31.10.06
Chico Buarque
Coliseu do Porto na noite de ontem.
Chico deliciou do início ao fim, mas especialmente quando introduziu esta música.
Explicou que quando ouviu a música a achou esquisita. Foi para casa. Escreveu a letra e ela ficou mais esquisita. Quando a gravaram... bem... muito esquisita mesmo!
Mas foi cantando, cantando e agora é talvez a música que mais gosta de cantar.
Teve até um sonho... Num concerto seu só havia esta música. Depois de muitas vezes cantada (ela é pequena) o público já começava a gostar. Ao fim de 60 repetições o público adorava e tudo eram isqueiros acesos. Todo ele se ria.

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AS VITRINES

Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão, olha prá mim
Não faz assim, não vá lá, não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão frouxa de rir
Já te vejo brincando gostando de ser
Tua sombra se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo o salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão


ouvir esta música é aqui

30.10.06
Manifesto Sótão
"Degrau, degrau, degrau. Subindo até ao cimo de tudo se chega ao sótão. Oiçam os passos. Chega-se querendo! Numa decisão absoluta, sem “talvez”, nem porquês. Em rimas trauteadas por acaso. Viemos para estar, com corpo, e sentir a palma da nossa mão tocar rugosidades, viemos para estar por inteiro. Viemos para deixar de estar também, para esvaziar a cabeça tanto tanto, até se encher outra vez. O sótão molhou os pés no mar para sentir o frio. O sótão queimou-se.

Não é por acaso que estamos aqui. É um sótão sem porta que quer soprar correntes de ar e deixar entrar aguaceiros, que despenteia quem lá entra, onde podemos desarrumar desarredando. O sótão tem uma janela por abrir e paredes por pintar. Tem almofadas coloridas espalhadas, três candeeiros Pollock, pés descalços e posições tão confortáveis quanto cruzar as pernas. É um sótão onde se pode gritar e fazer barulho, em que é possível estarmos calados. Em que o tudo e o nada são tão importantes como insignificantes, pela opinião de quem olha e vê. O sótão quer que a vida se sinta.

Este sótão de que vos falo está vazio e quer encher-se. Quer ter gente com tudo o que a gente é, deixemos quem não é gente de lado. Nele entra-se e sai-se com a liberdade de lá se estar consigo e com os outros. No sótão há obrigações, as regras devem ser cumpridas até deixarem de fazer sentido. Há a obrigação de sair de si, a obrigação de entrar em ré, de analisar o outro, de falar sem pudor, de fazer caretas e de nos olharmos ao espelho. O sótão é incómodo, pasmem-se se não vos alicio. Lá chegados pode não ser fácil lá permanecer, o sótão tem memórias guardadas, segredos, ideias por pensar, coisas que esquecemos porque não nos convinham. O sótão é exigente. O sótão não quer ser fácil embora queira facilitar dificultando.

Mais um sítio em que há outros como nós. Mais um. Com aquele tão diferente eu vou. Vamos. E arrancar máscaras sufocantes, empunhar máscaras pretas, brancas, disformes e impróprias, vamos fazê-lo tantas vezes, mecânicos, que elas vão acabar por escorrer por si próprias. Vamos ser impróprios, sim, e moralistas. Vamos duvidar, ter fé na dúvida. Desacreditar que sou alguma coisa, compreender racionalmente que posso ser muitos. É ciência.

O sótão quer que te exponhas.
O sótão quer ser o mais diferente possível da palavra “radical”.
O sótão manifesta-se.

O sótão não quer ser pacífico, nenhuma poesia ou peça de teatro foi feita sem alguma garra, algum conflito. Todas as utopias dão trabalho.
O sótão tem beleza, aquela beleza que comove. Dá que pensar, dá que cantar e rir. O sótão abraça e pode ser afectivo. O sótão olha nos olhos, é sedutor e tem prazer. Que prazer? O sótão acredita que não temos que ter todos os dentes direitos e cabelos arranjados. O sótão acredita na vaidade. O sótão acredita no charme mas não quer dever nada à classe.

O sótão acredita na diferença entre géneros e homens. Acredita no plural e no singular. Acredita numa raça de humanos que não se vê na rua, só na intimidade. O sótão gosta de mestiços. Acredita que quem nasce está cercado de desejos e promessas, nasce leve e em futuros, nasce no seio das pessoas e já com história. O sótão tem gestos que não podem ser mudos. Gestos fortes em gente sensível.

O sótão ainda não é mas quer ser, e quer ser sempre mais e melhor. A subir a subir. Oiçam os passos. Degrau, degrau, degrau."




O "Sótão: Oficinas de Desenvolvimento Humano" é um novo projecto da Associação CCS Portugal (de que faço parte) para trabalhar o Desenvolvimento Humano e Pessoal através da Expressão pela Arte e pelo Jogo. Desta vez é dirigido a adultos. Também aqui ele se manifesta.

29.10.06
Como dizia o poeta
Ferreira Gullar no maravilhoso documentário Vinícius diz: “a vida é invenção”.
Acrescenta. Você pode querer olhar para a vida como sendo uma merda e então tudo será uma merda. Como ninguém sabe a verdade sobre a vida (e aqui eu digo que os sisudos acham que a sabem) se é boa ou má… eu prefiro olhá-la como boa!
O Vinícius dizia que mais vale viver que ser feliz. Um amigo dele acrescenta que quem não compreende e diz "mais vale viver E ser feliz" é porque não sabe o viver de Vinícius… Dizem que “precisava de viver no precipício da paixão”.

Recorrentemente me dizem palavras como “lírica”, “utópica”, “romântica”, “ingénua”. Chegam a dizê-lo zangados. Fico sempre furiosa.
Sei de 3 pessoas de quem gosto muito, e que lêem este blog, que me chamam essas coisas. Neste sentido não é tão mau assim.
inês, num filme apenas: Comoção. Sintonia. Desatino. Gargalhada (na sala calada ressoou).

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu


bem Vinícius de Moraes

28.10.06
sábado de manhã

Tenho um amigo muito querido. Desde que me lembro que é meu amigo de sempre e para sempre. Eu adorava os carrinhos dele (o que aquele corredor entre as escadas e o elevador nos viu brincar – lembras-te do carocha azul? Era incapaz de andar a direito mas era parecido com o “a sério” amarelo lá de casa) e ele tinha muito jeito para brincar com os meus brinquedos (nem sempre permitidos aos vulgares rapazes). Casámo-nos muitas vezes mas não confessávamos que gostávamos um do outro, isto claro, até ele entrar para o ciclo, quando as nossas hipóteses se foram de vez.
Quando estávamos muito tempo juntos conversávamos muito. E chateávamo-nos muito (mais eu, pois). Nisso, a distância fez-nos bem.
Há perto de 24 anos que me conhece. Há perto de 24 anos que me telefona ao sábado de manhã (bem-bem de manhã) e há perto de 24 anos que não tem sorte nenhuma nesse telefonema! :)

27.10.06
Amizade (e outras mais)
Há uns segundos atrás ouvi o Sepúlveda a dizer qualquer coisa assim:

“Dois amigos quando se encontram o que fazem é contar histórias.
A amizade cresce na medida em que cada um conta uma história melhor que o outro.”

Não explicou.
Mas eu gostei. Depois de gostar, e só depois, posso encontrar um sentido… é que é no cuidado que pomos nas histórias que contamos, é no querer explicar bem o que vivemos, o que ouvimos, o que sentimos, que uma amizade se conquista. Pode ser uma competição, porque não? É que também temos de saber ouvir com atenção para novas coisas saber contar (para que sejam novas, surpreendentes).
É por isso que o que mais gosto é de escolher bem a quem conto cada coisa, encontrar um sentido aí também. Indiscriminadamente é uma palavra que não gosto.

25.10.06





Têm a mania de fotografar este bicho de cabeça na areia.
Pois amanhã tentarei que assim não seja.
Exame da última cadeira do curso.

23.10.06
Maré cheia



"Aquele barco que está lá abandonado junto ao mar tem histórias para contar que ninguém ouve. Histórias que precisam de tempo e atenção. As gentes dispersas estão com falta de tempo, deixaram escoar-se nessa falta.

Não há nada mais cruel que esquecer alguém junto às suas memórias sem poder vivê-las. Viraram-no de ventre para cima, impotente para se virar, deixando-o nu; serve de exemplo a quem tenha tentações de desafiá-lo para uma passeata, um exemplo que diz "isso já foi e já não é". Convenceram-no que estava velho e que ali naquele canto escuro era o local ideal de quem já não serve. Entristeceram-no ao ponto de ter aprendido a chorar.

Fica ali todo o dia, madeira seca e tinta que se solta; a murmurar para si mesmo canções com o ritmo do mar, agitadas ou calmas conforme o estado de alma. Alegra-se quando chove, exaspera-se quando o verão vem e todos caminham em direcção ao mar sem se lembrarem dele. Sente que não é ali que pertence.

Esse barco já sem remos nem destino hoje quis ser fogueira, quis aquecer quem tenha frio. Esse barco foi fogueira e suas histórias ouviu nas bocas de um velho avô marinheiro que contava com todo o tempo do mundo uma história à neta já sem frio.

Compreendeu então enquanto ouvia, ao recordar seu olhar vazio de quando olhava para o mar, que é na entrega que o olhar se enche. Maré-cheia pode vir nesta vida de mudança. Nesse sentido que encontrou para a sua morte renasceu; na morte e na dor foi feliz como era quando era novo e navegava solto lá na baía."



Este conto pequenino foi escrito depois da fotografia tirada. Quando a tirei pensei que faltava qualquer coisa que lhe fizesse companhia, que a história devia ser contada. Foram oferecidos a uma menina "maré cheia".

21.10.06
black and white
Eu estava a estudar.
Gosto daquela esplanada. Gosto da sua música. Gosto do seu café.
Ao mesmo tempo que me apercebi que alguém tentava atrair alguém que se aproximava, VI-O.
Preto e branco. Em passos felinos, decidido. Num movimento que simplesmente seguiu o anterior, saltou para a cadeira ao lado a minha e de lá para o meu colo. Deitou-se. Aninhou-se melhor. Sem qualquer pedido. Sem qualquer hesitação. Ali ficou. Ronronou à minha festa. E eu ali fiquei surpreendida. A mulher à minha frente (quem o tinha chamado) sorriu-me envergonhada, pensou que o gato era meu. Eu só lhe disse “Nunca o tinha visto!”
Ali ficou enquanto quis... a tarde quase toda. Porque me escolheu na esplanada cheia não faço ideia… mas o estudo correu melhor.

Dia de sol (pelo menos ao acordar)
Por qualquer razão que desconheço esta música deixa-me sempre muito bem disposta.
E foi com ela bem alto que começou o meu sábado.
Um bom sábado para todos.
(além disso o jorge palma tem tido pouco destaque neste blog)









ESCURIDÃO (vai por mim)

Não estou com grande disposição
p'ra outra enorme discussão
tu dizes que agora é de vez
fico a pensar nos porquês
nós ambos temos opiniões
fraquezas nos corações
as lágrimas cheias de sal
não lavam o nosso mal

e eu só quero ver-te rir feliz
dar cambalhotas no lençol
mas torces o nariz e lá se vai o sol

dizes vermelho, respondo azul
se vou para norte, vais para sul
mas tenho de te convencer
que, às vezes, também posso...

ter razão!
também mereço ter razão
vai por mim
sou capaz de te mostrar a luz
e depois regressamos os dois
à escuridão

Se eu telefono, estás a falar
ou pensas que é p'ra resmungar
mas quando queres saber de mim
transformas-te em querubim
quero ir para a cama e tu queres sair
se quero beijos, queres dormir
se te apetece conversar
estou numa de meditar

e tu só queres ver-me rir feliz
dar cambalhotas no lençol
mas torço o meu nariz e lá se vai o sol

dizes que sou chato e rezingão
se digo sim, tu dizes não
como é que te vou convencer
que, às vezes, também podes...

ter razão!
também mereces ter razão
vai por mim
és capaz de me mostrar a luz
e depois regressamos os dois
à escuridão

Atenção!
os dois podemos ter razão
vai por mim
há momentos em que se faz luz
e depois regressamos os dois
à escuridão

18.10.06
O peso das coisas.
Tenho tendência a achar que aquilo que já está feito não custou a fazer...
Dou-me conta disto à pergunta da enfermeira “o curso é muito difícil?”… e a minha resposta é invariavelmente esta: “Não, não é mais difícil que os outros.”
Ao ver o ar pesado com que se fala de algumas coisas chego a duvidar se me terei esforçado o suficiente, se me terei distraído demais, se houve “trabalhos” que não reparei… ou se os terei esquecido… Prefiro pensar que não me custou de facto.
Penso nisto por causa do curso.
Penso nisto por causa do ano de preparação que me levou a S. Tomé.
Penso nisto por causa da revista “Comtextos”…
Agora que penso nisto, não me custou... e não parece ter dado tanto trabalho assim (e, no entanto, lembro que foram horas-horas-horas. E sei que quem as conta assim pesadas passa sempre por trabalhar mais.)
Agora que penso nisto, não me custou... Será do gosto? Dobro o sorriso.

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fotografia de sebastião salgado.
gosto de caras enrugadas que se riem. falta-lhes o marketing mas fica-lhes o gosto.

17.10.06
Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti


Mais um poema grande demais para ser ler em blog, continuo a insistir nestas desmedidas e, pior, em acreditar que vale bem o tempo a quem os lê. Como se a leitura mudasse alguém...

Outro poema que encontrei AQUI nas barafundas da net. Lá encontram outro poema, bruto para que os brutos entendam.

16.10.06
"O amor não é para ser uma ajudinha"

A verdade é que não gosto do Miguel Esteves Cardoso. Não há nenhum motivo e não invisto o meu tempo a descobrir-lhe os defeitos. Só não gosto.
Hoje reencontrei um texto dele no blogue do Izzy. Para lá vos convido a uma visita com calma. Porque o que aquele autor escreve sobre o amor vale muito pelo abanão. No bom e no mau, no justo e no injusto, tem muito a ver comigo.
Pensei em publicá-lo aqui mas sei que tenho abusado da paciência de quem nos lê.
Pensei também em publicá-lo tirando algumas partes que não me dizem coisa nenhuma… mas o respeito pelos autores parece-me uma coisa muito certa.




(admito que ponho fotos descaradamente sem ligação aos posts)

15.10.06
Reencontros
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DOMINGO

Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«bom tempo para amanhã»...
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
— porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!

Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.

Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!

Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...

Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz...
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
— ao sol
como num ritual consagrado a um deus! —
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!

E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bom feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
— rapaz, traz-me um café...
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
— Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
— .... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou...
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?... —
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!

Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!

Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!

(Manuel da Fonseca)


Há uma amálgama de coisas que quero dizer e é para este blog que quero escrever. Uma amálgama como as raspas de limão a misturar-se no creme de açúcar com ovos, acrescentando-se-lhes os iogurtes, a farinha, as claras em castelo, o fermento e o óleo. Uma massa. Levou-se ao forno o meu bolo de iogurte, é onde está. Ausente da escrita em post tenho estado atento nas leituras de quem bloga. Não tenho escrito porque não tenho sabido.

É recitado pelo Mário Viegas que me lembro deste poema. À sua força, junta-se a leitura de quem acredita no que lê: num total maior que a soma. Hoje, à procura do sentimento de Domingo que cá tenho e que quero partilhar, reencontrei-o e li-o ainda com maior atenção. Curioso nas pequenas histórias duras que o poema conta, lembrei-me dos passeios por lisboa e do olhar embasbacado quase parvo que não consigo evitar quando olho, e encontrei as histórias de pessoas que encontro nos meus passeios nas ruas, nas tascas.

Quanto ao meu Domingo, parece-me depois da leitura pequenino.

Mas partilho essa pequenez, que aqui tem um sentido bom. Há um certo estar de preguiça bom, a preguiça de estar em casa com vontade que chova lá fora. De fazer um bolo pela receita. De poder ver um bom filme de dvd, de ir ficando neste estado próprio dos domingos. Como se as coisas mais belas na vida hoje fossem assim, calmas e caseiras. Lembro-me de alguém deste blog que sabe viver os domingos como ninguém: a ela, obrigado pelo que tem escrito.

Para terminar, o SÍTIO onde o encontrei que merece atenção.

14.10.06
Às segundas ao sol - sinopse
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Uma cidade portuária no Norte, que há muito tempo voltou as costas ao campo e que se rodeou de indústrias que a fizeram crescer desproporcionadamente, que alimentaram a imigração e desenharam um horizonte de chaminés, de esperanças, de futuros desenraizados.
Um grupo de homens todos os dias percorre as suas ruas, procurando as saídas de emergência.
Trapezistas de fim de mês, e de início de mês também, trapezistas sem rede, sem público, sem palmas no final, que caminham diariamente pela corda bamba do trabalho precário, que aguentam a sua existência com andaimes de esperança e que se refugiam nas suas poucas alegrias, como se o naufrágio de que tentam salvar-se diariamente não fosse o seu, enquanto falam das suas coisas e se riem, de tudo e de nada em especial, esperançosos, tranquilos, na manhã de uma segunda-feira ao sol.

Fernando León de Aranoa
(o realizador)

O filme do meu fim-de-semana. Um filme há muito por ver... encontrado, inadvertidamente, num teletexto que o anunciava no espectacular horário das 3h da manhã, de um dia de semana, na RTP (!!)
Mais direi (desta vez vou respeitar a ordem pela qual as pessoas costuma ler os blogs, a descronológica.)

"A Cigarra e a Formiga"
(Santa: um homem há 3 anos no desemprego. Pelas palavras do actor que o interpreta: "Ele foi empregado num estaleiro naval tanto tempo que esse trabalho se tornou uma identidade. E como inúmeros trabalhadores ele sente o desemprego como uma negação dessa identidade.")

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"A Cigarra e a Formiga."
- Vamos a ver.
“Era uma vez um sítio em que viviam uma cigarra e uma formiga.”
(Santa, olhou para a criança procurando a sua aprovação. O pequeno acenou que sim.)
“A formiga era muito trabalhadora e a cigarra, não: gostava de cantar e de dormir enquanto a formiga trabalhava. Passou-se algum tempo. A formiga trabalhou o Verão inteiro, amealhou o mais que pôde e quando chegou o Inverno, a cigarra morria de fome e frio, ao passo que à formiga nada faltava”
- Filha da puta da formiga!
“A cigarra bateu à porta da formiga que lhe disse: - Cigarrita, cigarrita, se tivesses trabalhado como eu, não terias fome nem frio - e não lhe abriu a porta.
(Fechou o livro)
- Quem escreveu isto?! (abriu o livro e folheou-o) Não é nada assim. A formiga é uma fila da puta especuladora e além disso o que aqui não diz, é que alguns nascem cigarras e outras formigas. E quem nasce cigarra, está fodido. Disso não falam eles… Disso não falam eles.


Javier Bardem é o actor. E já tinha ouvido a palavra "maravilhoso" a propósito dele. Já o tinha visto muda e calada em "Mar adentro".
Sempre tive antipatia por esta história da cigarra e da formiga. Não sei bem porquê. Mas parecia que tinha de escolher a vida cinzenta e estúpida da formiga em vez da alegria irresponsável da cigarra. Num género de "podes querer cantar e andar contente mas amargarás com a fome!" Janvier Bardem diz que ao ler este diálogo soube que aceitaria fazer o filme.
Mais tarde... o seu advogado elogia-o por finalmente ter pago à empresa que o despediu (porque estaleiros da Coreia lhe construiriam os barcos a menor preço) o candeeiro que partiu na altura em que os trabalhadores, juntos, lutavam contra o despedimento de 80 dos seus 200 colegas. Disse-lhe que tinha feito muito bem em pagar o prejuízo, que se tinha tornado mais maduro e mais responsável. Que a empresa é que tinha procedido mal ao despedi-lo e ainda lhe cobrar 8000 pesetas pelo candeeiro. Santa sempre silencioso pediu-lhe que parasse o carro antes de chegar ao destino. Saiu do carro. Arremessou uma pedra ao dito candeeiro agora arranjando. Voltou para o carro dizendo "Sinto-me muito melhor."
(a única vantagem de ver filmes destes em casa é poder dar um salto no sofá e dizer "BOA!")

13.10.06
"E enquanto inventas espaços novos"
Um terrível esforço para a concentração. Naquele momento sei que distrair-me um pouco equivale a perder a ligação entre as palavras que conheço, entre as frases de onde consigo perceber ideias. Ainda assim não consigo evitar algumas fugas, o pensamento tende a voar. Lá fora põe-se a noite... o que será o jantar? Amanhã o dia vai ser melhor que hoje?
Ela fala arrebatada. É exigente, quer que aprendamos com pormenor. Fala de assuntos de que gosto... política, cinema, povos e culturas diferentes, expressões da linguagem, as histórias das palavras e dos verbos. Escreve no quadro.
Volta a nós de olhos azuis bem abertos, sabe o nosso nome e quer que digamos a nossa opinião.
A terrível sensação que queria dizer muitas coisas, discutir, contar das minhas descobertas e esbarra tudo nas palavras, na junção delas em qualquer coisa que faça sentido… não um sentido qualquer e sim, exactamente, aquele que quero!
Numa língua que não domino encontro a dor de cabeça de um dia inteiro. E no entanto, mesmo na língua que conheço não consigo perceber porque há dias em que tudo desanima.

11.10.06
happy birthday
blakey

(Art Blakey, 11/10/1919 – 16/10/1990)

A ouver: Art blakey's Jazz Messengers - Dat Der.

10.10.06
(sem) Liberdade
Uma visita à
última favela de Lisboa.

6.10.06
Avanços e recuos
A verdade é que naquela grande sala branca só se ouvem “pips”, “tics” e “tininis”.
A verdade é que a unidade de cuidados intensivos é um local de sofrimento. E todos o que ali calçam as botas “esterilizadas”, nesse pequeno gesto, logo percebem que ali tudo é delicado. No fio da vida.
Ele tinha de nos explicar a diferença entre vida vegetativa e morte cerebral. Um coisa bem feia para começar a manhã. Gosta de nos ter ali. Olha para nós e parece ver, com alegria, gente que quer bem. Adivinha em alguns dos nossos olhares a vontade de saber mais… E ensina, não grita, como outros, às nossas ignorâncias. Sorri e responde com quase-carinho.

Mas desde o início que ele estava com vontade de nos falar de outras coisas e assim foi. Sem conseguir resistir falou-nos de uma cidade-Coimbra onde se falava muito de política (os tais anos 66-69 de que já aqui falei). Uma cidade que tinha irreverente teatro universitário, uma óptima cinemateca, uma secção de fotografia muito activa, concertos e espectáculos de renome internacional, um conjunto de cafés e de outros espaços onde se discutia noite fora com muita garra.
Fiquei um pouco triste pela Coimbra de agora. Também lhe disse que cá chegou numa altura privilegiada! Mas ele não nos queria dizer que agora era uma porcaria… nada disso. Ele bem sabe que há muitas coisas que estão melhor. Ele queria que nós nos entusiasmássemos por todas estas coisas. E enquanto ele nos falava os “pips”, “tics” e “tininis” pareciam estar longe, esqueci-os. E com alguma preocupação, mais uma vez, senti que me sentia bem melhor nesta outra conversa. Com algum alívio lembrei que uma não tem de substituir a outra. A prova disso falava entusiasmado à minha frente.


(estranhamente, vim a descobrir que este homem, que senti quase conhecer, viajou muito de carro com o meu pai quando eram os dois estudantes universitários e iam para a tropa em Mafra)

2.10.06
Memórias de um tempo sem fim
Lembras-te da primeira vez
que aqui estivemos?

uma_imagem_gira

A História ainda não tinha começado.
Deixávamos que fosse dia,
que caísse a noite
e aguardávamos o que viesse.
Levou muito tempo até
o rio encontrar o seu leito,
até a água parada
começar a correr.
O vale da corrente primitiva.
Um dia, ainda me lembro,
o glaciar fendeu-se aqui e os
icebergues deslizaram para Norte.
Um dia, passou um tronco
ainda verde com um ninho vazio.
Durante miríades de anos
só se viram saltar peixes.
Depois veio a hora em que
o enxame de abelhas se afogou.

Algum tempo depois, os dois
veados lutaram nesta margem.
Daí a nuvem de moscas
e as armações,
como ramos de árvores,
pelo rio abaixo.
Renovada surgiu sempre apenas
a erva.
Cresceu sobre os cadáveres dos
gatos bravos, javalis, búfalos.
Lembras-te de uma manhã,
vindo da savana,
ainda com erva colada à testa,
surgiu O SER DE DUAS PERNAS,
a nossa imagem
há tanto esperada,
e de a sua primeira palavra
ter sido uma exclamação?
“Ah” ou “oh”, ou simplesmente
um gemido.
Desse ser pudemos rir
pela primeira vez,
e a partir da sua exclamação
e do grito do seu sucessor
aprendemos a falar.

- Uma longa história.
O sol, os relâmpagos,
o trovão lá no céu
e cá em baixo na terra
as lareiras, os saltos o ar,
as rodas de dança, os sinais,
a escrita.
Um rompeu subitamente
o círculo e correu para fora.
Enquanto corria em frente,
descrevendo curvas de alegria,
parecia livre
e podíamos rir dele.
Mas de repente, correu em zigue-
-zague e as pedras voaram.
Com a sua fuga começou outra história, a das guerras,
que ainda dura.

Mas também a primeira,
a das ervas, do sol,
dos saltos, das exclamações,
AINDA DURA.


escreveram wim wenders e peter handke para o filme as asas do desejo

Dois anjos conversam sobre as suas memórias. Toda a conversa é bonita e gosto do final. Curiosidade. Espanto.

sabe quanto vale um beijo














Tirei esta foto e lembro-a bem.
Fala por ela. Fala pela minha saudade.



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