31.1.07
Que dizer?
A OMS estima que 13% da mortalidade materna é consequência do aborto inseguro, em certos países essa percentagem atinge valores bastante superiores. Entre a comunidade científica é consensual que seria possível reduzir em 90% as mortes por aborto inseguro.

Votar "não" ao aborto seguro é ser por estas vidas?
Não as quero ver entrar pela porta das urgências.

30.1.07
um gostinho especial






Confesso que adoro ver uma "direita" arranjada e penteadinha...
bem formatada e sem nenhum treino de argumentação,
a enterrar-se, a repetir-se, a descabelar-se,
por não saber responder às diferentes questões que lhe são postas.



(do lado de cá estou apenas a assistir, mas falo alto, refilo, dou um salto e faço claque por quem admiro por saber argumentar certo no tempo certo!)

Eu confio nas mulheres!
Faço mais uma vez minhas, as palavras do meu querido amigo que as disse ontem no prós e contras.
E sim, voto sim!

25.1.07
olha...
"A risca de sol, tendo percorrido toda a carpete, subia agora a pouco e pouco pelos embutidos de uma secretária."

Dino Buzzati
in o Deserto dos Tártaros


e na minha obstinação de passar a ler todas as noites antes de dormir descobri...
descobri essa coisa tão simples que é o sol a pôr-se e as formas de luz, que cria em nossas casas, a subirem lentamente pelas paredes.

22.1.07
coisas esquisitas
«Começámos o ano a ver um homem ser enforcado. Até meados do século XX, e desde tempos imemoriais, era espectáculo relativamente banal ou tão banal como condenações à morte por enforcamento. Ainda hoje, num país tão ocidental como os Estados Unidos da América, há lugares cativos para ver uma desgraçada ou um desgraçado estrebuchar com choques eléctricos ou com injecções letais. Mas é verdade que se generalizou uma repulsa pela pena de morte que cada vez ganha mais países e que se generalizou, para o comum das gentes que a gente conhece, maior repulsa por quem reserva lugar para assistir a suplícios. Hipocrisia nossa, porque, em quatro dos cinco continentes a pena de morte continua a ser defendida por cidadãos que se consideram pacíficos e, em dois desses quatro continentes, espectáculos à roda de patíbulos continuam a ser triviais. Estas coisas do progresso também são muito esquisitas.
Mas o que eu nunca vira, e penso que nunca aconteceu, pelo menos nas televisões captáveis em Portugal, foi uma transmissão em directo, para todo o mundo e por quase todos os canais, de um homem com a corda ao pescoço. Se bem me lembro, algo de semelhante tinha-se passado com Ceausescu, mas tinha-se ficado no "tribunal" e na "sentença", sem a morte em directo. Mesmo que me engane, não tira nem põe. Todos esquisitamente demos por nós a ver o que era obsceno. Obsceno, no sentido literal, do que deve ficar fora de cena. Ora, todos nós estivemos dentro da cena e de pouco contam as reacções particulares de cada um. O que conta é que esquisitamente uma execução foi vista pelo maior número de pessoas que alguma vez assistiu a elas, desde que o homem anda pelo planeta.
»
(J.B. Costa, 'Público' de ontem)

21.1.07
E há sempre uma canção para contar


Eu adorava este anúncio.
Hoje procurei-o nem sei bem porquê.
Talvez porque me lembra o nosso carocha (que era amarelo) e as viagens a quatro (ou a cinco, com o cão). Lembra-me de estarmos tostados pelo sol, já ao fim do dia lá dentro, a olhar para o mar. Lembra-me as fotografias que tirámos nesse dia.
Lembra-me as viagens... a viagem aos picos da Europa onde queríamos tanto ver neve mas acabámos por tomar banho no Cantábrico.
Lembra-me as sestas ao sol, embalada pelo rolar do carro, no “galinheiro” (lugar das malas no interior dos carochas). Lembra-me a minha irmã que dormia sempre. Lembra-me de como lutávamos por estarmos as duas deitadas mas sem nos tocarmos por causa do calor.
Lembra-me que cantávamos muito e fazíamos caretas para os carros atrás. O gosto por ser eu a levar os mapas.
Lembra-me que nos riamos porque o pai e a Joana sentiam a pestilenta flatulência do prince e nós as duas não.
Lembra-me o café… isso de outras viagens. O frasco de Nescafé dentro de uma meia às riscas e de tomá-lo no amanhecer das mais diferentes estações de comboio da zona D de interrail.

Lembra-me que me acontece muitas vezes esta viragem da tristeza para a confiança, por um motivo bem pequeno, por um café, por uma paisagem ou uma luminosidade que parece dizer “vai correr tudo bem”.



(título: Fotografia, Antonio Carlos Jobim, Ray Gilbert)

17.1.07
Também quero uma mota
Tenho uma característica terrível… sou perfeitamente incapaz de reparar numa música à primeira. Então, para que eu repare nela, ela tem de aparecer várias vezes, tem de ser ouvida vezes e vezes, até que um dia, numa distracção minha, eu a encontro. E aí como duas desconhecidas olhamo-nos com curiosidade. Fecho os olhos. Gosto. Oiço-oiço até que a letra se faça sentir. E pronto. Continuo a ouvir até me cansar. Ou até nova descoberta.

Ontem (no meio do estudo, porque será…) pela primeira vez parei nesta.
Hoje soube que ganhou um Óscar. Na banda sonora do filme “Diários de motocicleta”.
Memória de gargalhada à desajeitada moto.
















AL OTRO LADO DEL RÍO
Composição: Jorge Drexler

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

El día le irá pudiendo poco a poco al frío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

En esta orilla del mundo lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río


podem procurar ouvi-la no site: themotorcyclediaries em "Traveling music".

16.1.07
outra coisa para leres quando estiveres menos estremunhado
"Falta-lhe o sorriso" dizia o D. depois de te ver pela primeira vez. Já depois de uma longa saga de recuperação. Já depois de ficares conhecido nos CIs por teres tantas amigas a visitar-te. Ainda te falta o sorriso. Nunca te tínhamos visto sem ele. Ontem, já depois de ter estado contigo, falei com uma amiga de Sintra. "De que grupo de amigas/os és tu? De Sintra, do ISCSP, ...?" E depois contou-me que te obrigaram mesmo a esboçar um sorriso, a poder de cócegas e conversa. Eu não tive coragem para te mexer demasiado. Se calhar devia ter. E tenho pouco jeito para conversar a solo. Quando estiveres menos estremunhado prometo que compenso e apanhamos uma bebedeira. Para já, toma lá mais um beijo na testa.

15.1.07
La verdad se inventa
"La verdad se inventa, la mentira es falta de imaginació". Foi este o slogan com que o Zé Maria começou a escrever aqui no blog. Este fim-de-semana conheci alguém que vive constantemente assim. Apesar de ser um senhor reformado, com uma vida calma e farta, está constantemente a inventar verdades. Mais vale uma boa gargalhada.
"Então como está isso?" ... "Eu?" ... "Estou bem, estou em Aveiro. Já fomos à pesca de moliceiro!" ... "Fomos pois! Num moliceiro!" Imagino a voz da filha, incrédula, do outro lado da linha. Conhece bem o pai e sabe que a volta de moliceiro deve ser mais uma brincadeira sua. Mas qual é mesmo a verdade? Que nos assutámos com o frio da Costa Nova e viemos comer as natas do "Atlântida" a casa? Ou que naquela tarde de conversa demos uma volta ao mar num moliceiro amarelo?

13.1.07
Volta
Conta-se que, numa ida ao cinema, ainda antes de saber ler, vi o filme todo em pé a encorajar uns ursinhos órfãos a fugir de dois caçadores. Gritava e gesticulava “Fujam! Não, não, para aí não!!! Eles vêm lá!”
Eu não me lembro. Só me lembro da imagem da mãe-ursa a morrer debaixo de uma colmeia. O resto do filme lá se deve ter resolvido, os filhotes-urso devem ter sobrevivido e só ficou a memória do irremediável acidente.
Talvez todas as crianças sejam assim no cinema.
Mas com Apocalypto, ontem à noite, não gritei (acho que não gritei) mas passei o filme todo a correr com(o) eles e estive muito mais tempo assustada e encolhida, com os pés em cima do banco enrolada, do que seria suposto.
Gostei do filme. Emocionante, entre momentos de filmagem espectaculares e outros muito bonitos.
Um dia vou lá, pensamento quase tão antigo como aquele outro filme dos ursos.

(é angustiante quando nos “mostram” uma coisa que aprendemos a admirar de uma forma completamente diferente)

uma_imagem_gira

10.1.07
PREÂMBULO

"Concorda com a despenalização
da interrupção voluntária da gravidez,
se realizada, por opção da mulher,
nas primeiras dez semanas,
em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?",


in Público 3/01/07


Dei início a pequenas e médias conversas acerca do referendo sobre a despenalização do aborto nas primeiras dez semanas.
Não é tanto por dúvidas (sei o que vou votar)... não é, de todo, por campanha!
É para que o voto seja uma opção bem justificada aqui de mim para mim.
E hoje digo o que me disseram... votar em branco, nesta altura, é simples, porque pode ajudar a fugir. Depois deste tempo todo não é mais altura de fugir.
E qualquer voto não termina na urna, a responsabilidade continua com o resultado.

..........................................................................................................imagem: revista Texturas on-line

5.1.07
Babel
















(In)tenso.
As mais fabulosas imagens.
Uma cena que não esquecerei.
Quem me dera saber fazer filmes assim.

chá de limão
Por vezes ele entra para o lado de cá da porta.
Não bate e não pede autorização. Na cara dele vemos os olhos pequeninos e o sorriso de uma boca fechada.
Traz um limão na mão e percebo muito mal o que diz. E ele diz pouco.
Sabemos o que quer. Uma caneta que faça “click-click” e se não gosta da caneta não aceita, não refila. Damos outra até que goste.
Por vezes traz uma flor, roubada e bem (como diz a música).
Quando lhe negaram a caneta… alguém que não quis perceber o ritual, viu ser-lhe retirado o limão. Sem zanga mas sem presente.
Vai-se embora como entrou.
Quem não conhecer o centro de saúde achará estranho a recorrente presença do limão nas secretárias das 4 médicas que ali trabalham.
Recebemos com doçura e, uma vez por outra, com o limão fazemos o chá que bebemos todas as manhãs, numa cozinha que lembra a cozinha de avós. Nessa cozinha contaram-me a história de quem muito nos visita.

2.1.07
“Estha ocupava muito pouco espaço no mundo”

Arundhati Roy

Estou mesmo farta que aconteçam coisas tão más a pessoas que eu gosto.

(...)
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

(...)

eugénio de andrade


Se se lembrarem de textos/músicas de optimismo agradeço...
(desde que não sejam tirados de livros de "seja feliz", que isso não suporto)


fotografia: Steve McCurry



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