15.2.07

Acaba, para mim, a participação neste blog.
Gostei de por aqui estar e, a vocês, agradeço a carinhosa atenção.

beijinhos
inês

13.2.07
Frases
Reli a frase “Quase nunca acertar”.
Li um pouco mais acima e falava qualquer coisa de destino do género humano. Não me interessou essa parte. Hoje não. Mesmo nada.
O quase nunca acertar. Sim, esse sim.
Talvez por hoje ter falado de como vou demorar tempo a ser alguma coisa de jeito na minha profissão. Talvez difícil saber entre a minha capacidade de estar atenta e a incapacidade de evitar ficar um pouco distraída. Às vezes totalmente. Talvez porque sinto que não é fácil lidar com as pessoas. Podemos rir. Brincar. Até fazer uma roda e dizer o que nos der na cabeça. Mas aquele lugar onde se sente mesmo perto é Bem difícil. Bem raro. Bem bom!
Quase nunca acertar é frase para mim.

Dizem-me alguns “estás sempre a mexer nos caracóis” e fico a pensar que nunca o notei…
Dizem-me outros “aquilo tem mesmo a ver contigo” e eu fico a pensar como sabem…
Dizem-me “só tu” e eu acho sempre que não…

Lembro uma frase não sei de onde “não desapareças”. E fico preocupada. Lembro o livro do soldado que esperou-esperou “a sorte, a aventura, a hora milagrosa que a todos toca, ao menos uma vez” e nada. Morreu de velho com a hora mesmo a chegar lá longe junto ao horizonte.

“Inesgotáveis os recursos do acaso.” Vem na mesma página daquela primeira frase.
Acho que sim. Falta-me é a paciência. E no entanto não sei se a devo ter.







Ângelo de Sousa desenhou o meu cabelo a achar que estava a desenhar cerejas.
Encaracolado despenteado.

10.2.07
De todas as cores
"Sentia a minha mulher acordada. Poderia ter-me lembrado que faltavam poucos dias para a data que o médico tinha dito, mas lembrava-me apenas das noites em que o calor não a tinha deixado adormecer. Era o início de Setembro. Ela dava voltas impacientes na cama. De cada vez que se virava, o mundo ficava suspenso nos seus gestos porque era tudo muito lento, porque era difícil e, às vezes, parecia que era impossível. O seu corpo era grande de mais. Os seus braços tentavam agarrar-se aos lençóis. Não encontrava posição. As juntas da cama rangiam. Eu estava acordado, adormecido, acordado, adormecido. Quando adormecia, continuava meio acordado. Quando acordava, continuava meio adormecido. Nos pensamentos vagos que tinha, acreditava que era o calor que não a deixava adormecer totalmente.
Estremunhado, abri os olhos quando senti as pernas quentes e molhadas, quando me abanou os ombros, gritando e sussurrando:
- Acorda! Rebentaram-me as águas."



José Luís Peixoto, in Cemitério de Pianos


Lembrei-me que ainda que no meio da minha resmunguice pelo quase nada que ali fazemos. Ainda que no meio das minhas fugidas para o bloco operatório (onde o cirurgião já dá umas boas gargalhadas ao reconhecer os meus olhos entre a máscara e a touca verdes). Ainda que no meio dos dias que passam demasiado lentos…
Os meus dias na maternidade têm este lado também.



Lembrei-me… de ti sorridente a contar como sentistes os pés molhados a meio de uma noite, e como não percebeste que era o teu irmão a dizer que ia nascer. Lembrei-me que sempre achei essa história bonita.
Soube que apesar de não estares aqui para te dar um abraço apertado pelos teus 25 anos (8/2/07), que é contigo que comemoro. Falo contigo todos os dias e todos os dias falo-te com a idade que temos hoje e não nos teus 20 anos, porque sei que aí onde estás cresces comigo.
Parabéns, querida Rita. Menina de todas as cores.

7.2.07
casa
"Sem um instante para gastar com perguntas sem resposta, a minha mulher volta a entrar na casa de banho com a Íris ao colo e, quando abre a porta do armário dos medicamentos, não quer pensar em quem poderia estar a telefonar-lhe.
A Íris já é pesada. A minha mulher senta-se na ponta do bidé e pousa-a no chão. À sua frente, a Íris fica de pé, com a mão aberta e estendida para ela. São uma avó e uma neta. Sobre os joelhos, a minha mulher equilibra algodão, tintura de iodo, fita adesiva e um rolo de ligadura. Tem a voz delicada porque quer que a Íris não chore mais. Tenta sorrir e tenta distraí-la:
- Agora, vinhas ao hospital para te curares. Então diga lá, senhora, teve um acidente?
Com os lábios apertados e os olhos muito grandes, a Íris murmura gemidos magoados, quase fingidos, e estende-lhe mais a mão.
-Oh, vamos já curá-la. – E despeja tintura de iodo sobre uma bola de algodão que aproxima da ferida.
A Íris vai começar a chorar, mas a minha mulher consegue contê-la. Diz-lhe:
- Pronto, pronto. – E enrola-lhe a mão pequena numa tira de ligadura que prende com a fita adesiva.
Depois, encontra um instante para lhe passar os dedos pelo cabelo: ternura: e, devagar, aproxima-lhe os lábios da testa. Sorri-lhe:
- Já passou.
A Íris fica em bicos de pés, com o queixo erguido sobre o lavatório, enquanto a minha mulher lhe lava a cara ainda desordenada pelo choro. Sente-lhe o rosto. Sente-lhe o rosto através da toalha de pano turco e, só depois, pousando-lhe a mão sobre o ombro, pergunta como é que o móvel caiu."

José Luís Peixoto, in Cemitério de Pianos



Bonito demais para me apetecer comentar. Memórias, presentes e futuros.

6.2.07
schwarze katze weisser kater
Lembram-se de dançarmos esta música?
Ontem revi o filme “Gato Preto Gato Branco” e é fabuloso como o Kusturica faz o que bem lhe apetece nos filmes. Músicos a tocar presos por cordas a árvores, as caras mais feias e desdentadas filmadas em primeiro plano, a música mais desvairada, a brincadeira sarcástica entre a desgraça e a graça que nela se consegue encontrar. Tão depressa vemos a banda a invadir um hospital, como vemos tiros e perseguições, ou sorrimos a uma conquista a acontecer dentro de uma câmara-de-ar a servir de bóia gigante, num rio calmo. Uma corrida apaixonada entre girassóis.





Black cat white cat - Daddy, Don't Ever Die On A Friday


Lembram-se de dançarmos esta música?
A mim lembra-me fim de verões. Tendas desmontadas, mochilas encostadas a um canto, roupas frescas sujas e amarrotadas. Nessa noite terminava, uma vez mais, o acampamento e a partir daí sabíamos que era diferente, não mau porque não somos dados a saudosismos, mas diferente. Acabavam-se os mergulhos no rio presos, ou não, a uma corda. Acabava-se o deitar tarde e os jogos de futebol sem regras, à noite. Acabava a comida pastosa e as intoxicações alimentares. Acabavam as conversas infinitas, mais ou menos dentro da temática que era, nesse verão, uma frase do Chaplin. Acabava-se o jogo do assalto ao Castelo (ainda hoje não sei como não morremos todos pelo monte a baixo; havia quem estivesse coradinho de tentar mascarar-se com espuma de barbear). Acabava-se o coaxar dos sapos e as risadas por abafar dentro das tendas ou junto à fogueira (há sempre uma pessoa a refilar com o barulho, não há?).
Acabava-se o afastamento de tudo o que é adulto e nós dançámos a noite toda. Bem devagar quando a música abranda (quase marionetas) e com a máxima loucura quando acelera. O objectivo era esse, o máximo desvario.
Não fosse a camioneta às 7h. Há quê? 8 anos atrás? (gargalhada!)

Tu que foste despedido... comemora com esta música! (afinal eras o responsável pelos inúmeros bis e sem dúvida o que tinha mais jeito a dançá-la)

4.2.07
À procura
No referendo do próximo dia 11 muitas pessoas, como eu, continuam à procura da melhor resposta para o que nos é perguntado. Talvez até já tenham o sentido do seu voto definido, mas continuam, ainda assim, com dúvidas sobre qual será o melhor caminho.
Como é que esta questão coloca tanta gente tão competente da nossa sociedade em fileiras opostas? A concepção da vida e da liberdade entram em colisão neste assunto e quando assim é, é preciso optar por uma escala de valores. Por isso respeito quem vai votar em qualquer dos sentidos.
Continuo com dúvidas porque dos argumentos mais badalados – sobretudo pelo “Sim”, para o qual me inclino – não emana uma vontade clara de encarar o aborto como um problema da sociedade que deve ser combatido, certamente não com penas de prisão, mas combatido com medidas efectivas de apoio à mulher e ao casal.
Sou sensível ao argumento de que o “Sim” pretende criar um direito que pode ser eticamente discutível. E digo eticamente, já que se as leis não devem impor convicções morais, têm de espelhar uma ética mínima para a convivência em sociedade. Sou sensível ao argumento de que se o “Não” ganhar será difícil oferecer algum tipo de apoio às mulheres que encaram a possibilidade de abortar pois se a ele recorrerem têm a justiça contra si.
De facto, o que está escrito na pergunta que nos será colocada é se concordamos com a despenalização do aborto em determinadas circunstâncias, o que é diferente de uma liberalização. Mas se nada mais for feito além de oferecer essa possibilidade no SNS ficamos àquem do problema. Algumas vozes do “Sim” não ajudaram, fazendo logo contas ao que custaria fornecer esse serviço no SNS. Porventura não foram feitas contas para os apoios que devem ser dados a quem, apesar das dificuldades, decide levar uma gravidez até ao fim. E aí há uma opção do Estado que não é eticamente inócua. Muitas pessoas reconhecem que mesmo considerando o aborto contrário à ética que deve reger a sociedade, a sua criminalização não faz sentido. Recusam no entanto que o aborto seja a única solução que a sociedade oferece a quem tem dificuldades em levar uma gravidez até ao final.

A pergunta
Rui Tavares no "Público" de ontem:

«Dizer que é "despenalização da IVG" significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é "por opção da mulher" significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até "às dez semanas" significa que não é sem qualquer limite, dizer que é "em estabelecimento de saúde" significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde "legalmente autorizado" significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio. Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto. Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada.
É uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei "sim". Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.
»

A Igreja e o referendo
Ao contrário do que os nossos bispos gostariam, muitos crentes não têm certezas quanto ao voto no referendo próximo. Outros ainda têm certezas contrárias às do episcopado. Na sua carta aos párocos o Cardeal Pariarca diz mesmo que "para serem fiéis a Igreja, [os leigos] não devem tomar posições públicas contrárias ao seu Magistério". Parece-me uma atitude muito pouco profética essa de querer ditar a consciência das pessoas. Como relembra Frei Bento, "os problemas de consciência nem sempre foram resolvidos desta maneira". Depois recua a um trecho de Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, quando era professor de Tubinga:
«Acima do papa, como expressão da autoridade eclesial, existe ainda a consciência de cada um, à qual é preciso obedecer antes de tudo e, no limite, mesmo contra as pretensões das autoridades da Igreja.»

A este propósito vale a pena recordar um texto assinado por Ana Berta Sousa, José Manuel Pureza, Marta Parada, Miguel Marujo e Paula Abreu, sobre o referendo sobre a despenalização do aborto publicado no Público há uns dias:

A interrupção voluntária do diálogo

Somos católicos e assistimos, inquietos e perplexos, à reiteração de uma lógica de confronto crispado por parte de sectores da Igreja Católica – incluindo os nossos bispos – no debate suscitado pelo referendo sobre a despenalização do aborto. Frustrando as melhores expectativas criadas pelas declarações equilibradas de D. José Policarpo, a interrupção voluntária do diálogo volta a ser a linha oficial. E o radicalismo vai ao ponto de interrogar a legitimidade ao Estado democrático para legislar nesta matéria. É um mau serviço que se presta à causa de uma Igreja aberta ao mundo.

A verdade é que a despenalização do aborto não opõe crentes a não crentes. Nem adeptos da vida a adeptos da morte. Não é contraditório afirmarmo-nos convictamente «pela vida» e sermos simultaneamente favoráveis à despenalização do aborto. Porque sendo um mal, não desejável por ninguém, o recurso ao aborto não pode também ser encarado como algo simplesmente leviano e fácil. As situações em que essa alternativa se coloca são sempre dilemáticas, com um confronto intensíssimo entre valores, direitos, impossibilidades e constrangimentos, vários e poderosos, especialmente para as mulheres. Ora, mesmo quando, para quem é crente, a resposta concreta a um tal dilema possa ser tida como um pecado, manda a estima pelo pluralismo que se repudie por inteiro qualquer tutela criminal sobre juízos morais particulares, por ser contrária ao que há de mais essencial numa sociedade democrática.

Por isso, não nos revemos no carácter categórico e absoluto com que alguns defendem a vida nesta questão, dela desdenhando em situações concretas de todos os dias: a pobreza extrema é tolerada como “inevitável”, a pena de morte “eventualmente aceitável”, o racismo e a xenofobia é discurso vertido até nos altares. A Igreja Católica insiste em dar razões para ser vista como bem mais afirmativa “nesta” defesa da vida do que nos combates por outras políticas da vida como as do emprego, do ambiente, da habitação ou da segurança social. Além de que, no caso do aborto, a defesa da vida deve sempre ser formulada no plural. Estão em questão as vidas de pelo menos três pessoas e não apenas a de uma. Por isso, quando procuramos – como recomenda um raciocínio moral coerente mas simultaneamente atento à vida concreta das pessoas – estabelecer uma hierarquia de valores e de princípios, ela nem sempre é fácil ou mesmo clara e não será, seguramente, única e universal. Nem o argumento de que a vida do feto é a mais vulnerável e indefesa das que se jogam na possibilidade de uma interrupção voluntária da gravidez pode ser invocado de forma categórica e sem quaisquer dúvidas.

É de mulheres e de homens que se trata neste debate. E também aqui, o esvaziamento do discursos de muitos católicos e sectores da Igreja relativamente aos sujeitos envolvidos nos dilemas de uma gravidez omite a recorrente posição de isolamento, fragilidade ou subalternização das mulheres, para quem o problema poderá ser absoluto e incontornável, e reproduz a distância que sustenta a sobranceria e condescendência moral de muitos homens (mesmo que pais). A invocação do direito da mulher a decidir sobre o seu corpo é um argumento que, bramido isoladamente, corre o risco de reproduzir de uma outra forma a tradicional atitude de desresponsabilização de grande parte dos homens perante as dificuldades com que se confrontam as mulheres na maternidade e no cuidado de uma nova vida. A defesa da autonomia da mulher, da sua plena liberdade e adultez é indiscutível e será sempre tanto mais legítima e forte quanto reconhecer e atribuir ao homem os deveres e os direitos que ele tem na paternidade. Ignorá-lo é mais uma vez descarregar apenas sobre os ombros das mulheres a dramática responsabilidade de decidir sobre o que é verdadeiramente difícil. A Igreja tem, neste aspecto particular, uma responsabilidade maior. A suas preocupações fundamentais com a família exigem uma reflexão igualmente apurada sobre as responsabilidades conjuntas de mulheres e homens na concepção e cuidado da vida.

Infelizmente, pelas piores razões, o discurso oficial da Igreja está muito fragilizado para a defesa de abordagens à vida sexual e familiar que acautelem o recurso ao aborto. A moral sexual oficial da Igreja – e, em concreto, em matéria de contracepção – fecha todas as alternativas salvo a da castidade sacrificial. É um discurso que não contribui, de modo algum, para a defesa de uma intervenção prioritariamente preventiva, em que ao Estado fosse exigível um sistemático e eficaz serviço de aconselhamento e assistência no domínio do planeamento familiar e da vida sexual. Pelo contrário, o fechamento dos mais altos responsáveis da Igreja a uma discussão mais séria e aberta sobre a vivência concreta da sexualidade denuncia um persistente autismo, que ignora a sensibilidade, a experiência, o pensamento e a vida das mulheres e dos homens de hoje.

Em síntese, o recurso ao aborto é sempre, em última análise, motivo de um grave dilema moral. E é nessas circunstâncias de extrema dificuldade que achamos ter mais sentido a confiança dos cristãos na capacidade de discernimento de todos os seres humanos, em consciência, sobre os caminhos da vida em abundância querida por Deus para todos e para todas. Optar por uma reiteração de princípios universais, como o do respeito fundamental pela vida, confundindo-os com normas e regras de ordenação concreta das vidas é, além do mais, optar por uma posição paternalista, de imposição e vigilância normativas, e suspeitar de uma postura fraternal, de confiança e solidariedade, com os que, de forma autónoma, procuram discernir as opções mais justas. Partir para este debate com a certeza de que a despenalização do aborto é porta aberta para a sua banalização é abdicar de acreditar nas pessoas, em todas as pessoas, e na sua capacidade de fazer juízos morais difíceis. Não é essa abdicação que se espera de homens e mulheres de fé.

3.2.07
Sábado

Leslie Feist, Mushaboom

Sozinha.
Chá de maçã em loiça de latão vermelho.
Estudo bem quieta, com notas num caderno que escolhi... sem linhas, claro.
Uma fatia de bolo de chocolate.
Uma lareira acesa.
Cheiro a cafés (que esse eu sinto).
E quando a música ambiente da esplanada mudou para qualquer coisa japonesa escolhi a minha. Sabe bem quando alguém nos conhece o suficiente para nos juntar músicas que não conhecemos mas logo gostamos. Obrigada.

Como um dia rabugento se tornou bem melhor.

1.2.07
Ânimo
O anfiteatro está ali encravado numa parte do edifício, que construído para convento é, há já muito tempo, um hospital.
Às escuras e muito juntos uns aos outros. Quase demasiado.
Ele, um médico antigo da casa. Convidado desta aula. Meu desconhecido. Chegou atrasado e desculpou-se.
Deu uma aula absolutamente espectacular onde apresentava os dados pouco a pouco e nós tínhamos de participar. Responder ao que nos desafiava.
Eu sou sempre muito calada nestas coisas de anfiteatros e plateias. E detesto que assim seja.
E os meus colegas arriscavam respostas, naturalmente em tom de pergunta ou de talvez…
E o professor dizia “afirma ou pergunta?” e antes que a pessoa respondesse ele sorrindo dizia “afirme!”. E pela aula ele defendeu “Comprometam-se! Vá comprometam-se com a vossa resposta! Compromete-se?”
Ele encorajava-nos, acho que nos queria destemidos, bravos, audazes, arrojados!

E continuava… “Não digam «distensão», juntem-lhe um adjectivo! Juntem sempre um adjectivo às vossas descrições!”. E ria-se divertido, contente, com os adjectivos que iam surgindo.

E com sinceridade disse “o erro é extremamente pedagógico”.

Fiquei aterrada com a parte médica. Escrevi na crítica que nos pedem (prática em todas as aulas deste ano) qualquer coisa como “Para além da fantástica lição de medicina, foi também uma enorme lição de humildade para a nossa (ou minha) ignorância. Um bom estímulo para mais procurar aprender. Muito obrigada.”

E ficou por aqui, para mim, para tudo, tantas vezes pensado e nunca assim dito, o “COMPROMETAM-SE”…




imagem antiga... lembra-me quando me atirava dos baloiços em movimento. coração a bater disparado antes do salto, mas saltava.



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