6.6.04
�frica
"�ramos mais de 20, entre passes e senhas, naquela paragem batida pela chuva. Segunda-feira, 8.30h.
O sil�ncio falava t�o alto que se ouvia o respirar e o respirar via-se, branco de vapor gelado.
O autocarro n�o vinha e o sil�ncio engrossava. O Pecado Original revelava-se em todas as bocas fechadas. Por causa desse Pecado long�nquo � que n�s ali est�vamos. Se n�o fosse esse Pecado que "outros" cometeram n�s estar�amos onde, verdadeiramente, quer�amos estar: na cama, no quentinho, longe da condena��o do trabalho. Ningu�m dizia nada mas todos est�vamos a rogar pragas ao pai Ad�o e � m�e Eva.
Por fim, l� veio o 7. T�o cheio, mas t�o cheio que parecia n�o caber nem mais um ai. Ficou provado, como sempre fica, que o Portugu�s � el�stico e o seu corpo tem uma massa inversamente proporcional ao n�mero de pessoas concentradas numa determinada �rea.
L� entr�mos todos, l� coubemos todos. Como nunca, eu que nem sou dos mais pequenos, me senti submerso, rodeado, cercado, prensado, inamov�vel.
Avaliei a situa��o mas n�o tive tempo para me afligir. Por sobre o meu ombro esquerdo poisou um redondo, enorme, firm�ssimo e macio. Mas t�o grande e poderoso que o seu doce peso e o seu agrad�vel quentinho se transmitiram ao meu ombro e, pouco a pouco, se fez a calma no meu ser.
Atr�s de mim, alt�ssima, grandiosa, com enorme majestade, uma negra apoiava o seu seio no meu ombro.
Mais uma vez, como tantas vezes no passado, a Grande M�e �frica veio em aux�lio da velha Europa."


Donde veio este curt�ssimo conto escrito por J.P. existem muitos mais. Todos eles de linguagem simples, cheios de humor subtil e descrevendo com caricaturas preciosas e inteligentes de quem observa um dia-a-dia portugu�s no autocarro 7. J.P. foi uma bel�ssima prenda na minha vida, pessoa que a engrandece dando-lhe leveza. Vou tentando recolher devagarinho os ensinamentos exemplares que me vai passando no seu jeito pr�prio de viver. Um obrigado a ele pela ced�ncia deste texto.



HaloScan.com