22.4.05
Moby Dick, o conforto e o lugar da amizade

“Estávamos mesmo tão acordados que a posição deitada se tornou fatigante e acabámos por nos sentarmos, bem protegidos pelos cobertores, com os queixos enterrados entre os joelhos erguidos, como se as nossas coxas fossem botijas de calor. Sentíamo-nos perfeitamente bem ali no quente, tanto mais que lá fora, e no próprio quarto, sem aquecimento, reinava um frio cortante. A este respeito acrescento que para se gozar plenamente o calor é indispensável ter uma parte do nosso corpo exposta ao frio; porque neste mundo a única medida de valores é a que resulta do contraste. (…) Se uma pessoa se vangloria de um conforto pleno e perene, isso é o mesmo que afirmar que não se encontra mais em condições de avaliar o que é o desconforto. Mas se, à semelhança de Queequeg e de mim próprio, uma pessoa se encontra na cama com a ponta do nariz e o alto da cabeça ligeiramente friorentos, então, na verdade, essa pessoa pode afirmar com toda a consciência que sente o mais delicioso e inequívoco calor.”

Peço desculpa por mais um moby dick. A verdade é que o tenho lido devagar, muito devagar. Antes de dormir, antes de apanhar o autocarro, antes de uma aula. A verdade é também que neste livro tudo parece passar-se devagar. Correram muitas páginas e apenas um dia. Queequeg e Ismael voltaram à mesma cama, mas agora estão casados, o que na língua de Queequeg (o assustador canibal da primeira noite) quer dizer “amigos íntimos”. Não sabem porquê mas acreditam que a “cama é o lugar mais propício para os amigos trocarem confidências. Diz-se que os casais põem no leito a alma a nu, e que os mais velhos ficam até de madrugada a conversar dos tempos passados. E assim, na lua-de-mel da nossa amizade, eu e Queequeg formávamos, ali deitados, um casal feliz e enternecido.”
É incrível que este romance tenha data de publicação de 1851 (foi o que consegui descobrir) e que descreva assim a amizade entre dois homens, dois marinheiros.



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