26.7.06
Até breve
Hoje, sem saber que seria a sua despedida ela convidou-me a espreitar este site.
Aqui vos deixo uma certa inquietação por viver. Bem. Não adianta ter pressa.

Por vezes tive a estranha sensação de as pessoas saberem das minhas coisas por este blog... e talvez por assim me sentirem perto e por ser essa a sua vontade... a saberem de mim, que me deixavam de telefonar (porque o telefonema poderia ser mais para contarem da sua vida).
Nas próximas 7 semanas não poderão saber de mim por aqui. Convido-vos então a conhecer a minha nova morada:

Inês Patrício
Grupo Bússola
Casa das Irmãs Doroteias
CP 611
Trindade
S.TOMÉ E PRÍNCIPE

Entre o pó, o cansaço e o surpreender, tentarei responder a quem me visitar.

20.7.06
Forma ateia de olhar uma oração
Chamou-nos de parte e disse-nos “vocês as duas ficam responsáveis por todas as orações durante as 7 semanas”. E eu pensei apenas, “porquê eu?”. Durante um ano inteiro nunca me tinham pedido nada nesse sentido. E ele continuou dizendo que teríamos de escolher um tema geral que se dividisse em 7 partes. Pensando em propostas que os outros, à vez, tornassem concretas... em 2 dias de cada uma das 7 semanas. E eu continuava a pensar “porquê eu”. E não consegui esperar, perguntei. E ele explicou porquê nós as duas.
Tentei descansar-me “é como um campo de férias” mas cada tema tem de durar 7 dias, duas paragens mais demoradas dentro desses 7. Assustei-me outra vez.
E ele explicou a importância que tudo aquilo teria para o grupo, que teríamos de ser atentas ao que se estiver a passar em cada altura, para que a nossa proposta não seja cega. E que aqueles momentos são muito importantes para perceber quem está bem, para nos equilibrarmos uns com os outros.
Pensei já à noite em casa, no silêncio do demorar a adormecer... É como um campo de férias... e o meu desafio, que defino para mim mesma, é não recorrer a nada que já conheça e que já tenha utilizado, porque também quero novidade para mim.
O sono começava a fazer correr as ideias... que diferença faz a oração de um outro grupo qualquer que se senta para ler um texto ou ouvir uma música que alguém gosta, faz sentido e apresenta? Claro que para quase todos eles deste grupo, Deus estará nas suas palavras. E eu acho bonito mas não consigo sentir assim. Como diz uma amiga minha dela mesma, é qualquer coisa que existindo está demasiado lá no fundo, demasiado pessoal para se falar.
E então qual será a diferença? Se o texto, a letra de música ou a proposta em nada tem de ser diferente entre aquele espaço e outro qualquer onde haja vontade de crescer, onde fica a diferença? A única que encontro até agora é o silêncio. Porque o silêncio pode ser muito longo porque ninguém tem de falar... e quem falar falará no silêncio. E naquele momento não se vai interromper, não se vai discutir, não se vai argumentar. Cada um tem o seu espaço só. Tempo. E isso, falando como uma ateia que assiste a uma oração, dificilmente se encontra outros espaços que o façam.

15.7.06
Filme pela noite fora
Era uma estrada atravessando campos e um casal viajava de carro. Ela estava convencida de que aquele era o caminho.
Ele não. Perguntou a um senhor que caminhava ao longo da estrada.
Era aquele o caminho. Era o início do filme e mais por preguiça do que tinha de fazer do que por vontade de ver um filme fiquei… era italiano.
A cena seguinte era numa aldeia junto ao padre. Ele ia casá-los, tudo bem, mas queria saber que imagens tinham eles do casamento. Eles ficaram surpreendidos, para casar era preciso dizer aquilo?

Então pensaram e ela começou… Quando vejo patinagem artística acho tudo muito bonito e mágico. Gosto muito de ver. Eles patinam sobre lâminas, sobre um chão escorregadio e gelado e no entanto nada parece importunar o encanto.

O rapaz riu-se. Disse que nunca tinha pensado numa imagem para o casamento. Mas ao ouvi-la lembrou-se que também gostava muito de ver patinagem, mas que pensava sempre que a música estava desajustada, faltava-lhe romance, harmonia.

E então estavam a casar-se. O padre pede-lhes que repitam alto os votos do casamento, junto a uma igreja cheia, e depois do texto normal “prometo ser-te fiel… excepto uma ou outra vez, porque toda a gente sabe que isso traz nova chama ao casamento. Lá haverá vezes em que te tratarei mal mas toda a gente sabe que o tempo passa e o amor mirra e a vida…” Uma grande conversa que sou incapaz de reproduzir, até que o pai da noiva, depois da perplexidade de toda a audiência (filmada em grandes planos) diz, “Por favor pare com isso!!!”. E o padre dá uma gargalhada e diz “Finalmente que alguém me manda calar!”. E começa então a dizer percentagens de casamentos que não dão certo ou que têm as tais escapadelas dizendo que não os quer enganar, não lhes quer dizer que isso não acontece e que não lhes poderá acontecer.
Desce para junto dos convidados, os noivos viram-se para trás (de frente para as pessoas), sentam-se e o padre pede aos convidados que contem a história daquele casal. E eles contam, amigos, pais, etc. Por ser inesperado, por ser espontâneo teve um resultado magnífico.

O filme corre e torna-se surpreendente. Não contarei, porque estraga e porque eu tirei coisas para mim e só para mim.
Queria só dizer que o padre pergunta à audiência se todos se responsabilizariam pela felicidade daquele casal… E a audiência vai dizendo que não é possível “se nem pela felicidade própria nos podemos prometer”… E então, sempre gentil e desconcertante, o padre manda toda a gente para fora da igreja pois se o casamento é apenas dos dois ficarão apenas os dois, a festa seguir-se-á com todos.

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Casomai

11.7.06
Ney, uma vez mais
Ney Matogrosso novamente no pátio das escolas, na universidade.
Há dias em que é muito difícil convencer as pessoas de que vale a pena. Não interessa que gostem muito, que conheçam ou não a música, não interessa se têm os CD's em casa, não interessa se o dia já vai longo a convidar a ficar em casa.
É um espectáculo que vale muito a pena! Eu já vi. E insisti, insisti. E fomos. Fomos.
E todos gostámos muito e todos saímos a cantar, admirando um homem que é extremamente tímido e extremamente sensual. Encheu o pátio, a vista sobre o mondego.


Se canto sou ave, se choro sou homem
se planto me basto, valho mais que dois
quando a água corre, a vida multiplica
o que ninguém explica é o que vem depois


Ney, sentiu-se a liberdade, sentiu-se a dignidade.

uma_imagem_gira
E esta música fica aqui, porque a cantámos alto, porque apeteceu dançar, porque a oiço cantada ou assobiada desde que me lembro de ser gente.

Bandolero
Letra e música: Lucinha

E se falasses magia sonho
e fantasia
e se falasses encanto
quebrando condão não te
enganarias não
fossem ciganos a levantar poeira
a misturar nas patas, terra de
outras terras, ares de outras matas
E eu bandoleiro no meu
cavalo alado
na mão direita o fado, jogando
sementes no campo da mente
E se falasses magia sonho e fantasia
e se falasses encanto quebranto
e condão feitiço transe viagem
alucinação
... miragem

(ouvir)

8.7.06
espera
4 vacinas, um quase-desmaio e um panasorbe depois... doem-me os braços mas algo que eu sempre quis fazer (e desconfio que terei vontade de repetir) está cada vez mais perto. Deu-se a transformação do "eu gostava de ir", para "eu vou". E estas transformações são as que eu mais gosto.
Latitude zero, custa muito esperar 21 dias.

6.7.06
troca de imagens
uma_imagem_gira

Esta é a imagem que eu ontem queria ter posto aqui. Por alguma triste coincidência a cor ficou a puxar para o lado errado.

5.7.06
um sítio bonito, para todos os efeitos
uma_imagem_gira

Portugal-França, hoje às oito, em Munique.

Ontem, finalmente, vi Hotel Rwanda.
Perguntaram-me hoje se consegui dormir depois de o ver (que aliás é uma razão para muitos se recusarem a ver este filme).
Eu dormi muito bem. Porque no meio daquela chacina, daquela barbárie, daquele desespero houve um homem que com toda a sua simplicidade salvou mais de 1200 pessoas. Porque ele queria proteger a sua família mas foi muito mais gente que lhe pediu ajuda. Porque ele aguentou enquanto pôde a elegância e a inteligência para ganhar tempo, conseguir comida, conseguir quem guardasse aquelas pessoas (porque a única coisa que os mantinha vivos era estarem dentro de um hotel de quatro estrelas). Porque ele ofereceu o que seria a última bebida à mulher no telhado do hotel, dizendo que tinham tido uma vida muito boa. Riram-se os dois de confissões inconfessadas. E, depois disso, abraçou-se aquela mulher, a sua mulher, pedindo-lhe que saltasse do telhado com os seus filhos quando as milícias chegassem, que não os deixasse vê-la morrer primeiro… e que morrer desfeito por catanas era uma coisa horrível demais.
Àquele homem foi oferecida protecção, mas seria apenas para ele… E ele chorou e gritou “Dê-me um tiro, mate-me a mim e à minha família que já nada me fere”.
Dormi bem porque aquele homem tranquilo teve a coragem de não abandonar a sua gente (tutsis e hutus).
Dormi bem porque há muitas pessoas que têm a enormíssima coragem de mudar o curso da história, de renegar tudo o que é “vidinha”.


o verdadeiro Paul Rusesabagina

Hoje acordei com o coração apertado… Porque pensar e escrever sobre estas coisas não chega. É muito pouco. É nada.
Que farás, Inês?

3.7.06
todos-os-dias
Detesto ver alguém palitar os dentes mas acho muita graça a ver os pequenos lápis de carpinteiro presos atrás da orelha.
Arrepio-me nervosa ao perceber que alguém está cortar as unhas num local público mas acho bonito perceber que outro alguém trauteia um ritmo com as unhas num qualquer objecto.
O som de uma volumosa e alheia escarreta dá-me a volta ao estômago mas um poderoso e inesperado espirro dá-me vontade de rir.
Irrita-me o barulho poluído das motorizadas mas cresce a vontade de ter uma calminha para mim, para passear mais longe em paisagens bonitas.
Chateiam-me as pessoas que falam muito alto e as pessoas que falam demasiado baixo, mas um grito ou um segredo podem saber pela vida!
Não gosto de entrar em casas que parecem uma esterqueira mas as casas demasiado limpas deixam-me desconfortável (viverá aqui alguém?).



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