3.6.04
ainda sobre o horizonte do infinito e o abandono de Deus
O Timshel comentou o meu post sobre "o horizonte do infinito", colocando "muitas d�vidas sobre o Deus do longo prazo". Entretanto apareceu um post do Manuel sobre os s�tios bonitos onde alguns v�em Deus e que simultaneamente lembram sofrimento a outros, que nunca ver�o Deus ali. Atr�s disto vieram interessantes coment�rios de v�rias gentes. O Timshel criou o conceito da "quasi-omn(im)pot�ncia de Deus". O Jos� explica que "o princ�pio da incerteza de Heisenberg tem um significado profundamente teol�gico". E remata a discuss�o sobre o sofrimento:
�Deus criou-nos como filhos para vivermos em liberdade e n�o numa redoma como mascotes. Aceitando isto podemos talvez perceber que o sofrimento n�o � um castigo nem a prova duma aus�ncia, podemos talvez perceber que o sofrimento deve ser uma oportunidade de ter consci�ncia da precaridade da nossa exist�ncia terrena, uma oportunidade de, tendo maior consci�ncia da nossa condi��o humana, nos aproximarmos de Deus. Seguramente que esta consci�ncia nos eleva e alivia o sofrimento. Mas em caso algum diminui a nossa responsabilidade de aliviar o sofrimento do pr�ximo.�

Retomemos o Jo�o Bernard da Costa, agora sobre o grito de Jesus na Cruz: "Pai, Pai, porque me abandonaste?": "No imediato da agonia e da morte, o Filho do Homem, que Ele tamb�m era, deixou de ver o tempo todo (ou s� viu outro tempo todo, o nosso). E sentiu o terr�vel abandono de Deus, a terr�vel solid�o de Deus."
Recordo uma interven��o do Edgar Silva, numa Sess�o de Estudos do MCE em que nos falava do abandono de Deus:
�N�s estamos, consciente ou n�o, muito influenciados por uma vis�o da hist�ria que ainda � a vis�o do milagre. Uma vis�o da vida em que o mundo e a hist�ria ainda dependem muito de Deus, da possibilidade de Deus intervir, acontecer e fazer. E estamos ainda a sofrer as dificuldades de aceitar um dos elementos fundamentais da nossa experi�ncia crist�, que � a ideia de que a hist�ria est� nas nossas m�os, depende fundamentalemente de n�s. Deus abandonou-nos irremediavelmente e este abandono faz com que a constru��o da hist�ria, a constru��o da vida, a transforma��o dos acontecimentos, dependa apenas de n�s e do nosso agir (...). Essa � talvez a grande novidade de Jesus Cristo: Ele vem desdivinizar a hist�ria, vem profanizar os acontecimentos, deixando-os nas nossas m�os. (...) Eu acho que s� mesmo Deus poderia confiar assim, com esta imensid�o na liberdade humana.�

Onde fica o tal "horizonte do infinito" depois disto tudo? O agir crist�o tem um objectivo claro: construir a Terra da Alegria, transfigurar a cidade, torn�-la uma cidade nova onde todos tenham vez e voz. E esse agir transformador s� � poss�vel porque existe um horizonte ut�pico de esperan�a - os Futuros que nos espreitam. � a isto que se chama, na linguagem teol�gica, o Reino de Deus. Que paradoxalmente n�o � deste mundo, mas aqui come�a. Como paradoxalmente o Deus omnipotente insite em respeitar a nossa liberdade. Paradoxos e paradoxos. Como Deus ser amor e ser terr�vel. Como o princ�pio da incerteza. Como come�ar a falar de sofrimento e acabar em esperan�a. Como algu�m ter morrido e ressuscitado.



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