29.9.06
Anos inquietos
Quetzal é um pássaro
Quetzal é um pássaro da Guatemala
Quetzal é um pássaro que se mata quando o metem na gaiola

Quetzal prefere o suicídio à traição do instinto da espécie
no baloiçar que paga, entretendo, os carcereiros das migalhas.

Quetzal é um pássaro de juventude, de uma juventude que tem o instinto da
Liberdade.
De uma juventude que se quer livre, voando nos campos imensos dos mais
nobres ideais.


Comunicado da Direcção da AAC de 16 de Julho de 1969


«As entrevistas são como o amor: são precisas pelo menos duas pessoas para as fazer e só saem bem se essas duas pessoas se querem. De contrário, o resultado será um estendal de perguntas e respostas das quais, no pior dos casos, pode sair um filho, mas nunca sairá uma boa recordação» Gabriel García Márquez

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Assim encontrei o início deste livro, depois de o ter começado a ler pelo fim. Melhor que ler sobre histórias que gostamos (neste caso sobre o movimento estudantil em Coimbra 1961-1974) é ler o que pessoas que admiramos têm a dizer sobre o que (lhes) aconteceu.
Talvez tudo o que eu pense e acredite venha das minhas heranças… mas é fabuloso aprender com esta gente que se pode querer viver num "triângulo" de "CORAGEM, INTELIGÊNCIA e BELEZA".

26.9.06
percurso (in)completo
Serralves fechado. Um café e uma conversa saborosa sobre o que queremos dos nossos futuros.
Mercado das artes aberto... Mas pequeno demais para me distrair.
A minha querida amiga precisava de trabalhar.
Centro Português de Fotografia fechado.
Decidi-me a terminar as tentativas de me distrair e fazer o que me apetecia mesmo... andar sozinha, a pé, vagueando pela cidade (na noite anterior, num filme que não vi, tinha lido "nem todos os que vaguem andam sem rumo"). Desci dos Clérigos à Ribeira pelo caminho mais longo que encontrei. Sentei-me numa esplanada, escrevi algumas frases sem muito jeito. Bebi ice-tea. Continuei a pé até à Alfândega. Estava um sol mesmo bom. Subi pelas íngremes "escadas das sereias" e, depois de uma longa rua, duas horas depois, encontrava-me no início outra vez.
No início outra vez.

23.9.06
"Sonho Português"


«1. Bonito
(...)
2. Muito bonito. Um dia
(...)
3. Você é muito bonito. Um dia
(...)
4. Você é muito bonito. Um dia vou casar com você
(...)
5. Branco, você é muito bonito. Um dia vou casar com você
(...)
E depois, um pouco na brincadeira, sem grande convicção, pediu-me uma moeda, senhor doutor juiz. E eu pensei: nesta terra não há muito turismo. (...) Não é bom habituar as crianças a pedirem (obterem) esmola. (...) E eu lá disse: não te dou, desculpa. Não, não te dou. E ela ficou algo descoroçoada, eu vi que ficou. Mas também não pedira com grande convicção, apenas porque algo dentro dela achara que fazia parte, fazia parte do filme; o filme da rapariguinha local e do matacão turista. E foi então, quando me afastei, que ela num riso chamou;
Branco!
Virei-me, senhor doutor juiz, juro que a única coisa que fiz foi (e estava a uns doze passos da criança) virar-me. E ela, para mal dos meus pecados, completou a frase, não sei se em jeito de desafio, se em ameaça, se em brincadeira, se em prometedoira promessa, a frase que anda hoje me assombra, a frase que ainda hoje me maltrata, a frase que até ao fim dos meus dias me doerá:
Branco, você é muito bonito. Um dia vou casar com você!
»

(de "A lenda de S. Tomé", por Rui Zink, na "Egoísta" deste mês)

22.9.06
Pouco turístico.
Estive em comunidades pouco turísticas.
É pouco turístico…

Lemos. Lemos é pouco turístico.
Porque é uma comunidade que fica isolada 8 meses por ano por a sua estrada se transformar num enorme leito de água.
Porque ali as pessoas não estão habituadas a ter simpatia e por isso também não são muito afáveis.
Porque não há uma casa antiga daquelas de feitor… apenas casas de madeira frágil que seguem o curso de uma longa estrada.

Plateau. Plateau é pouco turístico.
Porque é uma roça que sendo ao lado da importante roça de Java não recebe visitas.
Porque as crianças andam muito sujas e muito rasgadas… Porque elas não conhecem os nossos jogos e demoram muito tempo a percebê-los.
Porque as mulheres não são muito bonitas e os homens também não.

S. José. S. José é pouco turístico.
Porque na maior parte dos dias aquela roça mal se vê encoberta pelo denso e frio nevoeiro.
Porque as crianças não pedem “doce, doce” e porque todos os dias esperam que tenhamos alguma coisa divertida para fazer.

Nova Moca. Nova Moca não é muito turístico.
Porque tudo aquilo que já foi já não é. Porque a casa grande está toda destruída.
Porque impressiona ver dois meninos muito loiros a correr tão nus e sujos como todos os outros.
Porque nenhum adulto gostará que não saibamos o seu nome.

Malanza. Malanza é muito pouco turístico.
Porque não há água nem luz.
Porque temos acartar baldes de água o dia inteiro. Porque temos de tomar banho no rio junto aos porquinhos ou no mar com 50 crianças a seguir-nos e a olhar-nos. Porque tudo o que fazemos é vigiado com a curiosidade de uma série televisiva que eles não sonham que possa existir.
Porque as mais de 300 crianças da comunidade só conhecem brancos que lhes vieram dar brinquedos e foram embora… e ameaçam-nos quando dizemos que não os temos, que só viemos brincar com eles.
Porque todos falam “angolar” que é um dialecto incompreensível para grande parte dos s. tomenses e soa a agressivo.
Porque a única coisa ali construída em condições é a estrada… e não foi construída para eles e sim para dar acesso a locais, esses sim, muito turísticos.

...


Estive em locais pouco turísticos e por isso parece que o tenho para contar e não consigo não se vê em bonitas fotografias… e no entanto elas são muito bonitas. E toda esta gente me ensinou mais do que todo o turismo que já fiz.

21.9.06
Amor-cão
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À mesa. A propósito de nada. Que é quando as histórias sabem melhor contaram-me esta.
Era uma cadela cor de cão (sei que ele queria dizer com isto: castanha), muito simpática e pequena. Esta cadela teve cachorrinhos. Sobravam dois num dia em que levaram a cadela para longe dali. Quem a levou tinha-se enamorado dela e, pedindo às suas donas, elas acederam àquela oferta pedida.
A cadela portou-se mal. Matou um pavão. Escondeu-o num sofá ao fundo das escadas, por baixo de um pano. Encontraram-no uns dias mais tarde, seguindo um estranho carreiro de formigas.
O novo dono devolveu a cadela e levou um dos cachorros. Mas antes de o poder levar assistiu à cadela vomitar mais de um kilo de comida. Ela havia comido tudo aquilo à pressa antes de sair de casa (coisa nunca acontecida). Pareceu querer oferecer aos filhos, ali abandonados uns dias atrás. Mas eles estavam ofendidos, viram-lhe as costas. Fugiram dela.
Pois a cadela voltou a comer tudo. Zangou-se também.
Um cachorro foi embora na carrinha do homem. Ficou o outro. E aquela mãe e aquele filho continuaram amuados. Evitavam-se. Rosnavam-se.
Houve então a noite passada. As mulheres daquela enorme casa fecharam os portões não encontrando este filhote de cão. Choveu a noite toda e toda a noite o cãozito ganiu. Só de manhã o encontraram encharcado, gelado e triste do lado de fora do portão (sorte não ter sido atropelado). Aquelas meigas mulheres pegaram nele e colocaram-na na casota da mãe-cadela. Disse uma delas “eu não sei o que aconteceu entre eles ali, nem o que lhes ia naquelas cabecinhas mas olha para eles agora...” Então, o cachorro voltara à rua muito limpo e contente. Desde então, mãe e filho, brincavam como só dois cães conseguem. Uma delícia de se ver... dizem.

(foto de Elliott Erwitt, só porque lhe acho graça)

20.9.06
Ele escreveu assim
uma_imagem_gira

"Os futuros que se enchem terão um novo impulso e serão ainda mais
cheios de diversidade depois de mês e meio de passado que se
advinha cheio. A minha filha está a chegar!"


(até aqui este post é totalmente copiado sem autorização do seu autor)
Foi o Zé Pedro.
E como o descobri a ele, ao chegar, li muitos e-mails do googlegroups... Discutiam como e quando eu chegaria. Como me receberiam... o que seria feito de mim. Todos sabiam quem tinha recebido cartas.
Estranhei, desde o início, o valor que as pessoas que gostam de mim deram a esta minha opção. Acompanharam um ano de preparação... os meus avanços e recuos. As minhas dúvidas. Eu que nunca pensei encher uma mesa de 10 pessoas no jantar de angariação de fundos… acabei por ter 34 amigos. Desafiaram-me a pensar. Abanei... primeiro não gostando (como a menina ao primeiro gomo de tangerina) e depois já em S. Tomé percebi.
Todos acreditam que me terei transformado. Eu também acredito... mas não sei. Não o sei ainda.

espuma dos dias, água do futuro
Sobre a espuma dos dias escrevem hoje Vicente Jorge Silva e Vasco Graça Moura, no "DN". A já famosa aula do Papa na universidade de Regensburg é o mote para o primeiro concluir que a suposta inocência das palavras de Bento pode ser um disfarce de hipocrisia e para o segundo mostrar que a polémica citação estava devidamente enquadrada, usando um "com uma rudeza bem surpreendente e que nos espanta" a começar e um "depois de se ter pronunciado de maneira tão pouco amena" a fechar.
Já o apelo de prudência de Vicente Jorge Silva é mais pertinente:
«seria suposto Bento XVI conhecer esse estado das coisas num mundo onde a irracionalidade das "identidades assassinas", como lhes chama Amin Maalouf, é largamente alimentada pelo ressentimento face ao Ocidente e ameaça ganhar terreno através do universo muçulmano.»

Enquanto isso Carlos Pacheco escreve no "Público" sobre problemas mais graves:
«Um especialista, em declarações ao Der Spiegel, aventava a hipótese de nos próximos anos o preço do barril do petróleo poder ascender a 200, 250 dólares. Um fenómeno que, a acontecer, terá efeitos devastadores porque se traduzirá na derrocada da economia mundial, da qual possivelmente apenas se salvarão (com danos irreversíveis) meia dúzia de países dominantes no macrossistema económico internacional. Este é talvez o grande medo, o pior de todos, que se cola à pele de todos nós quando olhamos ao redor e vemos o vazio civilizacional (...) em que estamos metidos. Mas não é só o petróleo e o gás que fazem perigar o futuro da humanidade pela sucessão de crises, fome e guerras que a satisfação desenfreada e a lógica do mercado promove (o caso do Iraque é exemplar). O ciclo da água está prestes a inaugurar uma nova fase histórica de longas perturbações planetárias, em dimensão não menos explosiva e cruenta que o ciclo do petróleo. Tudo auspicia que este recurso, por ser escasso, se converterá à escala planetária naquilo que o pesquisador Chietigi Bajpaee chama o grande "catalisador emergente" de revoltas, agitações e confrontos bélicos entre Estados.
(...) o mais arrepiante, nas previsões do Banco Mundial, é o que nos reserva o ano de 2025: uma terça parte da população mundial não terá acesso à água, ao passo que a oferta, mesmo nas regiões mais desenvolvidas (segundo projecções da ONU), será 56 por cento inferior à procura. Pois não se pense que este amanhã está longe e se possa esconjurá-lo.
(...)
Um último cenário apoquentador: nos quatro cantos do mundo as comunidades estão a perder o controlo da água. Os governos, ao invés de protegerem este precioso líquido para a recuperação dos seus povos, estão a proceder à sua privatização e a entregá-lo a exploração e comercialização das corporações transnacionais, como a Coca-Cola, a Nestlé, a Pepsico, a Bechtel e a Danone. Resultado: em África (que possui as maiores reservas aquíferas da Terra) os pobres morrem de sede.
»

19.9.06
Pormenores de quotidiano
Ao som de “Volver” interpretada por Estrella Morente…
Foi o filme que me pareceu fazer sentido ir ver... ao sentir a dificuldade de aqui voltar.
S. Tomé.
Minúscula ilha no meio do atlântico. Minúscula ilha, grande de mais para caber em mim. Grande demais para se descrever.
Minúscula ilha em 7 semanas feitas de minúsculos pormenores.
Pormenores de quotidiano.
BÔ TENDÊ? (significa “compreendes?”… mas acho que não.)

18.9.06
"crer com dúvidas"
«(...) lembrei-lhe que, desde o século II da era cristã até ao recente reencontro com o apócrifo Evangelho de Judas, a hierarquia da Igreja não foi com os agnósticos que teve mais problemas, mas com os "gnósticos", aqueles que pretendem saber, sem tirar nem pôr, por que razão andamos perdidos e julgam conhecer o caminho exacto para a salvação fora do corpo e deste mundo. A conversa não se resumiu a isto. Foi uma manhã muito teológica, observando-lhe que se não queria ser um agnóstico preguiçoso, ainda teria muito que andar e pesquisar para nascer de novo. Ao pôr do Sol, a questão de outro leitor não andava longe da precedente: "Sou católico praticante e devoto de Nossa Senhora. Acabo mesmo de entrar na capelinha da Senhora dos Navegantes para rezar. Mas tenho muitas dúvidas acerca de vários pontos do Credo." Esta declaração também abriu um longo diálogo, que não iria ficar por ali. Mas comecei por dizer que estaria mais preocupado se fosse um católico fervoroso, como ele de facto era, e que não tivesse dúvidas. Nós só podemos crer interpretando. O terminal da fé não são as afirmações do Credo, mas o Deus inabdicável por qualquer conceito, um princípio interminável de viagem, uma peregrinação sem fim à vista, um aprofundar infinito do desejo de infinito. São os fundamentalistas e os fanáticos de qualquer religião ou irreligião que me irritam. E os ateus também sabem de mais, até sabem que Deus não existe!»
(Frei Bento Domingues, no "Público" de ontem)

Despeço-me
“Simultaneamente actor e espectador do seu próprio
crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que
o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse
do corpo que transportava e, muitas vezes, o
projectasse brutalmente contra a realidade
desse mesmo corpo.”
(in O que diz Molero)












Escrevi no primeiro editorial deste ano...
Este ELÁSTICO que nos faz sair de nós, ver-nos de fora. Este Elástico que nos faz regressar e então vermo-nos de dentro. A surpresa pode ser enorme e as dúvidas podem ser muitas. Olhar para nós e agora viajar não pelo mundo mas pelo nosso corpo, pelos nossos tempos e velocidades. Encontrar a nossa inteligência, descobrir como nos construímos connosco, como fazemos o nosso percurso. O tempo de crescer e as escolhas. EQUILÍBRIO. O nosso lugar com os outros. O nosso lugar quando há tantas coisas a acontecer e é difícil agarrar. O tempo com o mundo, com a nossa fé ou as nossas esperanças. Tudo o que criamos é talvez apenas e somente o que somos.
Os LUGARES QUE NOS HABITAM é a viagem que propomos neste novo ano de Comtextos. Almada acrescenta: “Agora chego a cada instante pela primeira vez à vida.”

Agora, um ano depois, tenho à minha frente:
Pé descalço no soalho (O corpo)
Mergulho em mim (Tempo Pessoal)
Diz que corre. Diz que anda. (Tempo Global)
São raízes do mundo (Religiões)

Eleita por dois anos deixo agora de ser directora deste bonito projecto.
E olhar por dentro é muito diferente de quem olha pronto. Para mim foi feito de muito trabalho mas enorme alegria e muitas surpresas.
Agradeço às duas equipas não me terem deixado esquecer que podíamos sonhar alto.
Espero que tenham gostado.
Espero que quem não conhece faça perguntas.
o site: www.comtextos-mce.blogspot.com

46º COMTEXTOS
SÃO RAÍZES DO MUNDO: RELIGIÕES
Lugares que nos habitam


AS RELIGIÕES E A AGENDA DE DEUS
Luís Reis Lopes. Licenciado em Ciências Religiosas na UCP, Lisboa. É professor de EMRC, no Ensino Básico, Investigador e Consultor Independente nas áreas da Educação para a Saúde e Cidadania.

BUDISMO, CIÊNCIA E REALIDADE
Paulo Borges. Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde trabalha nas áreas de Filosofia da Religião, Filosofia em Portugal e Antropologia e Cultura. Membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Doutorou-se em 2000 com uma dissertação sobre Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes. É actualmente Presidente da União Busdita Portuguesa e da Associação Agostinho da Silva, bem como Vice-Presidente da Casa da Cultura do Tibete.

HINDUÍSMO
José Carlos Calazans. Colaborou no livro Religiões. História, textos, tradições do projecto Religare – Estrutura de Missão para o Diálogo com as religiões. É investigador da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) do Ministério da Ciência. É coordenador do Círculo de Leitores de Estudos Orientais da Associação Cultural Nova Acrópole.

NÃO AO INTOLERÁVEL
Edgar Silva. 44 anos, deputado eleito pela CDU na Assembleia Legislativa Regional, na ilha da Madeira. Licenciado em Teologia pela UCP. Foi assistente do MCE.

AS PRINCIPAIS RELIGIÕES CRISTÃS
Augusto A. Pascoal. Foi ordenado sacerdote em 1961, na Sé de Leiria. Licenciado em Teologia, PUG, Roma, em 1962. Licenciado em Filosofia Clássica (1968) e Filosofia Românica (1973), na Faculdade de Letras da UL. Doutor em Literatura Latina, Faculdade de Letras da UC, 2002.

MEMÓRIA AGRADECIDA
Isabel Pães. (sou conhecida por Mimi e prefiro mas nos artigos "sérios" costumo assinar Isabel), animadora de grupos de crianças e do MCE, professora do 1º CEB, formadora, com estudos em Antropologia da educação, actualmente no gabinete Entreculturas do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas.

NOSSA SENHORA DE COPACABANA
Gonçalo Cadilhe. Nasceu na Figueira da Foz em 1968. Frequentou Gestão de Empresas na Universidade Católica do Porto, fazendo parte da primeira “fornada” de licenciados deste curso. Em 1993 começou a viajar e a escrever sobre viagens de forma profissional, tendo ao longo dos anos colaborado com o Expresso, a Grande Reportagem, o Independente, a Elle e a SurfPortugal, entre outras publicações. Em Dezembro de 2002 iniciou uma viagem à volta do mundo sem transporte aéreo que duraria 19 meses, percorrendo 38 países e três oceanos. Publicada semanalmente, “em directo”, no Expresso, a viagem resultaria depois no livro “Planisfério Pessoal”, editado pela Oficina do Livro. Gonçalo Cadilhe é também o autor do “No Princípio Estava o Mar – Surf Viagens e Outras Inquietudes” (Prime Books, Dez. 2005) e o recém-publicado “A Lua Pode Esperar – Viagens Pela Terra” (Oficina do Livro, Junho 2006).

PALESTINA – ISRAEL
Pedro Serrazina, Ricardo Latoeiro e Valter Perdigão. Arquitectos. Em 2002/03 foram estudantes Erasmus no Istitutto Universitário di Architettura di Venezia, Itália. Terminaram o curso de arquitectura na Universidade Lusíada de Lisboa em 2003. O Pedro actualmente colabora no Carlos Vilela Arq, Portugal. O Ricardo colaborou no Atelier Barani, França, em 2004/05 e actualmente está a frequentar Estagio Profissional na DSIEO. Valter colaborou no Atelier BakGordon Arq, Portugal em 2003/1005 e actualmente está a frequentar Estagio Profissional nesse mesmo atelier.

11.9.06
11 de Setembro
A espuma dos dias do 11 de Setembro, pela National Geographic

7.9.06
O lado errado da vida
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Imagem de prostituta da Tanzânia no documentário "O pesadelo de Darwin"

Imagine-se uma mulher africana de nome Helena, menina feita mulher. Corpo tornado forte pela dureza mais que pelo alimento. Irmã mais velha de seis irmãos, mais que irmã foi mãe deles. Nos sonhos de menina ouve falar da Europa rica para onde muitas tentam fugir e muitos conseguem. Sai do seu país fugindo a uma repressão política de um estado em guerra. Foge por onde consegue não por onde escolheu. Colocou a sua vida, com mais um grupo de dez mulheres, nas mãos de um homem que se diz recrutador profissional e lhe diz arranjar um emprego na Europa. Um emprego como nunca poderia ter tido no seu país, um emprego que pinta acreditando que desta é para melhor. E que nele pode melhorar a vida dos seus enviando dinheiro. “Ele falou-lhe de um presente bom e de um futuro emocionante e escondeu-lhe tudo o que pudesse parecer decepcionante. Mais tarde, no quarto de pensão, chamou-lhe sua mulher, seria ele a orientar o negócio de aluguer.”

Sai do seu país num suspiro, por si e pelos seus irmãos e família alargada que deixa com saudades. Imagine-se que esta mulher foge porque não tem condições, está desempregada, não tem perspectivas de futuro, não estudou como a grande maioria das mulheres e homens da sua aldeia. E que apesar de todo o inferno que deixou rapidamente está a suspirar pelo regresso. Chega a um país onde não sabe a língua, onde não conhece as regras, onde as pessoas funcionam de maneira diferente, onde já não sabe quem é nem como deve ser. Onde não tem identidade, nem documentos e é “um resto solitário esquecido na multidão” O emprego é tráfico. A oportunidade é armadilha. O homem, nas suas conversas mansas, vai tropeçando nas suas mentiras: uma, duas, tantas até desaparecer sem rasto deixando-a entregue a uma mulher em quem já não sabe confiar.

Helena é “um coração danificado e uma cabeça em polvorosa. (…) O pequeno poço dos desejos todo envenenado.” As canções alegres que aprendera desde pequenina sussurra-as triste apenas para si. As outras dez mulheres com quem tinha ido não voltou a ver; as que conheceu naquela “casa” não compreendia, não a compreendiam.

Imagine-se Helena indefesa num mundo em que não é o seu. É obrigada a confiar e viver dependente de pessoas em quem não confia. Após entrar na máquina do sexo, tantas vezes legal, que acresce os lucros por altura de Mundiais de Futebol, ela sofre, sofre até deixar de ser um Ser para passar a um Não Ser; para passar a despir-se à pressa e desinteressada, cair na cama de uma assentada; onde chegam homens a quem não vê caras que se servem dela sem que ela já dê por nada: a não ser um grito que nunca sai. Usam o seu corpo, pagam o preço dele a outros.
Helena não fala, não beija, não geme. Morde e abraça dura e suja.

Imagine-se que Helena se tornou num corpo, adereço num jogo. Um jogo que na sua natureza ilícita favorece um conhecimento desfocado da realidade e mascara sob a tolerada prostituição uma prática de abuso e violência que joga duplamente contra si. Explorada vezes e vezes sem conta, sucessivamente, minuto a minuto, um horror que não tem espaço para sorrisos. Helena já não tem forças nem coragem. Voltar ao seu país era vergonha, era ser tratada como criminosa, desonrada em vez de vitíma, num estatuto de mulher que no seu país… não é estatuto.

Imagine-se que esta mulher, Helena, morreu saia rota subindo a escada, ainda a noite rompendo vinha. Morreu como uma “renda” num negócio onde era um conjunto de retalhos de infelicidade, doente com sida e “usada” demais, dorida de tanta violência.

No sentido contrário (para sul) ao que Helena levou no começo desta estória vai uma outra mulher, ironia nestes destinos. Esta é enfermeira e chama-se Luísa, vai numa ajuda humanitária da ONU prestar apoio a outras mulheres, crianças e homens vitímas de uma guerra onde foram peões ou nem isso. Mais que no sentido contrário do mundo, vai no sentido contraditório do mesmo.

Imagine-se um mundo estúpido em que esta estória é real.

Nota: 87 por cento do tráfico de pessoas é para fins de exploração sexual, sendo que 77 por cento das vítimas são mulheres.
Nota 2: Hoje, o tráfico de pessoas representa a terceira maior actividade comercial ilícita depois do tráfico de drogas e de armas.

Este texto está repleto de adaptações de poemas de escritores portugueses: “O lado errado da noite” (Jorge Palma), “Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto” (Lobo Antunes), “Calçada da Carriche” (António Gedeão), “Mulher da Erva” (José Afonso).


Este texto foi escrito para a secção "Uma história" da revista de nome Solidariedade do CCS-Portugal.

"Uma Noite no Palácio do Sultão"
Nada melhor para apreciar a nossa herança árabe do que escutar Eduardo Ramos e o Ensemble Moçarabe, num concerto realizado no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém em Janeiro, hoje retransmitido pela Antena 2. O repertório são cantigas de amigo, de Santa Maria do séc. XIII e cantigas sefarditas medievais. São temas com influência persa e música da escola de Bagdade.

1 – Ode a Ibn Caci ( Eduardo Ramos)
2 – No palácio do Sharajib em Silves (E.R.)
3 – Una tarde de verano (cantiga sefardita)
4 – Al-Amira al Arabi – A princesa do rio arade (E.R.)
5 – L’Aman (canção do Líbano)
6 – Ó lua (Al’Mutamid – E.R.)
7 – Ya vienne el cativo (cantiga sefardita)
8 – Jus a lo mar (E.R. – Joáo Zorro) (século XIII)
9 – Ai wã saqqi illayka mustaká (tradicional árabe)

Eduardo Ramos (Voz, al árabe, zukra)
Tiago Jónatas (Tambura, daf e tar)
Baltazar Molina (Derbuka e bendir)
Carolina Ramos (Dança oriental)

6.9.06
crónicas de uma vitória
Alguns recortes soltos das sofridas crónicas de uma vitória do Zé Dias:

«O título [Crónica de uma Vitória] é fácil de justificar. Enquanto eu conseguir escrever, o título é óbvio. Se, porém, o desânimo ou a dinâmica de derrota me vencerem então a crónica, que já não seria de vitória, extingui-se-á naturalmente.»

«dei comigo a pensar que somos (o género humano) um animal muito refinado e complexo, que sente pudor em dizer as coisas bonitas que pensa dos amigos, que receia magoar a modéstia ou ferir a imodéstia do amigo e, portanto, calamos o quanto verdadeiramente gostamos do outro ficando-nos por palavras de circunstâncias.»

«Lemos mas não acreditamos: Cristo está tão presente na hóstia consagrada como no pobre? Isto cheira a heresia para muitos. É inaceitável esta confusão entre Deus e os pobres que nós conhecemos. E, no entanto, já S. João Crisóstomo recordava: o que disse "Isto é o meu corpo" é o mesmo que disse "Tinha fome e deste-me de comer". Mas para acreditar verdadeiramente neste dogma revolucionário ainda não proclamado é preciso ser homem de fé. E nós somos pessoas de religião.(...) Somos homens religiosos. Muitas vezes até demasiado fundamentalistas. Mas será que temos fé em Jesus Cristo: acreditamos realmente na sua Pessoa e na sua Palavra?»

5.9.06
Férias IV - "Da verdade do amor"
Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

Pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

Não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor

(José Tolentino Mendonça)

4.9.06
Para onde?
Em 48 horas ir parar a uma escola no nosso Portugal. É certo que dos 20 distritos só alguns estão na lista, mas a incerteza é suficiente para ser apertado mudar-se para lá em 48 horas. E o pior é não saber quando haverá novidades. Que era segunda, mas não foi. Que será quarta, mas será mesmo? O nomadismo ganhou novo sentido para o professor em início de carreira.

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