30.1.06
A LISTA
medicina interna
dermatologia
cirurgia cardiotoráxica
pediatria
medicina física e reabilitação
otorrinolaringologia
psiquiatria
saúde pública
gastroenterologia
ortopedia
urologia
cardiologia
reumatologia
neurologia
cirurgia geral
medicina geral e familiar
oftalmologia
anestesiologia
radiodiagnóstico
pneumologia
patologia clínica
neurocirurgia
infecciologia
radioterapia
neurorradiologia
medicina legal
nefrologia
ginecologia
hematologia

Eu ia começar a estudar... o exame é já amanhã e a preparação não está famosa. Não que seja muito difícil mas, enquadrada entre dois exames exigentes, foi sacrificada.
Eu ia começar a estudar, depois do jantar, aqui estava eu... olhei para a mesa e a fatídica lista, perdida há uns meses, resolveu aparecer ali hoje. Umas notas minhas perdidas naquele pequeno papel A6... (o tempo que cada especialidade leva a fazer... quase todas entre 4 e 6 anos)
Eu não tenho o menor orgulho no meu curso no sentido que, para mim não é, nem nunca será, superior aos outros. Em coisa nenhuma. Pelo contrário, tenho uma certa tendência a evitar dizer o que estudo (o que já tem causado alguma surpresa quando conto, dizem num brincar carinhoso que "ganho outra dimensão"... dimensão que digo logo não me agradar.)
Mas voltando à lista. Ali está ela. A causar-me desconforto. Porque leio, releio, (esquecendo o estudo por momentos). Lembro-me bem do que gostei em cada uma das cadeiras que já tive (destas conto 20!). Lembro-me bem de como gosto de conversar com as pessoas (os doentes), de como isso me enriquece. Sei como sinto uma alegria grande naquele momento em que todos os esquemas encaixam e tudo faz sentido (não suporto que digam que medicina é decorar, porque eu tenho "zero" memória deliberada). Tenho sempre adiado este confronto (eu e a lista), afinal faltam quase 2 anos... Mas a verdade é que me deixa sempre desanimada. Sendo muitas delas espectaculares porque acho sempre que não vou fazer nada disto a longo prazo??? Não é por vontade, acontece apenas (posso dizer até que tento contrariar). Sei que isto não faz sentido nenhum nos tempos que correm, até porque eu talvez não fizesse nenhum outro curso, mas às vezes preferia que o meu curso não tivesse as saídas tão delineadas.

Passará? Não passará? Alguém sabe?

Muitas pessoas me têm dito que no fim dos seus cursos sentiram dúvidas e vontade de fugir... Mas tenho medo que comigo não seja bem assim...

Passará? Não passará? Alguém sabe?

25.1.06
Verdade II
Confesso que nunca achei graça a coleccionar frases... Talvez porque a grande maioria das vezes essas colecções têm frases muito "ensinadoras do bem viver" que me chateiam. Oiço-as e rapidamente tento encontrar uma forma de as refutar. De dizer que não é verdade ou que, pura e simplesmente, não concordo com ela.
Mas a verdade é que há grandes frases e quanto mais inseridas no seu contexto melhor.
Seja uma música, um texto, seja um ambiente...
Sophia de Mello Breyner Andersen escreveu:

"Meia verdade é como habitar meio quarto, ganhar meio salário, como só ter direito a metade da vida".

Esta não refuto. Verdade sempre. Inteira. Complica a vida mas ao menos sei que existe.

Verdade I
Uma professora minha de Português, há alguns anos atrás, olhou para mim, lá atrás na 4ª fila (que foi sempre a minha fila, entre a confusão e a concentração) e disse que queria que fosse eu a ler aquele poema. Simplesmente porque achava que tinha muito a ver comigo.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Ricardo Reis

E eu li. Li alto. E gostei. Acho que percebi na altura (tive pena de não conseguir gostar de outros de Ricardo Reis)
Troquei umas cartas com esta professora há poucos dias e é bom sentir o que deixamos nas pessoas... o que elas deixam em nós.

24.1.06
Comentário reflectido ao resultado das eleições






(para ver a imagem em tamanho maior basta "clicar" em cima)

22.1.06
Encavacado
Ao abjecto eleito não pretendíamos dar cavaco nem tempo de antena, sabendo que o nosso blog não tem pontos de concordância com tal figura inestética. Ironia do destino ou acção da má língua e do eixo do mal em conluio, transformou-se o nosso humilde e simpático convite a estarem connosco à conversa, - "amena CAVAQUEIRA com um copo de Porto a acompanhar, sobre os futuros que nos espreitam..." - num estímulo, em pescadinha de rabo na boca, a más disposições e enxaquecas.

Estamos abertos a propostas para esta nossa crise existencial.

Propomos, por isso, o seguinte abaixo-assinado, anti-democrático e elitista, como forma de rejeição e exorcismo da malograda decisão dominical:

Os abaixo assinados afirmam com convicção impulsiva, para lá do repulsiva, estar em profundo desacordo com o atentado criminoso que o nosso país acaba de cometer com a eleição de tão feia pessoa: é a estética que é mal tratada antes de tudo, cinzento e feiura não se coadunam connosco.

Os abaixo-assinados:

- José Maria Joaquim BELO (é o meu nome que defendo antes de tudo)

21.1.06
a gente vai continuar
roubando ao zé pedro a ideia, neste site descobrimos como o mundo é grande e a estrada é longa.
pintem o mapa das vossas viagens em: http://www.world66.com/myworld66/visitedCountries
Embora engane muito, porque lá porque fomos a um país não quer dizer, quase nunca, que o conheçamos por inteiro... sobra sempre muito mundo por ver!

20.1.06
texto falhado
Olhar, entender, explorar. E queremos aproximar-nos. Como o espanto maravilhoso das lojas de ferragens muito antigas, onde as gavetinhas castanhas se arrumam impecavelmente umas ao lado das outras. E seguimos pelos corredores, à revelia de quem ali nos levou, e abrimos todas as pequenas gavetas, espreitamos lá para dentro em bicos de pés, ou muito em baixo com os joelhos já sujos no chão. E cada gaveta é um espanto, porque cada uma tem por fora aparafusado o que tem dentro mas temos sempre a esperança de encontrar uma gaveta muito cheia ou alguma peça fora do sítio. Olhamos cada coisa e tentamos perceber para que é que aquilo nos poderia servir. E levamos a tarefa muito a sério. Porque é essa a vontade, levar tudo. Mas o pai e a mãe disseram que só se compra o que se precisa. E a busca continua. Já estamos completamente perdidos em toda aquela oferta quando nos chamam “vamos embora!”.
Uma certa zanga...

aqui o deixo para não poder, de forma nenhuma, voltar a pegar-lhe. como o "delet" de que falou um dia miguel sousa tavares... foi-se!

19.1.06
Calendários
«No começo da era cristã ainda vigorava o velho calendário romano, dito "juliano", fixado por Júlio César. Este continua a ser utilizado pela Igreja ortodoxa, que festejou, ontem, o Natal. Em 532 d.C., a Igreja, segundo uma proposta do monge Dionísio, o Pequeno, decidiu contar os anos a partir da suposta data do nascimento de Cristo, 753 depois da fundação de Roma. Jesus deve ter nascido alguns anos antes, mas o cálculo do sábio monge impôs-se progressivamente no mundo. Em 582, o Papa Gregório XIII recuperou alguns dias de atraso e este calendário gregoriano impôs-se por toda a parte, excepto nas festas religiosas de algumas Igrejas do Oriente.
A Revolução Francesa procurou descristianizar a contagem dos anos, criando o calendário republicano. O primeiro ano começava no dia 22 de Setembro de 1792, início da Primeira República. Não durou muito tempo e foi suprimido por Napoleão. A Comuna de Paris tentou restabelecê-lo em 1871, mas a era cristã conquistou o mundo inteiro na época colonial.
Muitas religiões conservam o seu próprio calendário, que em certos países substitui o cristão. Os Estados islâmicos, por exemplo, mantêm o calendário muçulmano, que começa a 16 de Julho de 622, dia em que o profeta Maomé trocou Meca por Medina. Os outros calendários religiosos têm sobretudo um valor litúrgico e servem para a celebração das festas. É o que acontece com o calendário judaico, que parte da criação do mundo por Deus, fixada em 7 de Outubro de 3761 a.C., ou com o calendário budista, que, na Indochina ou no Sri Lanka, começa no dia da lua cheia do sexto mês do ano 544 a.C., a suposta data da morte do Buda histórico.
»



«(...) fazia-nos bem viver com uma dupla consciência: a da racionalidade, que nos deve acompanhar sempre como um alerta nas nossas paixões, e a da insuficiência da racionalidade para compreender o universo como misteriosa criatividade.»

(Frei Bento Domingues, "Público" de 9 de Janeiro)

anos
acabar com pobreza e não acabar com os pobres
não querer mudar de vida e querer antes mudar a vida

duas ideias que Maria de Lourdes Pintasilgo nos ofereceu e que me acompanham há já algum tempo. gosto de as lembrar.
ontem, no seu aniversário, cantei muitos anos de vida às suas palavras.

Aurora
uma_imagem_gira

Não sei se é "o mais belo filme do mundo" (François Truffaut) mas é sem dúvida um belíssimo filme. Cada imagem cuidadosamente escolhida. Todos os pormenores me fizeram sentir cuidada enquanto espectadora. Como se o realizador me levasse pela mão a conhecer cinema.

17.1.06
mais uma vez
"na Califórnia (...) Stanley "Tookie" Williams, [foi] executado por injecção letal no dia 13 de Dezembro de 2005 pelo homicídio de quatro pessoas. Williams tornou-se célebre por ter sido nomeado por cinco vezes para o Prémio Nobel da Paz pela sua reabilitação e pela obra que desenvolveu na prisão contra a violência."

público de hoje relembra a vergonha. mais uma vez a pena capital. vergonhosa por si. hoje outra vez. o caso Stanley "Tookie" Williams é especialmente inacreditável.

Sê paciente; espera
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade

No meio de toda a minha impaciência (que não está aqui sempre, passa de visita com frequência, como velha amiga que não avisa o seu chegar) encontrei este poema.

16.1.06
Para os jotas
Quem nunca... entendeu as formas das nuvens.
Quem nunca escrevinhou no papel de mesa do café.
Quem nunca brincou com o chão.
Quem nunca atirou pedras do alto da falésia.
Quem nunca adequou músicas de que gosta ao que vive.
Quem nunca se entusiasmou pela ideia que teve.
Quem nunca se equilibrou na linha do eléctrico.
Nunca foi eu.


Escrito em papel de mesa de restaurante. Possível jogo para realizar com jovens, crianças ou adultos.

Domingo à noite
Domingo à noite e acabei de descobrir uma coisa muito boa nos fins-de-semana de eleições.
É um fim-de-semana em que todos os amigos voltam a casa!
E assim não tive de pensar que ficaria mais 2 semanas sem os ver.

(já que as eleições por si não me estão a entusiasmar minimamente é bom encontrar estas coisas boas)

15.1.06
Maitena de hoje
- Mas se não estás interessada em casar, nem em ser mãe, nem em constituir família, para que queres um homem?
- Para tudo o resto.

abrindo o apetite
Ela tem trazido momentos de verdadeira euforia a estes dias. E é sempre do Brasil e daquele sorriso para o ecrã, do ecrã para mim e de mim para a casa inteira. Começam a ouvir-me rir e eu ainda aqui estou sentada. Rio-me e falo sozinha, falo muito.
Depois levanto-me e vou pela casa a contar a quem encontro o que aconteceu, o que li, que surpresa chegou desta vez.
E chega alguém e conto tudo outra vez e a alegria contagia.
O motivo? O motivo chama-se Nélida Piñon (e agora sinto-me envergonhada porque é uma senhora de muito respeito). É jornalista, romancista, contista, professora, é carioca! E é uma delícia ler o que ela escreve, nos e-mails e nos textos que nos enviou. Entre os seus dias cheios ela arranjou tempo para nós. Só para fazer a sua própria apresentação é que preferiu que nós escolhêssemos o que dizer. E assim deu-me uma bibliografia "muito resumida" de 13 páginas! Fiquei estarrecida das coisas que Nélida já fez. A bibliografia era de facto resumida. Contam-se 8 prémios internacionais, 6 nacionais, visiting-writer em universidades como Harvard ou Columbia, dezenas de títulos internacionais, seminários sobre a sua obra em todo o mundo, jurada dos prémios mais importantes, traduzida em mais de 20 países, membro de Conselhos de diferentes índoles. E escreveu pelo menos 17 livros. Muitíssimos bem criticada nos jornais mais conhecidos.

Nélida e esta fúria de viver estarão no próximo comtextos.

Elogio da máquina
Café expresso
Café longo
Café com leite curto
Café com leite longo
Capuchino curto
Capuchino longo
Descafeinado
Descafeinado longo
Descafeinado com leite curto
Descafeinado com leite longo
Capuchino descafeinado curto
Capuchino descafeinado longo
Leite
Chocolate
Leite com Chocolate
Chá
Água quente
Copo com espátula

Novidades:
Café expresso com cacau
Café expresso duplo
Café expresso duplo com leite
Leite com cacau


São estas as escolhas na enorme máquina que agora está na associação de estudantes. Mesmo perto das cantinas, abertas todo o dia e toda a noite para quem estuda melhor fora de casa. Junto ao tecto os aquecedores tornam as salas quentinhas mas um pouco sonolentas. Por isso não hesitamos a uma corrida pelos jardins onde chove e faz frio para uma escolha saborosa.
Junto à máquina faz-se conversa com quem não se conhece, comparam-se as escolhas, desabafa-se um pouco, enchemos o silêncio prolongado com uma gargalhada a propósito de outras paragens.

(abstenho-me de falar sobre as máquinas de comida)

14.1.06
Gentes de Marrocos SETE e STOP!



Passeio Alegre

Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
comos os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos de norte e do sul.
do leste e do oeste.
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis - assim nuas.


(Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer, 1992)





Acaba assim com uma visão de futuro escrita a giz que contemplava as notas musicais, as cores do arco-irís, o claro e o escuro, o negativo e o positivo. Histórias ficaram por contar, gente ficou por mostrar.





Última palavra para a amizade. Conhecemos o Rashid no primeiro dia em Marrakesh no comboio. Encontrá-mo-lo, de novo (após infrutíferos telefonemas ao longo da nossa jornada lá), no último dia e por acaso. Uma despedida em beleza. Foi o nosso anfitrião. A sua conversa é cativante, culta, inteligente. A forma como recebe é marroquina. Gostou de nós, deu-nos presentes, prometemos reencontros ("oxalá"). Gostámos dele, tem qualquer coisa de palmeira. E assim... STOP!

13.1.06
Pintar paredes
A propósito de um licenciado e pós graduado que andar a pintar as paredes do serviço onde trabalha segundo as suas habilitações…
Emerge a discussão.

Muitos dirão que pintar paredes não faz parte das suas competências, que é uma indignidade fazer aquele trabalho, que é uma vergonha que os seus patrões lhe peçam isso. E hasteariam bandeiras, falariam em fazer circular abaixo-assinados, denúncias em jornais e televisões, o ultraje atirado à rua em vozes fortes e punhos no ar.

Outros dirão que é um parvo. Que só faz aquilo porque estúpido. Afinal já pertence ao quadro nem tem o que temer! Ainda por cima é sempre pontual quando ninguém o controlaria… Há gente que nasceu para apanhar!..

Outros torcerão o nariz, com algum desprezo. Se calhar já tinham reparado que a pintura era necessária mas passam ao lado, sacodem o pó da tinta, incomodados, dos seus casacos. Far-lhes-á jeito o arranjo mas têm sempre assim uma crítica enjoada com tom amarelado como... “que confusão que aqui vai…”

Ele anda contente. Não se incomoda nada com o que achem. É do esforço de todos que o serviço poderá ficar melhor, mais agradável às tarefas exigentes que ali todos têm de fazer. O dinheiro é pouco e não se acomoda a esperar para sempre que haja como pagar a alguém.

Pois eu penso todos os dias se na profissão que, em princípio terei(gosto de aqui abrir os parêntesis à palavra dúvida), se haverá espaço para fazer coisas que não tenham nada a ver! Se haverá tempo para fazer com os meus colegas coisas loucas. Porque a loucura, essa loucura, é uma delícia. E eu gosto de pinturas, gosto de electricidade, gosto de carpintaria, gosto de lavar, gosto de me ver toda suja depois de um dia a pôr as coisas melhores! Que se lixe o diploma que faz as pessoas limpinhas e aprumadas.

um presente
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hoje recebi este livro. e eu sempre gostei muito de surpresas. agradeço a quem a fez. sincera.

12.1.06
Veja as diferenças: BEN KINGSLEY
uma_imagem_girauma_imagem_gira uma_imagem_gira
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Ando fascinado por este actor, perdoem-me o excesso e multifacetado culto de imagem.

Gentes de Marrocos SEIS



Uma senhora velhinha lia a mão e deitava as cartas a um senhor de meia idade, muito pertos um do outro e com ar compenetrado. Resolvi que também queria. Primeiro problema, não falava francês: levantou-se e chamou uma amiga, eram pelos menos seis só naquela zona. Enfiei o barrete. Segundo problema, o regatear era feito pensando que elas eram duas: a intérprete e a leitora. Lá chegámos a um preço. Pegou-me na mão, fez-me partir o baralho em três partes, e levá-la à minha testa; depois teve-a sempre segura junto a si. Começou num francês veloz: vais ter uma óptima vida, um óptimo emprego com muito dinheiro, não vai ter doenças nem mortes próximos, vais ter óptima saúde, vais encontrar uma mulher linda para casar, com amor (e levava a mão ao coração dela), etc, etc e depois repetia à mesma velocidade com uma ordem pouco variada. A leitora nunca mais falou e ria-se porque eu me ria muito também, afinal de contas o barrete afundava-se.

Foi das poucas situações em que pude "falar" (não conversar, isso nem pensar) com uma mulher. As outras foram a mulher das limpezas do hotel que queria limpar o quarto; uma senhora, entre as muitas, que queria pintar as mãos de uma amiga à imagem das noivas - fez uma grande confusão em plena praça, nós não queríamos pagar o preço exagerado que pedia e que não fora combinado anteriormente, ela não queria ceder. Acabámos por pagar-lhe com medo das consequências em praça pública - para além destas, apenas senhoras que nos vinham pedir dinheiro na rua, normalmente idosas. Só de si é estranho conseguir contar pelos dedos o número de mulheres (não estrangeiras) com quem falei em sete dias em Marrocos.




É um mundo de homens. A resolução de problemas pela força é uma forma de resolução. Os problemas das mulheres são resolvidos por eles também. Elas não têm voz, nem rosto, só olhos que se desviam. O espaço público não é delas, só o atravessam silenciosas e em grupos de duas, três, sozinhas ou com os maridos. Não olham para nós, nós aprendemos a não olhar para elas e quando chegamos a um café em Lisboa ainda vimos assim (mal) habituados.

Aprendem a viver assim, escondidas no mundo delas, cúmplices umas das outras, fortemente cúmplices. Mesmo nessa cumplicidade não devem poder jogar tudo, muito deve ser guardado para elas. Serão barris de pólvora mental insuportáveis ou acreditarão naquele mundo que é o que conhecem e, portanto, o certo?

11.1.06
protesto do dia cheio
Tenho muitas vezes a sensação que vivo o dia aos bocados. Bocados que não se inter-cruzam entre eles. De uns espaços para outros. Na cidade movo-me quase sempre de autocarro, de uns pontos para os outros, de umas pessoas para outras. Às vezes escolho ir a pé para que a mudança se faça sentir mais devagar. Espaços diferentes que se ligam através de mim. Porque eu gosto de dizer que vim dali e vou para ali. Não sempre. Mas tenho aprendido a gostar de o fazer, liga-me às pessoas, deixa-se cair aquela sensação estranha do vazio de não saber o que é a outra pessoa quando não está ao pé de nós. Aquela história com que brincavamos um dia destes... "tenho de ir fazer uma coisa"... como diz um amigo meu, "para mim ter de ir fazer uma coisa e não se dizer qual é, é ir à casa de banho!"
Mas não fugindo ao protesto, que se dane quem hoje me vier dizer que ter os dias cheios é que é muito bom, depois de 2 semanas sempre com o dia cheio… entenda-se de coisas que eu escolhi, que eu desafiei ou simplesmente alinhei o que me apetecia mesmo era um dia vazio!!!

10.1.06
Gentes de Marrocos CINCO



A proibição religiosa do alcoól torna-o difícil de encontrar e a preços altos. Apesar disso, e sem ter alguma explicação para isso, no dia 31 de Dezembro por volta das 23h encontrámos alguns jovens curvados em bancos de madeira a vomitar, outros estatelados pelo chão, muitos grupos agarrados serpenteando aos risos e muitos arranjando confusão em disputas e berros parecidos com claques de futebol, à imagem da 24 de Julho em sábados à noite.

Foi-nos indicada também uma loja, na Nouvelle Ville (fora das muralhas), onde comprámos vinho marroquino (horrível!!!), que vendia apenas alcoól, bebidas brancas, vinhos, licores, etc. e donde toda a gente saía com as bebidas enroladas em sacos pretos, sem sabermos se estavam a esconder a compra ou não. A loja não era nem escondida nem demasiado acessível, tinha um letreiro com neóns brilhando a palavra "Supermarket" e foi um taxista que nos indicou, sendo por isso do conhecimento público. Fica por entender a regra da proibição religiosa de beber alcoól em Marrocos.

Na passagem de ano festejámos com um brinde com chá de menta e passas compradas a um vendedor de frutos secos na grande praça Jemaa el Fnaa. Alguma discussão acerca da hora certa, subimos para as cadeiras, saltámos, abraçá-mo-nos "bom ano", naqueles 2 minutos de euforia que nunca entendi mas cumpro. Mais ninguém festejou nas outras mesas do bar e a cítara e os tambores continuaram a tocar lá em baixo.

A amena cavaqueira com um copo de thé aux menthe a acompanhar teve, entre nós, durante os dias que lá estivemos, como único concorrente à altura o jus d'orange doce, fresquinho, natural e barato. O chá é bom, é doce, é quentinho e tem qualquer coisa de ritual. Como bons turistas comprámos aqueles bules bonitos e os copos que eles utilizam. Como bons viajantes foi em casa de um marroquino que bebemos o último chá em Marrakesh e aprendemos a fazê-lo com todos os truques precisos. Há um almoço de couscous e um chá de menta prometido cá para casa, quem gostar da ideia está convidado: apareça.

(...)
Há uma pessoa que sempre que me vê dá um abraço aconchegado, naquele abraço que protege, que nos diz sempre que tudo vai correr bem. Diz mesmo. Numa voz que me habituei a ouvir ao ouvido. Num abraço que tenho a sorte de ter desde que me tenho para existir. Sabe bem ter estas coisas certas.

Esta semana recebi 3 abraços como aquele. De quem menos esperava. Todos diziam no seu demorar e ficar assim mais um pouco palavras como "tinha tantas saudades tuas, porque demoraste a voltar?". E não cobravam, estavam apenas felizes.
E voltei a sentir-me protegida.

7.1.06
Gentes de Marrocos QUATRO



Regatear é para os marroquinos uma regra do comércio. Por ali aprendem a argumentar e a "fintar" o outro. Eles levam muito a sério o negócio, como raramente cá vejo fazer: vão à rua buscar as pessoas, convidar para entrar e ver. Argumentam, explicam, convencem nem que seja pela piada que muitos têm na sua argumentação. E vão ganhando confiança através do processo de venda, perguntar um preço só por curiosidade pode ser um engano grave, a partir daí entra-se num jogo que desistir de jogar pode deixá-los ofendidos.

Habituarmo-nos a essa regra não é tão óbvio como se possa pensar, aprendemos já para o fim da viagem que o truque é oferecer um terço do preço que eles propõem com a intenção de no fim pagarmos metade. Obviamente que enquanto turistas pagaremos sempre mais que um marroquino pelo mesmo produto.

Com os estrangeiros será o nível mais básico e em que a simpatia terá mais papel enquanto "namoro". Um marroquino aprende desde pequeno a funcionar neste jogo e fá-lo com uma habilidade admirável, vimos muitos pequenos a trabalhar, a vender, a convencerem-nos a levá-los como guias. Pergunto-me se não será até uma forma de competitividade masculina, de demonstração de virilidade?

Normalmente funcionava assim, pergunta deles: "Français? Espagnol? Italien?"
Resposta nossa: "Português!"
Começo de namoro: "Ah, portugais... Bom dia... Obrigado... Figô... Nuno Gômes... Soyez bienvenus à Marrakesh, mon Ami!"

Encontrei por lá alguns mestres da sedução que fariam furor no marketing e economia ocidental. Conseguem vender tudo e são muito persistentes. Dentro deste jogo somos sempre o estrangeiro, "o turista", e a sensação que fica é que, mesmo no mais pobre dos negócios, somos sempre, por pouco que seja, enganados. Nunca "roubados" mas sempre "desarmados".

6.1.06
novidades
Mais uma novidade a juntar às recentes. O Zé Dias criou um blogue a que deu o nome Fé e Compromisso. Pois que seja muito bem vindo!

o backbone da globalização
"Backbone" quer dizer espinha dorsal. Os mais familiarizados com as coisas da Internet já devem conhecer a expressão. É usada para designar a rede principal, o núcleo de suporte de uma rede de dados. Tal como a nossa coluna vertebral suporta todo o nosso esqueleto, o backbone de uma rede é o seu suporte central.
Vem isto a propósito do meu novo trabalho, sobre o qual queria aqui escrever já há uns tempos. Estou a investigar coisas difícieis de explicar relacionadas com as telecomunicações por fibra óptica.

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Pouca gente sabe que o que está por trás de toda a facilidade em comunicar pela "net" são pequenos filamentos de sílica, o mesmo material da areia e do vidro, com espessuras inferiores aos nossos cabelos.
A história não é muito longa mas o trabalho científico produzido tem sido imenso. A revolução que nos permitiu passar a comunicar por luz começa nos anos 60 com a invenção do laser. Nos anos 70 surgem as primeiras fibras ópticas capazes de guiar a luz a distâncias superiores aos cabos eléctricos. Foi a partir dos anos 80 -- há apenas 25 anos -- que a nossa capacidade de comunicar à distância começou a aumentar vertiginosamente. Nessa altura, a capacidade de transmissão era inferior à actualmente existente em qualquer pequena rede doméstica. Desde então essa capacidade tem duplicado a cada ano que passa, tendo aumentado cerca de 20 milhões de vezes! Hoje é possível transportar numa só fibra 3.2 biliões (milhões de milhões) de bits de informação por segundo (cerca um milhão e meio dos nossos conhecidos acessos ADLS) a milhares de quilómetros de distância.

uma_imagem_gira (mapa de tráfego na rede global de telecomunicações em 2005)

Não é por acaso que o nosso mapa geopolítico e o mapa do tráfego na rede a nível global apresentam coincidências. As riquezas da globalização circulam também dentro das fibras ópticas. E aí as desigualdades são notórias e mostram que informação é mesmo riqueza. Mas se é pelas fibras que circulam os milhões de dólares do comércio bolsista mundial, com a sua quota-parte de especulação, é também por elas que passam os programas informáticos desenvolvidos por engenheiros indianos e chineses, outrora demasiado distantes dos pólo de desenvolvimento de software. A globalização deu-lhes a hipótese de uma vida melhor.

Apenas algumas dezenas de anos permitiram-nos ligar aos nossos antípodas à velocidade da luz. Literalmente à velocidade da luz. Muito está ainda para vir. Saibamos aproveitá-lo para nos aproximarmos uns dos outros.

Olá bailarina
“Olá bailarina” e aquela voz aveludada sentou-se, pesada, ao meu lado. Eu estava a ler umas coisas enquanto esperava. A sensação era que toda a gente olhava para mim, porque numa sala de espera espera-se que se leia revistas ou que se veja a telenovela ou não se faça pura e simplesmente nada a não ser observar os outros. Eu mexia-me um bocado demais porque as folhas caíam e as canetas também… de quando em quando. Sorria e deixava que me as apanhassem agradecendo.
“Olá bailarina” e antes de me virar reconheci aquela frase dirigida a mim há mais de 17 anos. Era assim que ela me chamava sempre quando eu passava a correr da casa de banho (a casa era um lugar mágico, eu e a minha grande amiga ali podíamos rir a “bandeiras despregadas” sem ninguém nos dizer que tínhamos de parar porque a outra Inês ficava demasiado vermelha). Nós passávamos a correr e ela dizia “olá bailarina”. E eu tinha um certo medo dela, é que era muito, muito grande e estava sempre sentada à porta daquela sala.
Hoje falei com alguém que realmente não conheço.

uma_imagem_gira

Actualização tardia
BLOG ADICIONADO NA COLUNA DA DIREITA! Ficou ali entre o Palombella Rossa e a Quinta Coluna, espero que convivam bem.

Agradecido desde já pelo azulejo que me é dedicado pelo fim de uma etapa. Ainda cá tenho o azulejo que me deixou quando iniciei essa etapa, será que ele ainda se lembra!? Dizia assim:

"Li isto e pensei em ti. O gajo que o escreveu também estava a acabar o liceu:

«O princípio fundamental que nos deve guiar na escolha de uma vocação é o bem da humanidade e o nosso próprio aperfeiçoamento. Não se deve pensar que esses dois interesses são opostos e que um tem forçosamente de destruir o outro. Pelo contrário, a natureza do homem faz com que este só se possa realizar trabalhando para o seu próprio aperfeiçoamento e para o bem da sociedade em que vive... Diz-nos a história que os grandes homens foram sempre aqueles que se enobreceram trabalhando pelo bem universal.»

Karl Marx, «Reflexões de um rapaz perante a escolha de uma profissão» "

Gare de Lest leva um grande abraço meu.

Gente de Marrocos TRÊS



Je t'écris de la main gauche
Celle qui n'a jamais parlé
Elle hésite, elle est si gauche
Que je l'ai toujours cachée

Je la mettais dans ma poche
Et là, elle broyait du noir
Elle jouait avec les croches
Et s'inventait des histoires

Je t'écris de la main gauche
Celle qui n'a jamais compté
C’est celle qui faisait les fautes
Du moins on m'l'a raconté

Je m'efforçais de la taire
Pour trouver le droit chemin
Une vie sans grand mystère
Où l'on n’se donne pas la main

Des mots dans la marge étroite
Tout tremblants qui font des dessins
Je me sens si maladroite
Et pourtant je me sens bien

Tiens voilà, c'est ma détresse
Tiens voilà, c'est la vérité
Je n'ai jamais eu d'adresse
Rien qu'une fausse identité

Je t'écris de la main bête
Qui n'a pas le poing serré
Pour la guerre elle n'est pas faite
Pour le pouvoir n'est pas douée

Voilà que je la découvre
Comme un trésor oublié
Une vue que je retrouve
Pour les sentiers égarés

On prend tous la ligne droite
C'est plus court, oh oui, c'est plus court
On voit pas qu'elle est étroite
Il n'y a plus d’place pour l'amour

Je voulais dire que je t'aime
Sans espoir et sans regrets
Je voulais dire que je t'aime, t'aime
Parce que ça sent le vrai

(De la main gauche, de Danielle Messia, cantado por Catherine Ribeiro)

Mostrou-me esta música hoje, uma amiga. Cantámos os dois. Nada melhor que ela para descrever as mulheres em Marrocos. Voltarei a falar sobre elas, sim.

5.1.06
Gentes de Marrocos DOIS



Andar por Marrocos precisou de uma aprendizagem do olhar que filtrasse tanta informação, novidades a cada momento e em cada esquina. Foi difícil entender o meio termo entre acolhimento, em que eles têm orgulho no receberem bem, e o jogo do engano de que é preciso desconfiar, muitos deles ganham dinheiro por uma comissão no hotel a que nos levam por simpatia, no taxista a que nos indicam ou até mesmo no espaço onde vamos comer.

Culturas diferentes fazem homens diferentes em tudo o que vivem, nas qualidades que incentivam, nas ideias que difundem. Rashid, especialista em Direitos das Mulheres, acredita que somos todos o mesmo: todos nascemos da mesma maneira, temos as mesmas necessidades fisiológicas, as mesmas necessidades de religião, de efectivar a vida, de amar. O ser humano é bom de si mesmo. Uma criança marroquina levada de pequenina para os Estados Unidos é um americano, um americano levado de pequenino para Marrocos é um Marroquino. Somos TODOS seres humanos e brilha-lhe o olhar quando diz isto.

Rashid foi assim como uma lupa que ajudou a entender toda aquela sociedade, uma espécie de filtro para viajantes. Conhecemo-lo no comboio bien sûr.

4.1.06
Defeito
Absoluta necessidade de calar.
Quando uma pessoa, há dias em que encontramos as pessoas assim, começa a dizer muito mal de uma coisa, ou muito bem de outra qualquer com que não concordo mesmo nada... quando constrói uma grande teoria que tenho vontade de arruinar com um rajada de palavras rápidas e seguras que surgem na minha cabeça... quando sinto que só falam por falar, para dar um "ar de interessante" fico fula. (este ar de interessante dá outro post)
Como disse não é por falta de palavras que dessem resposta. É uma absoluta necessidade de calar a raiva, de não a fazer sair a galope. Fico-me a roer por dentro. E assim não ofendo. Mas assim quem passa por parva sou eu, quem passa por não ter ideia nenhuma sou mesmo eu...
Hoje o caso foi o "The Constant Gardener".

Gentes de Marrocos UM



Não somos tão parecidos como julgamos à partida. Não gosto de falar em conjuntos de pessoas: os marroquinos são... nós os portugueses somos... Mas há alturas em que é inevitável porque ir aonde nos é estranho implica compararmos com o que nos é habitual, digo "normal". E implica que o de lá nos questione no que vemos, donde viemos.

A certa altura, numa viagem de comboio noite dentro, estava completamente bebado de sono, muito cansado, mas entusiasmado na conversa com um professor de economia social que conhecemos no comboio - são óptimos sítios para conhecermos pessoas, os comboios, sem pretensões - e dei por mim a explicar-lhe que um cantor brasileiro de que gosto tem uma música que passámos a viagem a cantar e cantei-a. A letra diz a certa altura que "você já está para lá de Marrakesh". Tentei explicar-lhe o que a letra me sugeria no meu francês.

Você já está para lá de Marrakesh é estar depois de tudo, algo depois do real, o surreal. É estar perto do fim de tudo, onde a confusão e a desorganização podem existir, as coisas podem demorar mais tempo, qualquer coisa daquele estado entre o adormecer e começar a sonhar, um pé em cada lado. "Muito bem esgalhado este povo, este país."

Gentes de Marrocos
Esse papo já tá qualquer coisa
Você já tá prá lá de Marrakesh
Mexe
Qualquer coisa dentro doida
Já qualquer coisa doida
Dentro mexe
Não se avexe não
Baião de dois
Deixe de manha, deixe de manha, pois
Sem essa aranha, sem essa aranha
Sem essa aranha
Nem a sanha arranha o carro
Nem o sarro arranha a Espanha
Meça, tamanha, meça, tamanha
Esse papo seu já tá de manhã

Berro pelo aterro
Pelo desterro
Berro por seu berro
Pelo seu erro
Quero que você ganhe
Que você me apanhe
Sou o seu bezerro
Gritando mamãe
Esse papo meu tá qualquer coisa
E você tá pra lá de Teerã

(Qualquer Coisa de Caetano Veloso)


Logo no começo discutiu-se as diferenças entre "turista" e "viajante": a opinião não era unânime. Analisando etimologicamente percebe-se que o turista faz um tour e o viajante uma viagem. Nao houvesse mais nenhum argumento este bastava: a carga da palavra "viagem" é-me mais agradável.

O preconceito em relação à palavra "turista" continua. O viajante quer conhecer profundamente o espaço para onde viaja e agrada-lhe ir de comboio. O turista vai de avião e consome o que lhe põem na mesa. O viajante vai a casa das pessoas, foge para ruas pequenas abandonando as principais e comunica muito. O turista refugia-se nas pulseirinhas e nos guias e consome o que lhe põem na mesa. O viajante dorme mal e torto e acha piada a isso, o turista terá sempre um pequeno almoço ocidental no seu hotel Ibis.

Diria assim um amigo meu: "o turista e o viajante são ramificações da mesma árvore, como primos. Ambos se destinam. E destinam-se para conhecer novas coisas. A novidade é importante. Os povos e as terras. Há uma diferença de espírito óbvia, o viajante é aventura, o turista mais acomodado em segurança. O viajante procura relacionar-se com proximidade e intensidade porque procura concretizar a viagem, apalpá-la quase, tornar-se parte. O turista? ao turista acho menos piada ver-lhe as fotos que tem para mostrar na volta."

Serve esta introdução para vos mostrar fotos da minha viagem. Vou pôr uma por dia nos próximos dias. São as gentes de Marrocos.

3.1.06
Calor na serra
Aquelas mãos. Mulher. Outras mãos. Homem.
Recolheram o leite das cabras, ele. Das ovelhas, ela.
Cedo, ainda o sol não aparece atrás das montanhas ali à frente.
O frio lá fora é cortante, completamente impossível abrir a boca e por ela respirar… o ar gelado entra para dentro e parece não ir embora nunca.
Umas horas depois, quando ele sai para guardar o gado pelos campos, o dia inteiro, parado, numa sabedoria intrigante, ela entra em casa. Encontra-nos expectantes.
Iria ensinar-nos a fazer queijo da serra. Muito curvada, numa flexibilidade só possível a quem passa a vida inteira acocorada ela começa a explicar. O Cardo, a mistura dos leites, o coalhar. Depois senta-se num banco muito baixo e começa a recolher da panela do leite o que seria o seu queijo. Aperta-o, enterra as mãos nele, vai fechando o arco que o segurará, aperta mais um pouco. Feliz ela estava por nós ali estarmos, todos quase crianças para ela, todos olhos postos naquelas mãos, naquele lume ali muito perto. Todos ouvidos atentos à história do queijo e do requeijão, mas sobretudo à história da sua vida.

2.1.06
um Deus absolutamente relativo
Para começar o ano, um bocadinho de Teologia da crónica de Natal de Frei Bento Domingues ("Público", 25/12/2005). Com votos sinceros de bom 2006:

O papel de Jesus Cristo não é o de abolir ou substituir qualquer religião: "Não vim revogar, mas levar à plenitude" (Mt 5, 17). Ao não ter fundado nenhumas, o que importa é saber como é que ele foi religioso. Surge completamente descentrado para Deus, um Deus com quem tem uma relação filial e de quem recebe o Espírito que faz ver o mundo não com olhos de condenação, mas de transformação, "para que a alegria seja completa" (1Jo 1,4). Surge relacionado com todos os seres humanos a começar por aqueles que perderam todas as relações, gente só, gente condenada e pessoas com doenças físicas ou psicológicas.
No contexto da sua intervenção, esta atitude é uma crítica implacável à própria religião em que cresceu e foi educado. Não por ser religião, mas por não religar a causa de Deus e a causa dos pobres e excluídos. Diríamos, então, que Jesus é profundamente religioso e profundamente crítico da religião, seja ela qual for. Não pode tolerar o intolerável, o insuportável: que em nome de Deus se estrague a vida humana.
A diferença absoluta de Jesus consiste em ser absolutamente relativo: relação a Deus e relação aos outros. O amor incondicional cria, não apaga, as diferenças. Só está interessado em libertar a bondade e o sentido mais profundo de toda a realidade. Não pretende absorver a Deus nem o mundo. É o Caminho, a Verdade e a Vida que não substitui nenhum caminho, nenhuma verdade, nenhuma vida. Por isso, não há outro nome no qual possa ser salva a dignidade de todos (Act 4, 12).
Jesus não pertence nem ao mundo da indiferença nem ao da imposição: é o puro milagre de uma história humana curta, numa geografia muito limitada, com energia sobrenatural para atingir todo o tempo e lugar, como sustenta Tomás de Aquino.
É a promessa do renascimento do mundo. Como disse Jesus a Nicodemos: "Precisas de nascer de novo." Talvez precisemos todos!



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