai e quais os exames médicos que têm de fazer. Sabem que o Manuel já esteve no projecto mas que agora não quer ouvir falar em tratamentos. Quer ser livre na verdadeira prisão que a droga pode ser. Sabem que o Francisco já tentou muitas vezes e desistiu, sempre querendo voltar passado um tempo.
Ontem saí à rua. Fomos buscar o António para fazer rastreio da tuberculose. Numa rua do Porto onde ele costuma estar, lá o encontrámos. Não foi à primeira mas passado um bocado já se encontrava no local de trabalho. Entrou para o carro e fomos. Depois fomos fazer mais umas visitas a perguntar como andava a vida. Mostrar novos e melhores futuros a quem nos quiser ouvir. O Francisco olhou e cumprimentou. Já conhece as caras. Às vezes basta só mostrar que se está lá. Muitos já conhecia. Já os tinha visto. Quantas vezes já os terei evitado?
Mas ontem não. A sensação de que aqui ninguém desiste das pessoas ficou. A sensação de que vale sempre a pena encher futuros. Porque eles existem, mas precisam de ser relembrados.

perplexidade
Queria escrever com mais calma sobre esse grande evento que foi o Congresso Internacional da Nova Evangelização, realizado na semana passada em Lisboa (mas não prometo, para não falhar, que seja na próxima Terra da Alegria). Para já deixo apenas uma perplexidade, partilhada por Paulo Rangel no "Público" de hoje. As citações são desse artigo, intitulado "Nova evangelização: confissão de uma perplexidade".
Como é que um Congresso que "foi - ou pareceu ser, para quem o viu de fora - um espaço de genuína interrogação e renovação das formas e dos meios de evan­gelização, em especial, de ho­mens e de povos em pro­cesso de 'descristia­ni­zação'", terminou com aquela paradoxal procissão das velas? Paradoxal porque "a linguagem e a ordem simbólica daquela manifestação religiosa - por mais ternura e afeição que pos­sa congraçar ­- parece aquém do ambiente e da oportunidade da 'nova e­van­­ge­li­za­ção'". Paradoxal porque "a procissão evoca uma tradição mais rural do que urbana, releva mais duma pas­toral do passado do que do futuro". Paradoxal ouvirmos aquelas reportagens com senhoras velhinhas devotas a pedir em voz alta um milagre para a cura das suas maleitas, atitude que nos faz esboçar um sorriso de carinho, mas que fará rir todos os que olham a fé como coisa de passado e superstição. Paradoxal porque "a lin­gua­gem usada foi estritamente tradi­cio­nalista, pouco apta a despertar os ci­dadãos hoje dispersos".

15.11.05
O sol nasceu
Uma ideia que me acompanha há muito tempo.
Desde criança que sempre achei que um dia iria ver.
Hoje decidi. Convenci as três pessoas com quem queria partilhar.
Chegámos um pouco envergonhados. O ambiente era tranquilo. Eu disse quem éramos e perguntei se estava algum bebé para nascer. Numa grande alegria a médica disse “um, não, vários! Podem entrar.”
Primeiro explicou-nos muito calma alguns cuidados, não havia pressa. Os bebés é que escolhem quando espreitarão a luz pela primeira vez.
Chegava esse momento num dos quartos. Fomos só duas. A intimidade não pode ser quebrada.
Primeiro. Quietas. Como alunas olhávamos com respeito. Sem muita expressão. A mãe estava assustada, com dores, com medo de não conseguir. O pai estava nervoso mas apoiava-a dizendo poucas palavras firmes e baixinho. Nós quase imóveis acompanhávamos. O coração a bater depressa cá dentro. O crescendo começou, todos sabíamos o que ia acontecer e as palavras de incentivo eram seguras, à mãe pedia-se toda a força do mundo e lembrava-se que era o seu filho que ia nascer, que ia “saltar para o meio da vida”!! (lembrei-me do poema)
Quase irrequietas nós começámos a sorrir. A cabeça apareceu e mal cabíamos em nós de contentes. O bebé estava cá fora e todos comemorámos juntos. A mãe aliviada e feliz. O pai orgulhoso. Seguimos os cuidados ao bebé. Limpar, ver se está bem, vestir pela primeira vez. Olhávamos babados (agora já os 4) aquela bebé pequenina que respirava pela primeira vez, que pela primeira vez sentia frio, renovava a sua circulação, sentia mãos, sentia vozes assim mais perto. Tudo com calma e carinhos. Vestidinha ela foi para ao pé de outro amigo que já tinha nascido. Ficaram ali quietos quase a conversar, muito pertinho um do outro balbuciavam. Vieram buscar o amigo e ela ficou só connosco. Os rapazes queriam saber o que nós tínhamos sentido, como tinha sido… tantas perguntas! Nós só respondíamos a rir! E falávamos muito e imaginávamos quando formos nós. Ficámos quase uma hora a ver a aquele bebé tão perfeitinho. Sossegada, tentava mamar na mão. Tinha fome!
Entregaram-na à mãe para mamar. E agora eram os rapazes que iam ver um parto! Nós pudemos ficar à porta a ver, sem que os pais nos vissem. Este bebé foi mais rápido, era cheio de pressa! Chorou parecendo gritar “nasci!!”. Estava tudo bem com ele.
Os Luíses saíram. Corados, comovidos, felizes que só vendo. Diziam “se ficamos assim com os dos outros imagina quando formos nós!”. Abraçávamo-nos tolinhos de ali ter estado. Na televisão não se compara. Saímos como se mais nada importasse, tínhamos visto o começo da vida.
A Matilde o Leonardo nasceram hoje. E nós estávamos lá! Quando fiquei sozinha com eles disse-lhes em sussurro: "a vossa vida começou mesmo agora e vai ser boa de certeza."


no autocarro, no escuro, lembrei outro poema:

Disseste: o sol nasceu.
Foi verdadeiramente então que o sol nasceu
e que nos habituámos todos a dizer
que o sol nasceu.
Às vezes pensamos que acontece várias vezes
mas é uma ilusão de óptica que não nos deixa ver
o grande círculo azul em cujo centro
tu dizes eternamente: o sol nasceu.


pedro tamen

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pablo picasso (encontrei uns dias depois)

13.11.05
mostra cinema de animação
filmes premiados do CINANIMA 2004

THE REGULATOR
Realização: Philippe Grammaticopoulos

uma_imagem_gira

Um casal adopta uma criança feita com muitas peças diferentes. Mas a escolha das peças é tão grande que a criança não vai ser tão perfeita como deveria ser.

Não percebo nada de desenho, mas achei fabuloso o preto e o branco neste filme, parecia todo desenhado a negativo. O pai e a mãe movimentavam-se de uma forma ondulatória. A música é que achei insuportável.

THE UNSWEPT FLOOR
Realização: Jane Hubbard

O relacionamento com a comida em diferentes culturas e períodos históricos.

Não achei graça.

LEGEND OF THE ORIGIN OF THE CRAWFISH
Realização: Valentin Oishvang

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Um dragão apaixona-se por uma jovem. Casam-se e, passados três anos, a jovem dá à luz um menino e uma menina. A certa altura, a jovem pede permissão para ir ver a mãe. Esta, contudo, mata o dragão.

uma_imagem_gira

Sem dúvida os desenhos mais bonitos, todos o rostos, movimentos, abraços e risos eram uma delícia. Uma lenda... sempre o lado trágico, mas também lhe dá sentido.

NO PAÍS DA GONGOLÂNDIA
Realização: crianças das oficinas da Anilupa – Estúdio de cinema de animação da associação de Ludotecas do Porto

A Gongolândia é uma terra mágica. Um dia apareceu um terrível dinossauro que a destruiu, deixando-a sem poderes mágicos.

Rimo-nos muito com esta animação feita de recortes. Tive saudades de crianças naquelas vozes que contavam a história.

A MENINA GORDA
Realização Pedro Lino
Prémio Jovem Cineasta Português 2004 - Concurso Jovens Realizadores

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Esta obra é um exercício sobre os princípios fundamentais da animação

O texto de Ribeiro Couto muitíssimo bem dito por João Villaret. Faz-nos rir. Magia em desenhos tão simples que se transformam sempre noutros, viajam na tela branca a encantatória velocidade.

"Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.
É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas da sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
"Como esta menina está gorda, bonita!"
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo a brilhar."



SOUTH OF THE NORTH
Realização: Andrey Sokolov
Prémio do Público

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A história de dois pescadores, de diferentes nacionalidades, destinados a encontrarem-se no mesmo barco.

Este dois mostram bem o que podem ser duas pessoas juntas. Cada um remava para o seu lado, cada um queria uma coisa, cada um só via o que queria e tinha a sua forma de resolver os problemas. Mas estavam no mesmo bote e precisavam um do outro.

ABRAÇO DO VENTO
Realização: José Miguel Ribeiro
Prémio Fnac: Melhor Filme Português em Competição Internacional

Num mundo onde ferro e terra se misturam na criação das cidades inesperadas, o vento sopra vida entre as folhas, num eterno ciclo de renascimento. Este é o abraço do vento.

A descrição prometia qualquer coisa que entrasse aqui dentro e revolvesse um pouco... mas não aconteceu nada.



conclusão: a única vantagem das cidades pequenas em termos culturais é que, se estivermos atentos, as coisas de qualidade têm data bem marcada e temos de escolher ali... ou aproveitamos, ou deixamos fugir num ápice! Não há lugar ao "um dia irei..." Agarra-se!

12.11.05
Precisa-se de matéria prima para construir um País
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada,tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.Pertenço a um país onde,lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL,DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo,onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.

Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

NÃO. NÃO. NÃO. JÁ BASTA.

Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS.Nascidos aqui, não em outra parte...
Fico triste.

Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa.
E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?.... MEDITE!

(Eduardo Prado Coelho no Público recebido por mail)

11.11.05
Aurora.
Ruas vazias de gente, movimentos vazios de qualquer acolhimento.
Duas torres espelhadas erguiam-se para o céu. Ao lado. Um prédio nunca acabado. Ruína. Em frente. Casas com muitos buracos nas paredes e janelas muito novas. Brancas janelas.
Uma neblina fria e ao fundo, para lá do monte, o sol começava a nascer.
Grandes poças de água. Um eléctrico. Alguns carros velhos.
Estranha sensação, um conhecido cansaço da noite no comboio e a estranheza de uma cidade esperada tão quieta. Vontade de tirar uma fotografia a um homem que ao pescoço trazia uma bolsa com jornais. Lá ao fundo havia um cemitério, muitos outros à volta e ainda não sabíamos. Eram brancos também, com erva verde. Eram enormes e pacíficos. Mas nós ainda não os reconhecíamos naquele cinzento de um dia que, preguiçosamente, começa.
Já andávamos há mais de meia hora. Um polícia que nos fez rir. Queríamos um sítio onde pudéssemos dormir essa noite, queríamos poisar as mochilas, tudo o que trazíamos. Orgulhoso, no alto do seu tamanho ele levou-nos ao melhor hotel. Desceram 50 euros o preço mas não podia ser… Rua outra vez. Casas pequeninas. Tudo vazio. Lembro-me dos avançados das casas serem de madeira escura, o chão de pedras molhado. Lembro-me de me sentir bem ali. É um privilégio conhecer as cidades vazias.
Sarajevo 5 da manhã.

10.11.05
no reino da selva
Do Lutz:
«[A solução dos que não querem olhar a sério para o que se passa em França é] pegar nesta gente toda e atirá-la para onde os seus pais e avós vieram. Depois reforça-se os muros de Melilla e Ceuta, e esperemos que dure.
Seria preciso resolver alguns pormenores, como o problema chato que a maioria desta gente tem passaporte francês, o que obrigaria-nos a aplicar um critério étnico ou religioso.
Se não temos tomates para isso, ou escrúpulos parvos de ordem moral (uma chatice esses direitos humanos), então não devemos pensar em nada.
»

triste
Alguma calma parece regressar a França, depois de mais de dez dias de violência e vandalismo e da imposição do recolher obrigatório em algumas localidades.

Cá na nossa pacata terra, o que impressiona, dando umas voltas pelos blogues, é ver que há quem ache que não se deve procurar perceber as causas destas manifestações de violência. Como nos idos das discussões sobre o terrorismo, há logo quem diga que não há nada a perceber nem a pensar e a única solução é malhar forte e feio nos putos (porque é de putos que estamos a falar) com os casques.
Na Terra da Alegria de segunda-feira, a carta dos bispos franceses é certeira:

«(...) Devemos interrogar-nos sobre o que pode estar na génese de tal espiral de violência nas nossas zonas de grande densidade populacional. A urbanização recente, as dificuldades em encontrar emprego entre os jovens, a instabilidade na vida familiar são frequentemente evocadas.
Porém, parece-nos que a repressão e a incitação ao medo colectivo não são uma resposta à altura destas tensões dramáticas da nossasociedade. Deixem-nos sublinhar todo o trabalho que é feito quotidianamente por muitas associações e instituições com o objectivo de criar laços de solidariedade para uma vida colectiva fraternal. Muitos não baixam os braços. As escolas, as diversas instâncias de formação, os educadores, os animadores sociais devem sentir-se apoiados por todos. Sabemos ainda como pode ser preciosa a presença de pequenas comunidades religiosas nas cidades. É vital abrir às novas gerações, muitas vezes desesperançadas, um futuro de liberdade, de dignidade e de respeito pelo outro.
»

Um futuro de liberdade, de dignidade e de respeito pelo outro. Mas quando se escreve isto aparecem logo comentários a dizer que escrevemos "nas núvens". Para esses é claro -- "na terra" (em oposição às núvens) não existe moral nenhuma.

6.11.05
dom
Sabe, acho que ninguém nos pode ensinar a fazer cinema. Não acredito que ninguém nos possa ensinar a ser escritores, ou a ser um grande atleta ou um grande jogador de futebol ou um grande bailarino. A questão é que cada um de nós deve tentar reconhecer o nosso dom, e depois, com sorte, encontrar os mestres, as pessoas que nos podem ajudar a moldá-lo. Porque ninguém nos pode dar talento, tal como ninguém no-lo pode tirar. Temo-lo, apenas. A questão é reconhecê-lo, tentar compreendê-lo, aceitar a sua grandeza ou pequenez e depois tentar aperfeiçoar o dom que se tem.

Michael Cimino, entrevistado pelo Público, diz que encontrou-se a realizar filmes sem saber como.

Encontrar o dom que temos. Talento. Fiquei a pensar. Difícil.
Não gosto que as pessoas espalhem marketing em cima do que fazem... desconfio, normalmente aquilo bem explorado dá pouco resultado concreto. Uma capa de bem sucedidos. Não gosto. Irrita. Apetece dizer com muitos r's, "que trrrrrreta!"
É mais bonito encontrar sem esperar.
Dom... Não dá para melhorar se não se sabe qual é o dom! Ficarei a pensar. Difícil.

Desenrascanço
Desenrascanço is a Portuguese word used in common language in Portugal, to express an ability to solve a problem without the adequate tools or proper technique to do so and by use of sometimes imaginative resourcefulness when facing new situations. Achieved when resulting in a hypothetical good-enough solution. When that good solution escapes us we get a failure (enrascanço - entanglement). Most Portuguese people strongly believe it to be one of the their most valued virtues and a living part of their culture.

(From Wikipedia, the free encyclopedia)

jogadores de meio campo
Eu, que sou um azelha no futebol, achei certeiríssima a metáfora de Sobrinho Simões, em entrevista a Judite Sousa, na semana passada. Dizia, a propósito de qualquer coisa, que os Portugueses têm medo de arriscar. De jogar tudo. Por isso somos mais jogadores de meio campo. Ou, mudando para outro desporto nacional, somos caçadores de espera. Falta mandar aquele grito que José Gil deixa no seu livro "Portugal Hoje, o Medo de Existir":

«Há, primeiro, que erradicar o medo da sociedade portuguesa. Conquistar a maioridade, dessubjectivando-se ao enfrentar o acontecimento. Fazer explodir a imagem de si. Porque todos nós andamos "pr'aqui" como Álvaro de Campos que dizia que "nunca conhe[ceu] ninguém que tivesse levado porrada./ Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo".»

Todos campeões em tudo. Ninguém arriscou, todos venceram... o meio campo. Falta dar-se um pouco mais, deixar a "imagem de si" de lado, deixar o medo e as (falsas) seguranças, enfrentar o acontecimento.

5.11.05
Seu Jorge enche aula magna de futuros
uma_imagem_gira

"Tem um Brasil que é próspero, Outro que não muda.
Um Brasil que investe e Outro que suga.
Um de sunga, Outro de gravata.
Tem um que faz amor e tem Outro que mata."


(Excerto de A nova música, criada com Gabriel Moura para assinalar os 500 anos de descoberta do Brasil)


"É certo que ele é actor, mas naquele momento não fingiu: na estreia lisboeta do seu espectáculo, Seu Jorge emocionou-se de verdade quando rematou a canção Eu sou favela com um discurso improvisado sobre as injustiças da pobreza: "É muito difícil na favela ter fome e ver os anúncios do McDonalds saindo na televisão", disse. De toalha branca nas mãos, recuou até ao fundo do palco e escondeu o rosto."

(Nuno Pacheco no Público de hoje)


Seu Jorge é muito expressivo e fala com as palavras da vida que viveu. Faz do concerto um alerta interventivo não querendo esquecer a favela donde veio: a favela que não procura a "diferença" precisa em vez dela de "igualdade". Faz discurso e emociona, acreditamos no que ele quer. O verdadeiro político é este: o humano.

Seu Jorge merece muita atenção pela música também, mas principalmente por tudo o que a música dele representa. É que ele é favela:

"Eu sou favela

A favela, nunca foi reduto de marginal
A favela, nunca foi reduto de marginal

Ela só tem gente humilde Marginalizada e essa verdade não sai no jornal

A favela é, um problema social
A favela é, um problema social

Sim mas eu sou favela
Posso falar de cadeira
Minha gente é trabalhadeira
Nunca teve assistência social
Ela só vive lá
Porque para o pobre, não tem outro jeito
Apenas só tem o direito
A salário de fome e uma vida normal.

A favela é, um problema social
A favela é, um problema social"

3.11.05
Elogio da sala escura
O chão não é muito inclinado. As cadeiras não são confortáveis. Nada é bonito nem novo. Mas conheço o Sr. João que está sempre à porta. É muito gentil quando me vê e ri-se das minhas perguntas. Nas bilheteiras não se espera nem se compram pipocas. A sala invariavelmente com poucas pessoas agora já me faz estranhar quando, do outro lado da cidade, encontro os barulhos de uma sala cheia. Nas cadeiras posso-me enroscar e sentir que a tela enorme e aquele escuro é só para mim. No fim fico a ver o genérico passar só para ficar mais um pouco. Sinto um privilégio enorme de ter ali estado, de ter pertencido aquela história. Saio e cá fora é a rua, não o barulho da praças de alimentação, não as vozes altas de quem desce escadas rolantes, não aquelas luzes que enjoam. Como sair de um filme que muda a nossa vida (pelo menos naquele instante) e ver gente a comprar roupa?
Este é um elogio da sala escura nas salas de cinema velhas.

Hauru no Ugoku Shiro
uma_imagem_gira
realizador: Hayao Miyazaki


Mexe com o nosso imaginário, representa os sonhos que nos fazem rir naquele breve momento em que os lembramos pela manhã. Mexe com o nosso crescimento, com aquilo que mais queremos. Fala-nos das nossas brincadeiras em pequenos, faz-nos tremer e quase entrar na tela para a ajudar a procurar, para o ajudar a resistir. Enche-nos de ternura, de coragem... de futuros.

Corrente de ar
Detesto a conversa da sociedade de consumo a correr vertiginosamente para um individualismo cada vez mais exacerbado, na idiossincrasia do imediatismo e do facilitismo no que concerne ao desespero do fim dos tempos.
Ditas nestas insuportáveis palavras, num professor com ar acabado, a propósito da avaliação de radiografias...
Ar acabado dizendo que está farto de ser médico, que os médicos novos são muito simpáticos mas todos uns ignorantes. Que, com o tempo, é inevitável tornarem-se brutais mas aí sim... sábios! E então que escolhamos desde já a técnica e não a comunicação.
Falou... falou... falou... sempre com ar sermão entediado.
Terminou comentando o facto de sermos muito mais mulheres e que isso era mau... “Vocês não acham que é mau?”. Quando alguém disse com ar igualmente moralista que as raparigas seriam mais responsáveis e aplicadas ele respondeu “Não acho! As mulheres são mais superficiais!!!”

Quando é que se vai parar com esta história de as mulheres são assim e os homens são de outra forma qualquer. Somos todos gente. Carne. Ossos. Cabeça. Memórias.
Interesses, maneiras de ser e agir não nascem connosco no nosso sexo.
Porque nos quer este homem esmagar na sua desesperança?

Não! Não me queiram na cova que não tenho,
Porque eu vivo, e respiro, e acredito!
Sou eu que canto ainda e que palpito
No meu canto!
Sou que na pureza do meu grito
Me levanto!


miguel torga

Dois gostos em 12 horas
12 horas da noite
Um dia grande, um dia enorme. Um dia em que escrito a tinta permanente se começa formar realidade de um sonho de inquieta meninice. Um dia de olhar muito sério para uma mulher de experiência e histórias, alguém que ensina. Olhar a pensar, estarei mesmo a sentir pela primeira vez “eu gostava tanto de ser... quando for grande!”. Um certo medo. Um dia de livros visto sem possibilidade de comprar. Verdadeira delícia de não ter de escolher. Muito de-va-gar. Dia de capoeira ao rubro. Muito cansada ligo o rádio do carro, como só faço quando estou sozinha, uma música bem alto e não faço ideia qual. Cantei muito, como só faço quando a alegria sem explicação embriaga.

12 horas da manhã
Decidida entro na feira do livro. Percorro bem rápido até ao fundo, trago comigo o livro que queria. Passo por outra estante, e espreito de relance. Paro. Dois passos atrás. Trago outro sem pensar, quase sem escolher. Numa casa que não é a minha abro-o. Tem as folhas todas ligadas. Poesia. Lá fora chove contínuo a dizer que o inverno está a instalar-se e o frio não tardará. Separo as folhas grossas e escurecidas com uma lâmina, este ritual é maravilhoso.

2.11.05
Research
Trabalho novo, casa nova, cidade nova, o mesmo blog, a mesmo assiduidade irregular. Mas como não é de mim que venho escrever, aqui fica um excerto da entrevista a Sónia Gonçalves, engenheira física, entrevistada pela "Xis" no sábado passado:

«Eu não quero dizer com isto que a Ciência seja um mundo completamente à parte das outras profissões, pois há muitas onde isso também acontece. O que acho que a Ciência tem de particular é as coisas passarem-se a um nível um pouco mais etéreo. Trabalha-se numa coisa completamente diferente das coisas do dia-a-dia. Quando nos dedicamos a um modelo matemático, estamos à volta com simulações, com coisas que não têm nada a ver com nada. Pensa-se num nível competamente abstracto (...)»

Afinal foi mesmo de mim que escrevi...

1.11.05
Monólogo Interior de um Cão
Hum… calorzinho… escolher um sítio rápido, escolher um sítio rápido, cheira, cheira… sentir com as patas, molinho quente duas voltas concêntricas… Cheira a peixe delicioso! Mais uma voltinha… Deito-me! Quente… duro! hum… rápido rápido… Escolher outro sitio! Rápido, rápido… Sossegado, não ouço barulhos… quentinho, Bom!!! Três voltas concêntricas… deito-me, enrrosco-me, Sol, calor… HUM… hum… Auff!! (Feliz!!!) Os olhos fecham-se relaxo a musculatura… patinhas dormem corpo dorme... cauda abana muito lentamente… fecho os olhos… fecho… (Descanso…)

Atenção!!! Barulho!!
BZZZ BZZZ BZZZ… O Que é isto??
Minúsculo, irritante… estúpido! Atrapalhou-me o sono … quase sem cheiro não para quieto!!! Que nervos! AUFF!! AUFF!!! ( Vai-te embora!!!)Estúpido não entendeu.. Chateio-me vou-me eu embora!!!

Cheira!!! CHEIRA!!! Aquele rafeiro preto de novo… O Poste é meu!!! Concentração… Concentração… PSSSSSSHHHTTT Aqui quem manda sou EU!!

Hum… Atenção cheira, cheira, cheira… a cauda abana mais depressa… Comida!!! Carne !!! Babar, salivar… tenra boa, babar salivar… Corre, saltita nervoso… O homem do talho nem olhou para mim..bolas!!! (entrar é má ideia !!! dor!! Chinelo!!)Choramingar!!!! Boa!!! Esfrega as patas no chão choraminga… ele mexe-se… Agora mais alto!!! UAU!! Aqui quem manda sou Eu!!!



(desenhado pela raquel)

Saltita, saltita alterna as patinhas, corre… saltita gingão… abana a cauda!!! Caminho conhecido, hum!!! Parece me bem… cheiro familiar… CASA!!!
Três latidos a porta abre-se… Funciona sempre… Estou feliz deixo que me façam festas… Hum… Cheiras a fritos!!!

Hoje o sofá é meu! Primeiro a chegar… Quentinho molinho… uma volta chega… deitar!!
Aquele barulho fico nervoso... a cauda não para, abana, abana, abana frenética… é a chave!!! Feliz! Feliz! Salto do sofá espero à porta… Salto para o colo, abano a cauda, ladro, corro, ladro, muito muito feliz… bolas… chichi de novo… Contente saudades…
Sigo-o, festas aqui atrás da orelha… bom!!!
O sofá é dele… Salto!! É Nosso!!! Festinhas no lombo coça coça! Lambidela cheiro a casa…Tomei conta de tudo!!! Chama-me lindo… feliz dormitar…

(raquel, amiga do enchamos tudo de futuros)

Greguerias



A Liberdade é uma caixa de lápis de cor por estrear.

A Alegria é um ovo Kinder com brinquedo para montar.

O Aconchego é o xaile perto da bengala.

A timidez é um jogo das escondidas sem “rebenta a bolha”

A vida é um puzzle do qual não podemos perder peças.

O orgulho é um passarinho que canta só para mim.

(raquel, amiga do enchamos tudo de futuros)

Conto Infantil
Há muito, muito ,muito tempo… Ainda nem a avó tinha nascido e nem sequer existiam os desenhos animados, havia uma menina a Clicas que tinha 1 grande grande enorme problema!!!

Já sabia muitas coisas…
Sabia para que serviam os pés… eram eles que a apoiavam quando estava em pé, sabia que as pernas servem para correr depressa muito depressa e ganhar corridas… O tronco tinha descoberto há pouco tempo, enquanto comia o lanche que a mãe tinha feito (sim!!! Já havia o lanche, o lanche feito pela mãe existe há imenso tempo, desde que as mães se tornaram mães a sério!!!) descobriu que a barriga serve para guardar a comida e aquele tambor irrequieto que bate mais depressa quando estamos contentes!!!
A Cabeça era fácil! Onde é que guardávamos, os olhos, o nariz, a boca e as orelhas se não tivéssemos cabeça?

Toda a gente sabe que é muito importante ter olhos para ver, boca para dar beijinhos e para comer, orelhas para ouvir as histórias que o avô conta e nariz para cheirar os cozinhados da mãe… E toda a gente sabe também que não dava jeito nenhum termos isso tudo nas mãos! Como é que desenhávamos???

A cabeça era indispensável! Ah!! E as mãos também… para os desenhos, para os jogos, para mexer na terra… para as mãos todos sabemos imensas utilidades!!!
Só faltavam os braços… Não serviam para nada! E ainda por cima deixavam as mãos muito longe da boca e do nariz!!!



Andava a pensar nisto há muitos dias, todos os seus amigos iam brincar e a clicas ficava sentada a olhar para os braços à procura de uma resposta… Começou a ficar triste… (também quem é que não fica quando passa muitos dias sem brincar… se uma tarde de trabalhos de casa já é tão difícil!!!) Decidiu ir para casa… Já era tarde para ir brincar com os amigos. Também não tinha muita vontade… Estava triste…

A mãe da clicas já tinha preparado o lanche, a clicas comeu-o sem apetite e foi se sentar sozinha na caverna (como os antigos de há muito, muito, muito tempo chamavam às suas casas). De repente, sentiu uma coisa estranha… um calorzinho no tronco… o tambor tocou mais depressa… e reparou que os braços da mãe estavam à volta dela…
O sorriso apareceu depressa os dentes todos à mostra!!! A clicas descobriu!!! Os braços servem para pormos os outros felizes!!!



A partir desse dia usou muito mais os braços, deu abraços apertadinhos e quentinhos… daqueles que põem os dentes todos à mostra e o tambor a tocar depressa!!!

(raquel, amiga do enchamos tudo de futuros)



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